Ancestralidade, re-existir e enraizar

Lindaura AlvesColunistas3 days ago7 Views

Por Lindaura Alves

 

Falar de ancestralidade é falar de pertencimento, identidade e vida em comunidade. É reconhecer que nossa existência não se limita a uma árvore genealógica, mas se constrói a partir de histórias, memórias e saberes coletivos que atravessam gerações. A ancestralidade nos conecta ao espiritual, ao comunitário e ao político, oferecendo caminhos de liberdade e resgate cultural.

 

Em sua essência, a ancestralidade se sustenta na oralidade. É na escuta sensível que apuramos nossos ouvidos, nosso olhar e nossos modos de perceber, conhecer e sentir o mundo. É pela palavra compartilhada que o passado se atualiza no presente e projeta futuros possíveis.

 

Há também o sagrado que nos habita, frequentemente ligado aos saberes femininos, historicamente invisibilizados. Saberes que envolvem o autocuidado, o uso de plantas medicinais, a culinária, o artesanato e uma filosofia baseada na experiência e na observação. Esses conhecimentos, diversos e plurais, nascem do encontro entre diferentes etnias, da relação com a natureza e do reconhecimento do corpo como território de memória e espiritualidade.

 

Re-existir, nesse contexto, é um exercício cotidiano. É enfrentar as marcas profundas da colonização e do modelo eurocentrado que nos inferiorizou, nos negou humanidade e tentou apagar nossas origens. Esse processo exige desconstrução e transformação constantes, pois lutar contra o apagamento também é lutar pela possibilidade de existir com dignidade.

 

Enraizar-se é assumir quem somos e de onde viemos. É compreender que cada passo carrega uma comunidade inteira. Pedir sabedoria às nossas ancestrais é reconhecer que seguimos sustentadas por suas lutas, estratégias de sobrevivência e modos de cuidar da vida.

 

O pertencimento negro, longe de ser apenas uma identidade, é uma atitude afirmativa e de potencialização da vida. Trata-se de um ato político que reafirma nossa presença, nossa história e nosso direito de narrar a nós mesmas.

 

Registrar nossas memórias ancestrais é um gesto urgente. Escrever é conectar passado, presente e futuro, garantindo que nossas histórias não sejam silenciadas. Somos uma construção plural, descendentes da ancestralidade, frutos do antes e do agora de nossas comunidades.

 

Ao ouvir, aprender e compreender, fortalecemo-nos contra o apagamento dos saberes ancestrais. É essa originalidade que nos orienta na luta pelo direito à vida e ao bem viver, valores fundamentais para a construção de sociedades verdadeiramente democráticas.

Autor

  • Lindaura Alves é profissional do Serviço Social, ativista negra, produtora cultural, poeta e integrante da tradição congadeira. Atua na promoção da cultura popular, da identidade negra e dos direitos sociais, com forte ligação às artes, à música e às causas comunitárias.

    Reconhecida por sua sensibilidade social e engajamento cultural, desenvolve ações voltadas à valorização das tradições afro-brasileiras, ao fortalecimento das mulheres e à construção de uma sociedade mais justa e solidária. Sua trajetória é marcada pelo princípio do Ubuntu: “eu sou porque nós somos”.

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