
O psicanalista Christian Dunker defende que a prevenção ao suicídio e o cuidado com a saúde mental exigem um olhar muito mais amplo do que a lógica neoliberal de diagnósticos rápidos e medicalização. “Há uma necessidade de ampliarmos o conceito de saúde mental para muito além dos diagnósticos, que estão hiperinflados e não estão refletindo uma mudança necessariamente de cultura. Parece que o nosso vocabulário para falar de saúde mental está empobrecido”, disse, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, nesta quarta-feira (24).
Segundo ele, a atenção deve começar cedo. “A situação de prevenção ao suicídio começa bem antes, na atenção às lesões autoinfligidas, no cuidado com aquela adolescente que está se cortando. Ela começa na atenção, não é com aquele garoto que está brigando, contestando, mas naquele que está isolado no canto da sala e que ninguém olha para ele porque não está criando problemas”, orientou.
Dunker também alerta para os impactos da hiperconexão e do uso desregulado das telas. “As redes sociais, quando usadas de forma temerária, produzem vidas em estrutura de palco. Aí tem todos os problemas que a inflação narcísica traz para qualquer pessoa: sentimento de solidão, de isolamento, de menosvalia, agressividade”, cita.
O psicanalista destaca que esse efeito é ainda mais grave para os jovens da geração Z (nascidos entre meados da década de 1990 até o início da década de 2010), que cresceram sob uso intenso de celulares e passaram por uma pandemia em isolamento. “Isso cria privações, déficit de socialização. Outro efeito muito brutal é a queda e a redução do exercício da sexualidade. A geração Z transa menos do que as gerações anteriores. Isso tem a ver com esse recuo em relação ao outro”, pontua.
Para Dunker, as estratégias de prevenção precisam fortalecer a vida em comunidade e reduzir a solidão, que afeta sobretudo pessoas idosas. “Temos uma recomendação geral: como você controla esses efeitos de hiperexposição? Usando as telas com outras pessoas, falando sobre o que você está vendo, frequentando, produzindo uma circulação maior. O grande perigo é aquela pessoa que usa telas em situação de isolamento, solidão”, indicou.
A reflexão trazida pelo Setembro Amarelo, campanha brasileira de prevenção ao suicídio, deve reforçar a importância de redes de apoio, afirma Dunker. “Quando vamos falar em ações profiláticas, onde está a rede? A de sustentação e saúde mental? Não é só o psicólogo ou o psiquiatra. Se você não cuida da sua rede, dos seus amigos, dos seus familiares, da sua dedicação à cultura, à leitura, às práticas envolvendo o corpo, isso tudo [impacta na] saúde mental”, explica.
Se você está passando por um momento difícil, procure ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio gratuitamente pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br, 24 horas por dia.
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.