Brasil enfrenta desafio com tarifaço de Trump e aposta em negociações discretas

Um ano após comemorar o bicentenário das relações com os EUA, o Brasil entrou em uma fase menos festiva com seu parceiro mais tradicional. Além de mudar o comércio global, o tarifaço anunciado pelo presidente americano, Donald Trump, em 2 de abril impôs novos desafios locais. Ainda que o Brasil tenha sido relativamente poupado, com alíquotas de 10% nas exportações aos EUA, alguns setores serão mais afetados. É o caso da indústria, já que a pauta exportadora para os americanos é rica em produtos da indústria de transformação.

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— Todo mundo quer entender como o setor privado está disposto a colaborar — disse Frederico Lamego, superintendente de relações internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), após uma reunião no dia 9 de maio com autoridades americanas e uma missão de empresários brasileiros, em Washington. — Colocamos as nossas preocupações. Mas o Brasil não está na ordem do dia. A preocupação do governo americano é outra. Estão atualmente tratando com 20 a 30 países, vamos precisar esperar.

É mais difícil negociar hoje nos setores de aço e alumínio do que aconteceu no primeiro mandato de Trump, concorda Abrão Neto, CEO da Amcham, Câmara Americana de Comércio para o Brasil:

— Atualmente, é um cenário mais complexo, mas as conversas estão acontecendo.

Ele se refere às tarifas de 25% impostas aos dois itens, que precisavam apenas respeitar as cotas estabelecidas anteriormente ao Brasil.

A indústria está apreensiva. Pelos cálculos da Amcham, 70% das nossas exportações estarão sujeitas à alíquota de 10%. Cerca de 20%, a uma tarifa maior, caso do aço e alumínio. O segmento de autopeças também entrou nessa categoria, que pode abarcar ainda produtos derivados de madeira. Outros 10% estão isentos, principalmente no setor de energia, que foi poupado por Trump. Uma boa notícia, já que petróleo é o principal produto de exportação aos EUA.

O Brasil reagiu, ainda que em um grau moderado. Primeiro, em março, contra as medidas sobre aço e alumínio. Em abril, o Itamaraty lamentou a adoção das tarifas que “violam os compromissos perante a Organização Mundial do Comércio (OMC) e impactarão todas as exportações brasileiras de bens para os EUA”. Na ocasião, em reunião de cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) em Honduras, Lula chegou a discursar contra as “tarifas arbitrárias” de Trump.

— O presidente sempre fala um pouco mais nessas situações. Faz parte do estilo dele — diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. — Mas, em termos concretos, a situação é relativamente positiva. O governo tem agido de uma forma correta, procurando negociar justamente no caminho de cotas.

Ele acha que o setor de álcool também poderá ser contemplado com cotas, como alternativa à tarifação.

— Os americanos podem abrir o mercado para o açúcar brasileiro, enquanto o Brasil facilitaria a entrada de etanol dos EUA. Um caminho virtuoso está sendo construído pela diplomacia brasileira — diz.

Mas Lamego não enxerga ainda uma luz no fim do túnel. — Isso está muito distante. Nem está sendo colocado ainda — adverte.

Este é justamente o momento dos negociadores. Em 8 de maio, o governo Trump anunciou um primeiro acordo com o Reino Unido e disse que outros se seguiriam. Mas, como alerta Lamego, isso foi recebido com muita preocupação, já que essa negociação estabeleceu a nova alíquota padrão de 10%. Segundo o economista da CNI, “esse acordo coloca um novo normal, possivelmente não vamos fugir disso”.

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Quatro dias depois, foi a vez de China e EUA anunciarem uma pausa de 90 dias na escalada. Trump havia imposto alta de até 145% para as importações chinesas, e Pequim havia retaliado com uma alíquota de 125%. Com o anúncio, esses índices caíram para 30% e 10%, respectivamente.

Vantagem em negociações

A atuação do Brasil tem sido discreta. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Geraldo Alckmin, teve uma primeira reunião com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, e com o representante comercial Jamieson Greer, em 7 de março. Esse canal com o governo Trump tem sido a base das negociaç
ões que também envolvem o ministro chanceler Mauro Vieira. Já o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se encontrou no dia 4 de maio com o secretário de Tesouro, Scott Bessent.

— Conversamos sobre todos os assuntos mais importantes — declarou na ocasião.

O Brasil tem uma vantagem nas negociações. Há pelo menos 15 anos registra déficit no comércio com os EUA. Além do déficit de US$ 7,2 bilhões em bens em 2024, registrou déficit em serviços de US$ 30 bilhões no ano passado, lembra o executivo da Amcham.

Ainda que menos contundente do que as reações da União Europeia e da China, a resposta brasileira foi relevante. O Congresso aprovou de forma acelerada a “lei da reciprocidade”, que autoriza o governo a retaliar “países que imponham barreiras comerciais”. Mas a aposta é de que vai haver uma acomodação.

Abrão Neto reforça que os EUA são o maior destino dos nossos produtos industriais, com um recorde de US$ 31,6 bilhões em exportações no ano passado.

— Isso representa cerca de 80% da nossa pauta exportadora para o país, uma proporção que não temos com nenhum outro parceiro comercial — diz.

Diante do revés, o Brasil tem como alternativa abrir discussões mais amplas com os EUA, que vão além das tarifas.

— São áreas como de transição energética, minerais críticos, tecnologia e propriedade intelectual — defende.

No primeiro governo Trump, o Brasil também aproveitou para acelerar o acordo do Mercosul com a União Europeia e outros países. Tracy Francis, CEO de Brasil e América Latina da consultoria McKinsey, diz que exportadores de commodities como o Brasil estão de olho nas oportunidades que se abrirão.

— Quem não está negociando com a China está perdendo o timing — afirma.

Há acordos entre países que começam a se desenhar que não aconteciam antes, pondera. Ela diz que algumas cadeias de valor globais estão se reconfigurando, como semicondutores e baterias, o que abre oportunidades. A aposta é que o status quo será retomado.

— Há um estoque de US$ 358 bilhões de recursos americanos, um terço de todo o investimento estrangeiro produtivo no Brasil — defende Abrão Neto. — E os EUA também são o principal destino de investimento brasileiro no exterior. Isso deve ganhar força. Mas previsibilidade e segurança jurídica são fundamentais.

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  • Redação Uberlândia no Foco

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