Reabertura de Notre-Dame dá a Macron um ‘respiro’ na crise, mas seu legado segue ameaçado

Cinco anos após um incêndio devastar parte da Catedral de Notre-Dame, em Paris, a famosa igreja reabriu as suas portas neste sábado, com o toque de seu sino centenário marcando um renascimento emocional para um dos patrimônios mais conhecidos do mundo. A reabertura é vista como um momento de triunfo para o presidente da França, Emmanuel Macron, que desde o início apresentou seu plano ambicioso de reconstrução como o “projeto do século” — um alívio bem-vindo de seus problemas políticos domésticos.

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A celebração da noite, que contou com a presença de 1.500 autoridades, incluindo o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, o príncipe William do Reino Unido e o mandatário ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, destacou o papel duradouro da Catedral de Notre-Dame como um farol espiritual e cultural, publicou a Associated Press. Observadores consideram o evento como uma estratégia de Macron para transformá-lo em um encontro diplomático de grande escala, enquanto também ressaltam a capacidade da França de se unir no palco global, apesar das crises internas.

— Estou diante de vocês para expressar a gratidão da nação francesa — disse Macron em mensagem direcionada àqueles que salvaram, ajudaram e reconstruíram a catedral. — Esta noite, os sinos de Notre-Dame estão tocando novamente, e o órgão despertará, enviando a música da esperança por todo o interior luminoso, alcançando os parisienses, a França e o mundo.

Embora a catedral estivesse repleta de líderes mundiais, a ausência do Papa Francisco não deixou de ser notada. A decisão do pontífice de não comparecer à reabertura foi vista por alguns na imprensa francesa como um ato de desprezo deliberado. Uma mensagem de Francisco lida na cerimônia dizia que o esforço para reconstruir a catedral era profundamente encorajador, sendo o “sinal de que o valor simbólico e sagrado de um edifício assim ainda é amplamente reconhecido”.

Quem também não esteve presente foi o atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que foi representado pela primeira-dama, Jill. A reabertura ofereceu uma chance de diplomacia para Trump, que busca assumir a responsabilidade de representar os EUA. O republicano se reuniu com Zelensky e com Macron antes da reabertura — e, embora não se saiba o que foi discutido no encontro, era esperado que o ucraniano abordasse os desdobramentos da guerra em seu país. Já na cerimônia, Trump foi posicionado na primeira fila, entre o mandatário francês e sua esposa, Brigitte.

A glória diplomática e política de Macron, contudo, está distante do cenário enfrentado hoje pelo líder francês, que comanda um país em profunda crise, com um governo derrubado, sem um Orçamento e diante de uma divisão política tão severa que parece não haver um caminho a seguir. Macron não está recebendo aplausos de gratidão, mas sim pedidos para que renuncie.

— Não vejo o que pode acontecer se o colocarem de novo em seu cavalo — disse Vicent Martigny, professor de Ciência Política na Universidade de Nice. — Ele tem o cheiro de um final que nunca chega ao fim.

Muitos culpam Macron pela atual bagunça política na França. Depois que seu partido foi trucidado na disputa para o Parlamento Europeu em junho passado, ele chocou o Gabinete e o país ao convocar eleições para a Assembleia Nacional, de 577 assentos. O resultado, segundo ele, poderia dar algum “esclarecimento” à França.

Em vez disso, os eleitores escolheram um Parlamento truncado, com as cadeiras divididas entre três campos políticos, nenhum deles capaz de aprovar leis pro conta própria, e dois partidos extremistas, cujos líderes são candidatos ao posto do presidente.

— Macron é uma vítima de seu próprio narcisismo — disse Alain Minc, um cronista político e longevo conselheiro de presidentes franceses. — Ele estava em estado de negação da realidade.

O resultado foi uma votação avassaladora da oposição, na quarta-feira, para derrubar o governo empossado menos de três meses antes, no mandato mais curto de um primeiro-ministro desde a fundação da Quinta República na França.

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Agora, Macron está sob pressão para escolher rapidamente um novo nome que possa oferecer ao país alguma estabilidade. Quem quer que escolha, poucos acreditam que conseguirá navegar pelo campo minado de um Parlamento tão dividido.

— Estamos olhando para anos de impasses — disse Jean-François Copé, ex-ministro do Orçamento do premier Dominique de Villepin, apoiador do agora ex-primeiro-ministro Michel Barnier e que está entre as vozes do campo de centro que querem a renúncia de Macron. — É uma catástrofe.

O mandato de Macron vai até 2027, e ele disse que a ideia de renunciar não passa de uma “ficção política”.

— Fui eleito duas vezes pelo povo francês — afirmou, durante uma visita de Estado à Arábia Saudita, onde passou algum tempo fechando acordos comerciais. — Sou extremamente orgulhoso, e honrarei essa confiança com toda minha energia para servir meu país até o último segundo.

Mas está claro que Macron está enfraquecido.

Presidente da França, Emmanuel Macron, visita a Catedral de Notre-Dame, em Paris — Foto: Sarah Meyssonnier / POOL / AFP

Eleito em 2017 como o mais jovem presidente francês, então com 39 anos, ele prometeu uma abordagem nova, moderada e aberta aos negócios para o país. Mas seu discurso de “ao mesmo tempo” irritou alguns, e seu estilo de governo personalista — que em geral ignorava a poderosa Câmara baixa do Parlamento, onde seu partido tinha uma maioria concisa — lhe deu o apelido jocoso de “Júpiter”.

Nas eleições parlamentares de 2022, o partido de Macron e seus aliados perderam cadeiras, mantendo apenas uma maioria relativa. Em julho, após a eleição antecipada, eles perderam ainda mais. Isso forçou Macron a indicar um premier do maior partido conservador, não de sua própria sigla, e criar uma frágil coalizão entre os aliados e o que restou do campo conservador tradicional.

Apesar de Barnier afirmar que conversava diariamente com Macron, também deixava claro que ele atuava por conta própria e tomou decisões como propôr um imposto temporário a grandes negócios e os super-ricos, o que ia contra a postura pró-negócios do presidente,

Desde então, as funções outrora amplas de Macron foram restritas ao que estipulam a Constituição e a tradição: cuidar da política externa e do Exército. Colunistas escreveram sobre sua quase desaparição dos olhares públicos, e integrantes de seu partido afirmaram aos jornais que ele estava cada vez mais isolado.

Torre Eiffel com os anéis olímpicos durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Paris — Foto: Lionel BONAVENTURE / POOL / AFP
Torre Eiffel com os anéis olímpicos durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Paris — Foto: Lionel BONAVENTURE / POOL / AFP

O sucesso dos Jogos Olímpicos de Paris deu a Macron um breve respiro — chamado por alguns de “interlúdio encantado” — durante o qual se tornou o principal líder de torcida do país. Ele mostrou aos compatriotas o que sua nação é capaz de fazer quando sonha alto. Mas o júbilo não tardou a ser substituído pelo rancor político e o tradicional pessimismo francês.

Em seu círculo próximo, as pessoas apontavam para o paradoxo das críticas a ele: após anos o acusando de agir como Júpiter e controlando o Parlamento, seus rivais agora culpam Macron pela bagunça que ficou para trás quando os parlamentares foram deixados em paz.

Um amigo do presidente e ex-parlamentar aliado, Patrick Vignal, disse que ele se sentia ferido pelos resultados do partido nas eleições. Mas afirmou acreditar que Macron recuperaria seu brilho, especialmente se sair de Paris e se conectar com o povo em um novo e grandioso projeto.

— Ele é um guerreiro — disse Vignal, que vive em Montpellier, no sul. — Ele ainda tem três anos pela frente. Fazê-lo renunciar não seria bom para ninguém, e acredito que ele pode voltar aos trilhos, assim como o fez na crise dos Coletes Amarelos.

Manifestantes do movimento dos Coletes Amarelos durante protesto em Paris — Foto: Ian LANGSDON / AFP
Manifestantes do movimento dos Coletes Amarelos durante protesto em Paris — Foto: Ian LANGSDON / AFP

Os Coletes Amarelos eram motoristas que bloquearam vias ao redor do país para protestar, inicialmente, contra um imposto sobre os combustíveis e, mais adiante, contra o sentimento de abandono pelo governo. Os atos se tornaram o maior desafio do primeiro mandato de Macron, e em resposta ele enfrentou os manifestantes de peito aberto, rodando o país para conversar com cidadãos em eventos onde eram feitas perguntas e dadas respostas. Macron chamou isso de O Grande Debate Nacional.

A crise foi um dos pontos mais baixos para a popularidade do presidente. As pesquisas mostraram sua aprovação em níveis mínimos, e os pedidos para que renunciasse se acumularam rapidamente — não apenas da extrema esquerda e da extrema direita, cujo interesse é claro, mas também de vozes moderadas.

Alguns dos argumentos são estruturais. Constitucionalmente, a Quinta República foi criada para funcionar com um presidente forte supervisionando uma maioria forte no Parlamento, afirmou Copé, que agora é prefeito da cidade de Meaux. Sem isso, e com os compromissos considerados sinais de fraqueza na política francesa, impasses são inevitáveis, afirmou.

— Não há outra alternativa senão a renúncia de Macron — declarou Copé.

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Outros afirmaram que a substituição de Macron não mudará a composição da Câmara baixa do Parlamento, que deve permanecer assim até julho do ano que vem, quando novas eleições poderão ser convocadas.

— Ainda estaremos sem um Orçamento e sem um governo — disse Benjamin Morel, professor de lei pública na Universidade Panthéon-Assas em Paris. — Seria a mesma confusão, e a sociologia política francesa é tal que nem está claro hoje, no caso de outra eleição parlamentar, se teríamos uma maioria novamente.

Se não lhe der glórias, a reabertura de Notre-Dame deve ao menos oferecer um breve respiro, um momento que chamou, como nas Olimpíadas, de “impulso de esperança”. Mas os Jogos, assim como toda a glória, foram algo fugaz.

— A reabertura da igreja não será suficiente para salvá-lo — disse Martigny. — Ele precisa de um milagre.

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  • Redação Uberlândia no Foco

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