Matriarcas da Congada

Lindaura AlvesColunistas2 months ago3 Views

Nossos ancestrais não vieram e não sofreram sós. Junto com eles, vieram toda a sua visão de mundo, suas formas de organização social, evidenciadas por tradições e memórias transmitidas pela oralidade, construindo a identidade afro-brasileira.

Em meio a tudo isso, as mulheres congadeiras são sujeitos da história. Um trabalho de resistência e resiliência, uma constante no cotidiano das matriarcas.

A Congada é uma das maiores expressões da cultura afro-brasileira, enfrentando diretamente as narrativas de subalternidade. Essas mulheres se constituem dentro da Congada como mães, guardiãs dos saberes, dos sabores e das tradições, mantendo vivas as expressões e a identidade coletiva.

Um universo religioso popular que envolve terços, leilões, cortejos, procissões, cantos, cumprimento de promessas, danças, sons, ritmos, cores esplendorosas, coroações de reis e rainhas, comidas tradicionais, levantamento de mastros, entre outras ações não menos importantes.

Tudo isso é dividido entre capitães e madrinhas, que são responsáveis pelo brilho, criação e preservação de um legado maravilhoso dos ternos. Cada um detém um perfil, porém partilham da mesma identidade: tradições afro-brasileiras, seus mistérios, dignidade e elegância.

Entre cantos, risos e rezas, vão construindo a festa. Na hora da costura e das provas das vestimentas, a ansiedade é substituída pelo prazer de ver suas endumentarias brilhando. Na construção do cardápio, sempre surgem recordações de outrora: de como era feito, do fogão a lenha, com taços, panelões de ferro, mesmo que hoje substituídos por novos ou  em conjunto com antigos, trazem lembranças da ancestralidade, saudades recentes e memórias vêm à tona, transbordando carinho, afeto e se transformando em base para a construção do novo, com o jeitinho e o cheiro e  por que não, da senzala.

Tão importante quanto a construção dos tambores, pantagonas e gungas, entre outros instrumentos que dão sonoridade à festa, é a visibilidade das mulheres negras congadeiras, que inspiram e favorecem a formação identitária de moças.

Preservando uma cultura que é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, fortalecida tanto no campo jurídico quanto no simbólico, a Congada representa a resistência de uma tradição rica, dando voz e vez aos Congados e Reinados, valorizando os ternos como sujeitos da história, são expressões da diversidade cultural do país, do estado, da cidade, do bairro e dos quartéis.

E tudo isso é fortalecido pela… FÉ.

Lindaura Alves

 

Autor

  • Lindaura Alves é profissional do Serviço Social, ativista negra, produtora cultural, poeta e integrante da tradição congadeira. Atua na promoção da cultura popular, da identidade negra e dos direitos sociais, com forte ligação às artes, à música e às causas comunitárias.

    Reconhecida por sua sensibilidade social e engajamento cultural, desenvolve ações voltadas à valorização das tradições afro-brasileiras, ao fortalecimento das mulheres e à construção de uma sociedade mais justa e solidária. Sua trajetória é marcada pelo princípio do Ubuntu: “eu sou porque nós somos”.

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