
“Caminhando e cantando e seguindo a canção”, a frase eternizada por Geraldo Vandré ainda ocupa o imaginário quando pensamos em marchas, caminhadas, e manifestações de rua na luta contra a opressão.
Marchar é instrumento de luta por justiça. Quando os pés do povo rasgam o asfalto, é porque as portas da institucionalidade já se fecharam. É porque a fome, o racismo, a terra roubada, a violência e a exclusão empurram corpos reais a caminhar como último recurso político.
Foi assim com os trabalhadores na Greve Geral de 1917; com os estudantes na Marcha dos Cem Mil, em 1968; com o movimento negro nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em 1978; em 1988, no ato dos cem anos da falsa abolição; em 1995, na Marcha Zumbi dos Palmares, com milhares em Brasília; e novamente em 2015 e 2025, com a Marcha das Mulheres Negras. Foi assim com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, quando mais de 100 mil pessoas marcharam a pé de várias partes do país até Brasília, em 1997, por justiça, trabalho e reforma agrária. Foi assim com as mulheres do campo na Marcha das Margaridas e com os povos originários no Acampamento Terra Livre. Caminhamos não para aparecer, mas para existir. O que se apresenta agora, com a patética caminhada liderada pelo deputado Nicolas Ferreira, é a caricatura grotesca dessa tradição: uma encenação de extrema direita que sequestra o símbolo da marcha para transformá-lo em marketing pessoal e cortina de fumaça. Não é caminhada de denúncia ou busca de ganho concreto para o povo, não é sacrifício coletivo, mas sim campanha eleitoral, autopromoção e agitação calculada para recuperar audiência, deslocar o foco de escândalos, denúncias e vínculos mal explicados com interesses financeiros e bancários que vieram à tona recentemente. Ao redor, gravitam figuras conhecidas da degradação pública: políticos denunciados, investigados, alguns já condenados que vivem de emendas e privilégios, enquanto fingem falar em nome de quem acorda às quatro da manhã, pega trem lotado, enfrenta ônibus superlotado e chega em casa com o corpo moído e a dignidade testada todos os dias. É um circo de homens majoritariamente brancos, ricos, heteronormativos, com tempo sobrando e empatia faltando, brincando de povo para continuar vivendo bem às custas do povo.
Isso não é apenas ridículo; é perigoso: confunde, infantiliza a política, rebaixa o debate público e, sobretudo, tenta empurrar para a invisibilidade as políticas sérias de que o país precisa, como a redistribuição de riqueza, a tardia taxação dos super-ricos, o combate ao racismo, trabalho digno, comida no prato, escola, saúde, futuro. Não podemos morder a isca e virar plateia desse espetáculo vazio.
Precisamos recolocar o foco onde sempre esteve quando a marcha é verdadeira: na melhora concreta das condições de vida da maioria trabalhadora deste país.
Esta, sim, é a marcha que todos nós precisamos construir um caminho no sentido do fortalecimento dos movimentos sociais e da vitória eleitoral absolutamente fundamental em outubro.
* Douglas Belchior, educador e fundador da Uneafro
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.