Petistas intensificam campanha para retorno de Marina Silva ao Partido dos Trabalhadores

A disputa pela filiação partidária da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem agitado os bastidores da política. De saída da Rede Sustentabilidade por divergências com a atual direção do partido, a ministra já recebeu o convite formal do Partido Socialismo e Liberdade (Psol) e teve conversas com lideranças do Partido Socialista Brasileiro (PSB). 

Mas é o Partido dos Trabalhadores (PT) que tem apostado fichas importantes no retorno a suas fileiras da antiga militante. Fontes próximas à ministra confirmaram ao Brasil de Fato que essa tendência tem ganhado força nos últimos dias. Marina foi filiada ao partido por aproximadamente 25 anos e deixou o partido em 2008, por divergências com o governo em relação à construção da hidrelétrica de Belo Monte. 

Na semana passada, um grupo de lideranças do PT divulgou um abaixo-assinado pelo retorno de Marina ao partido. No manifesto, os petistas destacam a “história, coerência e compromisso com o Brasil” da ministra do Meio Ambiente. E afirma que ela é hoje “uma das figuras mais importantes do governo Lula e da causa ecológica e climática mundial”.

“Sua volta ao PT, já que está inclinada a mudar de partido, fortalece a democracia, a justiça social e a defesa do meio ambiente, atrelada com um projeto popular e viável de transformação do Brasil”, diz o texto, que convida a militância a assinar.

Nabil Bonduki, vereador de São Paulo, é um dos petistas que defendem o retorno da ministra ao PT. 

“Eu estive com a ministra na semana passada, é uma relação muito antiga com ela, muito boa, e já transmiti para ela, inclusive, que ela será muito bem recebida no PT. Eu acho que o manifesto tem muito mais esse sentido de pessoas que são do PT, que dizem que ela vai, porque a decisão não é dela”, relatou o vereador, que esclarece não ter feito parte da articulação que elaborou o manifesto. 

“A ministra não precisa de uma pressão do PT para que ela venha. O que é importante é um manifesto mostrando que existe muita gente no PT que ficaria muito contente com a vinda dela e eu já transmiti pessoalmente isso para ela”, disse Bonduki ao Brasil de Fato.

Sobre o tabuleiro eleitoral em São Paulo, o vereador afirma que há “quase um consenso” em torno da prioridade do nome do atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para a disputa ao governo do estado, embora o próprio ministro tenha manifestado que não gostaria de disputar as eleições a nenhum cargo. Dessa forma, avalia Bonduki, Marina seria o nome natural do PT ao Senado, caso se filie ao partido. 

“Eu acho que ela tem tamanho para ser a candidata. Deve ser a candidata. Então, eu acho que a prioridade do governo do estado é o [Fernando] Haddad, com certeza. É o melhor quadro que o PT tem tanto em São Paulo como no Brasil. Então, o estado mais importante. Eu acho que há quase um consenso dentro do partido que ele seria o candidato prioritário para o governo do estado. E a Marina, nesse contexto, seria a candidata prioritária do Senado pelo partido. Não existe nenhuma outra liderança do partido que reivindique uma candidatura ao Senado”, avalia o vereador, agregando que a segunda vaga ao Senado deve ser de um partido aliado, fortalecendo dessa forma a frente política da qual o PT faz parte.

A decisão de qual partido se filiar depende também do tabuleiro eleitoral em São Paulo, onde a ministra possui domicílio eleitoral. Marina já decidiu que não será candidata à reeleição do mandato como deputada federal, para o qual foi eleita em 2022, e sua candidatura ao Senado é um dos elementos que têm sido colocados sobre a mesa nas negociações para a migração partidária. 

Para o filósofo e historiador José Antônio Moroni, o retorno da ministra ao PT “sinaliza um amadurecimento político da própria Marina, como também do partido”. “A entrada dela na disputa por São Paulo, onde é um epicentro da extrema direita, tem capacidade de alterar não necessariamente a correlação de forças em relação ao governo do estado, mas traz uma outra agenda para o debate público, principalmente para o debate eleitoral. Esse possível retorno ao PT é bem-vindo”, considera Moroni.

O historiador lembra que os motivos que levaram à saída da Marina do PT “têm relação com as próprias contradições do campo da esquerda” e que não serão superadas facilmente. 

“Esse campo possui uma vertente socioambiental com um debate sobre um outro modelo de desenvolvimento. Existe o desafio de como operar a concretude da vida nessas questões dentro de um sistema capitalista. Essas contradições são do próprio sistema capitalista e das nossas utopias. Nesse sentido, essas contradições não estão superadas e nem vão ser superadas em torno da Marina e do PT, porque são contradições do próprio capitalismo e do próprio campo da esquerda, que não tem formulado algo além do capitalismo. Essa é a contradição principal”, avalia.

Por outro lado, Moroni destaca a entrada no jogo eleitoral para o Senado de figuras fortes como Marina Silva, pode contribuir para o enfrentamento à estratégia bolsonarista já verbalizada por diversas lideranças da extrema direita de buscar o domínio do Senado, que tem prerrogativas, por exemplo, para iniciar processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

“A entrada da Marina como candidata em São Paulo ao Senado tem uma importância fundamental na disputa política com a extrema direita. O bolsonarismo elegeu o Senado como um ponto de uma estratégia para ter um controle grande da institucionalidade. Se o grupo conseguir essa maioria no Senado, será possível fazer um grande estrago, como se está vendo. A entrada da Marina traz, não só pela história dela, elementos para o debate da disputa eleitoral em São Paulo que reverberarão em outros estados de forma bastante significativa”, aponta Moroni.

Marina Silva

Marina Silva iniciou sua militância política ainda jovem, no estado natal, o Acre. Fundou o PT no estado ao lado do seringueiro, ambientalista e líder sindical Chico Mendes, assassinado em 1988. Em 1989 se elegeu ao primeiro cargo público, como vereadora da Rio Branco (AC). Foi deputada estadual dos acreanos (1991-1995), senadora (1995-2011), ministra do Meio Ambiente nos primeiros mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2008, quando deixou o governo por divergências em relação à construção da hidroelétrica de Belo Monte.

Foi candidata à Presidência da República em três momentos. Em 2010 pelo Partido Verde, tendo ficado no terceiro lugar. Em 2014, era candidata a vice, mas, após a morte do candidato do PSB, Eduardo Campos, tornou-se candidata à presidência e, novamente, ficou em terceiro lugar. Em 2018, já com a Rede Sustentabilidade criada, foi candidata novamente à presidência, mas acabou em oitavo lugar. Nas eleições de 2022, foi eleita deputada federal por São Paulo, e desde sua posse está licenciada para ocupar pela segunda vez a chefia do MMA.

0 Votes: 0 Upvotes, 0 Downvotes (0 Points)

Leave a reply

Loading Next Post...
Seguir
Sign In/Sign Up Sidebar Search
COLUNISTAS
Loading

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...