Kwanzaa: valores ancestrais como urgência do presente

Lindaura AlvesColunistasYesterday7 Views

No ano que se inicia, nada melhor do que recorrer à sabedoria ancestral africana — aquela que compartilha memória, pertencimento, organização coletiva e compromisso comunitário. Kwanzaa, embora criada há poucas décadas, permanece atualíssima em seus ensinamentos. Ela nos convida a uma pausa, a um respiro, a um tempo de reflexão que se contrapõe ao consumismo e reafirma valores fundamentais para a vida.

Dizer Kwanzaa é dizer não à violência contra nós, mulheres, e às feridas rasgadas em nossos corpos e mentes; é dizer não ao racismo estrutural e institucional, à exclusão social, à pobreza extrema, à negação do acesso aos direitos humanos; é dizer não à homofobia, ao machismo, à misoginia, à falta de empatia, à agressão à natureza e aos extremismos que cegam, desumanizam e silenciam.

 

Kwanzaa, celebração inspirada na sabedoria ancestral africana, oferece mais do que um rito simbólico: apresenta um conjunto de princípios éticos profundamente necessários e transformadores. Ao se contrapor à lógica individualista, Kwanzaa nos convida a reorganizar a vida comunitária por meio dos sete princípios do Nguzo Saba, que não apenas se celebram, mas se praticam no cotidiano.

Precisamos de Umoja (Unidade): união familiar, comunitária, entre amizades e coletivos. Precisamos de Kujichagulia (Autodeterminação): reverberar nossa história, nos proteger, reconhecer que ninguém está só — fomos criados para o coletivo.

No coletivo, as demandas podem ser individuais e comuns. Devemos enfrentá-las juntos, com solidariedade e transformação. Para isso, precisamos de Ujima (Trabalho e Responsabilidade Coletiva). Se somos coletivos, nossa economia também deve ser: comunitária, geradora de dignidade, baseada em redes de troca e não no consumismo. Assim, afirmamos Ujamaa (Economia Cooperativa).

Viver em coletividade exige saber para onde vamos e o que queremos construir, não a partir de promessas vazias, mas de compromissos reais. Por isso, precisamos de Nia (Propósito). Precisamos de ações criativas, projetos educacionais e culturais que ampliem possibilidades — precisamos de Kuumba (Criatividade).

Tudo isso deve ser sustentado por confiança, perseverança e crença no outro, nos valores e no futuro que é agora, não um amanhã distante. Mesmo diante das adversidades, seguimos com Imani (Fé).

Precisamos praticar os sete princípios ancestrais o ano todo, como fonte de inspiração proposito e transformação. Fortalecendo canecões entre pessoas, mais do que um marco anual, Kwanzaa deve ser compreendida como uma prática contínua. Seus princípios oferecem ferramentas para fortalecer vínculos, honrar ancestralidades e reafirmar que a transformação social nasce do coletivo. Em tempos de fragmentação, Kwanzaa nos lembra: o futuro se constrói agora, juntos.

É urgente revisitar valores capazes de sustentar a vida coletiva. Este é um momento de fortalecer diálogos, lembrar e honrar nossos ancestrais, reconhecer suas histórias — pois nelas estão inscritas nossa cultura, nossa educação e nossos valores comunitários. Tudo isso se constrói coletivamente, a partir da dignidade própria e do reconhecimento mútuo.

 

 

 

Autor

  • Lindaura Alves é profissional do Serviço Social, ativista negra, produtora cultural, poeta e integrante da tradição congadeira. Atua na promoção da cultura popular, da identidade negra e dos direitos sociais, com forte ligação às artes, à música e às causas comunitárias.

    Reconhecida por sua sensibilidade social e engajamento cultural, desenvolve ações voltadas à valorização das tradições afro-brasileiras, ao fortalecimento das mulheres e à construção de uma sociedade mais justa e solidária. Sua trajetória é marcada pelo princípio do Ubuntu: “eu sou porque nós somos”.

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