
Por Lindaura Alves
Falar de ancestralidade é falar de pertencimento, identidade e vida em comunidade. É reconhecer que nossa existência não se limita a uma árvore genealógica, mas se constrói a partir de histórias, memórias e saberes coletivos que atravessam gerações. A ancestralidade nos conecta ao espiritual, ao comunitário e ao político, oferecendo caminhos de liberdade e resgate cultural.
Em sua essência, a ancestralidade se sustenta na oralidade. É na escuta sensível que apuramos nossos ouvidos, nosso olhar e nossos modos de perceber, conhecer e sentir o mundo. É pela palavra compartilhada que o passado se atualiza no presente e projeta futuros possíveis.
Há também o sagrado que nos habita, frequentemente ligado aos saberes femininos, historicamente invisibilizados. Saberes que envolvem o autocuidado, o uso de plantas medicinais, a culinária, o artesanato e uma filosofia baseada na experiência e na observação. Esses conhecimentos, diversos e plurais, nascem do encontro entre diferentes etnias, da relação com a natureza e do reconhecimento do corpo como território de memória e espiritualidade.
Re-existir, nesse contexto, é um exercício cotidiano. É enfrentar as marcas profundas da colonização e do modelo eurocentrado que nos inferiorizou, nos negou humanidade e tentou apagar nossas origens. Esse processo exige desconstrução e transformação constantes, pois lutar contra o apagamento também é lutar pela possibilidade de existir com dignidade.
Enraizar-se é assumir quem somos e de onde viemos. É compreender que cada passo carrega uma comunidade inteira. Pedir sabedoria às nossas ancestrais é reconhecer que seguimos sustentadas por suas lutas, estratégias de sobrevivência e modos de cuidar da vida.
O pertencimento negro, longe de ser apenas uma identidade, é uma atitude afirmativa e de potencialização da vida. Trata-se de um ato político que reafirma nossa presença, nossa história e nosso direito de narrar a nós mesmas.
Registrar nossas memórias ancestrais é um gesto urgente. Escrever é conectar passado, presente e futuro, garantindo que nossas histórias não sejam silenciadas. Somos uma construção plural, descendentes da ancestralidade, frutos do antes e do agora de nossas comunidades.
Ao ouvir, aprender e compreender, fortalecemo-nos contra o apagamento dos saberes ancestrais. É essa originalidade que nos orienta na luta pelo direito à vida e ao bem viver, valores fundamentais para a construção de sociedades verdadeiramente democráticas.