Hamas diz que não faz sentido continuar com negociações por trégua em Gaza enquanto Israel trava ‘guerra da fome’

Um alto dirigente do Hamas afirmou nesta terça-feira que “não faz sentido” continuar as negociações por uma nova trégua na Faixa de Gaza e por um acordo de libertação de reféns, indicando que o grupo não participará de novas discussões enquanto Israel continuar a travar o que chamou de uma “guerra de fome”. A declaração foi feita após o Gabinete de Segurança israelense aprovar no domingo um plano para expandir suas operações militares no enclave, incluindo a conquista do território palestino e o deslocamento da população.

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Na ocasião, as autoridades do Estado judeu afirmaram que o objetivo da operação “em larga escala” era garantir o retorno dos reféns mantidos pelo Hamas, além de sua “derrota decisiva”. Nesta terça, o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, afirmou que a vitória de Israel significaria a destruição total do território palestino, com os civis – cerca de 2 milhões – sendo enviados para o sul, em uma “zona humanitária sem Hamas ou terrorismo” antes de “saírem para terceiros países”.

— Não faz sentido engajar-se em negociações ou considerar novas propostas de cessar-fogo enquanto continuarem a guerra da fome e a guerra de extermínio na Faixa de Gaza — disse Basem Naim, membro da ala política do Hamas e ex-ministro da Saúde de Gaza, acrescentando que o mundo deve pressionar o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a acabar com os “crimes de fome”.

Naim se referia ao bloqueio imposto por Israel à entrada de ajuda humanitária em Gaza, em vigor desde o fim da última trégua, no início de maio. A Organização das Nações Unidas (ONU) condenou a medida, afirmando que ela agrava a escassez de alimentos, água e medicamentos para os habitantes do território. O Estado judeu, por sua vez, alega que o bloqueio visa impedir que o Hamas desvie ajuda, e afirma que há suprimentos suficientes para pelo menos mais duas semanas.

A maioria dos 250 reféns capturados pelo grupo palestino nos ataques de 2023 foi libertada em acordos anteriores de trégua, com um pequeno número sendo resgatado em operações de resgate. Dos 59 cativos que permanecem no enclave, estima-se que pelo menos 25 estejam vivos. Ainda assim, as negociações por um cessar-fogo estão estagnadas há semanas, com o Hamas se recusando a discutir o assunto enquanto o Estado judeu não concordar em encerrar a guerra e se retirar de Gaza.

Israel descarta essa possibilidade enquanto o Hamas permanecer armado e no controle do território. Autoridades israelenses, contudo, anunciaram que sua nova ofensiva não terá início antes da visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Oriente Médio na próxima semana, dando ao Hamas o que chamaram de uma “janela de oportunidade” para aceitar um acordo – possibilidade que parece distante.

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Trump deve viajar à Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos a partir de 13 de maio, sem uma parada prevista em Israel. Não está claro se ele usará a viagem para pressionar por uma trégua em Gaza, embora a iniciativa esteja alinhada com seu objetivo declarado de estabilizar a região. No passado, o republicano já havia reivindicado os créditos por um acordo de cessar-fogo firmado pouco antes de sua posse, em janeiro.

Em abril, o presidente americano pressionou Netanyahu a permitir o envio de mais alimentos e medicamentos para Gaza. Nesta semana, porém, ele reproduziu a narrativa israelense ao afirmar que o Hamas vinha interceptando os suprimentos antes do bloqueio do Estado judeu. A repórteres no Salão Oval na segunda, ele reconheceu que os palestinos estão “passando fome” e disse que iria “ajudá-los a conseguir comida”.

— O Hamas está tornando isso impossível porque toma tudo o que é levado para lá — reforçou ele, sem apresentar provas.

Segundo o Canal 12 israelense, o enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, tem pressionado por avanços em um acordo para que o Hamas liberte os reféns restantes antes do fim da viagem de Trump ao Oriente Médio – um movimento que, se realizado, quebraria mais de dois meses de impasse. Ele estaria em contato quase diário com o Catar e o Egito, que atuam como mediadores, e também com Israel, na tentativa de firmar um tratado para encerrar a guerra, que já dura 19 meses.

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O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed al-Ansari, afirmou que os esforços de mediação em Gaza continuam “apesar das circunstâncias difíceis” e “resultaram na libertação de mais reféns do que as operações militares”. Ele acrescentou que as negociações conduzidas pelo Catar, Egito e EUA têm como foco encerrar a “guerra devastadora” em Gaza – e que, nesse cenário, a “ajuda humanitária não pode ser usada como moeda de troca ou ferramenta de negociação”.

Ainda nesta terça-feira, o parlamentar da oposição israelense Benny Gantz afirmou que “qualquer um que fale sobre um Estado palestino está desconectado da realidade”, alertando que o país “não pode permitir uma ameaça direta e significativa aos seus cidadãos em nenhuma de suas fronteiras”. Ele declarou que o país deve manter o controle de segurança e “liberdade de ação” em Gaza, na Cisjordânia, no sul do Líbano e ao longo da fronteira com a Síria, impedindo “qualquer ameaça”.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que a ampliação das operações terrestres israelenses e uma presença militar prolongada “inevitavelmente levarão à morte de incontáveis civis e à destruição ainda maior de Gaza”. A preocupação também foi exposta pelo premier do Reino Unido, Keir Starmer, e o presidente da França, Emmanuel Macron, que concordaram que “um novo processo de paz é necessário”.

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Dois meses após Israel fechar todas as passagens para Gaza, impedindo a entrada de suprimentos básicos, organizações humanitárias anunciaram que seus estoques de ajuda alimentar se esgotaram – e que a fome em massa pode ser iminente no enclave. Embora o Estado judeu diga que o bloqueio visa pressionar o Hamas a libertar os reféns, na semana passada o alto comissariado da ONU para os direitos humanos, Tom Fletcher, alertou que o uso da fome como tática militar constitui crime de guerra.

“A ajuda, e as vidas civis que ela salva, nunca devem ser moeda de troca”, disse ele em comunicado na última quinta-feira. “Bloquear a ajuda faz civis morrerem de fome. Deixa-os sem apoio médico básico. Rouba-lhes a dignidade e a esperança. Impõe uma punição coletiva cruel. O bloqueio da ajuda mata. (…) Todos os civis merecem proteção igualmente”.

A escassez de alimentos e a falta de perspectiva sobre quando deve ocorrer a entrada de mais ajuda no território também levaram ao aumento de saques a estoques de alimentos e cozinhas comunitárias em Gaza, revelando o desespero crescente diante da fome. A ONU alertou que a situação atual é “provavelmente a pior até agora”, e a Cruz Vermelha declarou na última sexta-feira que a “resposta humanitária” no enclave “está à beira do colapso total”, destacando que, sem ação imediata, o território “mergulhará ainda mais no caos”.

— As cozinhas comunitárias começaram a fechar, e mais pessoas estão passando fome — disse Olga Cherevko, porta-voz do Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), citando relatos de crianças e outros grupos que morreram por desnutrição. — O acesso à água também está se tornando impossível. Agora mesmo pessoas estão brigando por água. Um caminhão-pipa acabou de chegar, e as pessoas estão se matando por água. Há poucos dias, uma amiga viu pessoas pegando fogo por causa das explosões e não havia água para salvá-las.

Os militares israelenses lançaram sua campanha para destruir o Hamas em resposta ao ataque transfronteiriço de 7 de outubro de 2023, quando 1,2 mil pessoas foram mortas. Desde então, pelo menos 52,5 mil palestinos foram mortos em Gaza, incluindo 2,4 mil desde que a ofensiva de Israel foi retomada. (Com Bloomberg e AFP)

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