
De acordo com informações da Al Jazeera, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, rompeu o silêncio para exigir unidade nacional diante do que classificou como ações terroristas e uma conspiração arquitetada por inimigos externos.
Em pronunciamento transmitido pela televisão estatal, Khamenei direcionou críticas severas aos manifestantes, acusando-os de agirem como mercenários a serviço do governo estadunidense e de atacarem propriedades públicas para satisfazer interesses estrangeiros.
O líder iraniano chegou a afirmar que as mãos do presidente Donald Trump estão manchadas com o sangue dos cidadãos locais, reiterando que Teerã não demonstrará clemência contra aqueles que buscam desestabilizar a República Islâmica.
A cobertura da Al Jazeera destaca que a crise foi desencadeada originalmente por comerciantes do Grande Bazar de Teerã, motivados pela desvalorização histórica do rial e pela inflação galopante, que ultrapassou a marca de 50% em termos anuais.
A situação econômica, agravada pelas sanções ocidentais e pelo temor de um conflito com Israel, levou estudantes a se juntarem aos atos nas principais universidades da capital.
Em resposta ao avanço das manifestações, o governo iraniano implementou um bloqueio severo ao acesso à internet e aos sistemas de telefonia, além de suspender voos, o que especialistas apontam como uma estratégia para isolar o país e encobrir a letalidade das forças de segurança.
Embora o presidente Masoud Pezeshkian tenha tentado adotar uma postura inicialmente moderada ao ordenar investigações sobre excessos policiais e pedir que se diferencie cidadãos legítimos de vândalos, o tom do governo endureceu com o apoio declarado de Washington aos manifestantes.
A Al Jazeera afirma que a mídia estatal iraniana passou a alegar a infiltração de agentes de Israel e dos EUA na organização da violência, enquanto vídeos independentes mostram confrontos diretos e o uso de força letal contra civis.
Reza Pahlavi, descendente do último monarca iraniano removido do poder durante a revolução de 1979, incentivou a continuidade dos atos públicos. Holly Dagres, especialista do Instituto de Washington para Política do Oriente Próximo, afirmou em entrevista à Associated Press que a intervenção de Pahlavi “mudou o rumo” das manifestações.
Ela observou que a mobilização digital indica que a população “levou a sério o apelo para protestar a fim de derrubar a república islâmica”.
A pesquisadora ressaltou ainda que o bloqueio das comunicações foi uma tática deliberada do governo. “Foi exatamente por isso que a internet foi desligada: para impedir que o mundo visse os protestos”, explicou Dagres, alertando que, “infelizmente, isso também provavelmente deu cobertura para que as forças de segurança matassem manifestantes”.
A situação ganhou contornos de disputa geopolítica com as ameaças de Trump sobre represálias caso o Irã continue a matar manifestantes, ao passo que autoridades de segurança em Teerã classificam qualquer interferência externa como uma linha vermelha que colocará em risco a estabilidade de toda a região e os interesses estadunidenses no Oriente Médio.
Teerã está lutando para controlar a situação, que já resultou na morte de dezenas de manifestantes e de pelo menos quatro membros das forças de segurança desde o início dos protestos em 28 de dezembro.
Durante a última quarta-feira (7), o mandatário iraniano Masoud Pezeshkian solicitou que os órgãos de segurança pública “não tomem nenhuma medida contra os manifestantes”, ressaltando a necessidade de separá-los daqueles classificados como “vândalos”. Segundo a Al Jazeera, essa orientação ocorreu no 11º dia de manifestações nacionais motivadas pela crise inflacionária e pela queda do valor da moeda, reflexos diretos das sanções econômicas internacionais.
Em comunicado após encontro ministerial, o vice-presidente Mohammad Jafar Ghaempanah reforçou que “Pezeshkian ordenou que nenhuma medida de segurança seja tomada contra os manifestantes e aqueles que participam dos protestos”. Ele argumentou que indivíduos portando armas ou que investem contra prédios do governo devem ser tratados de forma distinta, afirmando que “aqueles que portam armas de fogo, facas e facões e atacam delegacias de polícia e instalações militares são vândalos, e é preciso fazer uma distinção entre manifestantes e vândalos”.