

O agronegócio brasileiro vive, à primeira vista, um dos seus melhores momentos. O campo produz como nunca, a agroindústria processa em escala crescente e o mercado internacional compra praticamente tudo o que o Brasil consegue entregar em proteína animal e vegetal. Internamente, a melhora gradual da renda das famílias também reforça a demanda por alimentos, ajudando a manter o sistema em funcionamento.
Mas há um ruído que começa a aparecer por baixo dessa engrenagem aparentemente perfeita.
A agroindústria só existe porque o campo existe. É no campo que nasce a matéria-prima que sustenta frigoríficos, usinas, fábricas de ração, processadoras e, por fim, o abastecimento do consumidor. Quando toda a cadeia funciona em equilíbrio, o sistema prospera. Quando a base começa a perder fôlego, o risco não é imediato, é cumulativo. E é exatamente isso que começa a se desenhar.
O produtor rural brasileiro segue eficiente, tecnificado e produtivo. O problema não está na produtividade, mas na renda líquida. Os custos de produção, crédito, insumos, energia, logística e financiamento avançaram de forma consistente nos últimos anos. O resultado é uma compressão silenciosa da margem, mesmo em safras cheias e exportações recordes.
Esse fenômeno ajuda a explicar um dado pouco observado fora do setor: apesar do aumento da oferta de alimentos, a inflação alimentar em 2025 foi relativamente comportada, girando em torno de 2,5%. O sistema entregou volume, segurou preços ao consumidor, mas fez isso à custa da rentabilidade na origem.
No cenário externo, há sinais claros de que o ambiente global pode ficar mais instável. A possibilidade de mudanças profundas na condução da política monetária dos Estados Unidos, somada ao elevado endividamento de governos e empresas ao redor do mundo, aumenta o risco de desarranjos nos fluxos de capital.
A eventual desvalorização do dólar tende a encarecer importações nos Estados Unidos, país onde o equivalente a 70% do PIB é consumo, em grande parte abastecido por bens importados, pressionando a inflação justamente em um momento de tentativa de manter juros artificialmente baixos, o que desorganiza fluxos comerciais e financeiros globais. O mercado começa a reagir de forma típica a esses momentos: ouro e prata sobem, ativos de risco sofrem, e a volatilidade aumenta.
Não se trata de prever uma crise, mas de reconhecer que o mundo está mais sensível a choques.
Internamente, o Brasil adiciona suas próprias fragilidades. Em ano de eleição, aposta em crescimento puxado pelo consumo das famílias e pelo gasto do governo, sem contenção de despesas, contando essencialmente com o aumento da arrecadação. Essa estratégia amplia a demanda, mas dificulta a queda estrutural dos juros. Com juros elevados por mais tempo, todo o sistema produtivo que depende de crédito, do campo à indústria, segue operando sob pressão.
E há um fator adicional que não pode ser ignorado: mudanças na legislação trabalhista, como a discussão sobre a alteração da escala de trabalho, tendem a elevar ainda mais o custo da indústria brasileira, especialmente aquela intensiva em mão de obra.
Em um país que já convive com baixa produtividade média no setor industrial, esse tipo de ajuste pode reduzir competitividade, pressionar margens e, inevitavelmente, contaminar o elo intermediário da cadeia agroindustrial.
Quando os custos sobem simultaneamente no campo, na indústria e no crédito, o sistema entra em um ciclo perigoso. Investimentos feitos em momentos de otimismo precisam ser pagos justamente quando a margem encolhe. A desaceleração externa encontra um mercado interno mais caro e menos flexível. E o ajuste, quando vem, não escolhe apenas um elo: atravessa toda a corrente, do produtor ao consumidor.
Não é um cenário de colapso iminente. É um alerta de ciclo.
O agro brasileiro continua forte, estratégico e indispensável. Mas a experiência mostra que sistemas produtivos não quebram quando produzem pouco, quebram quando produzem muito, com custo alto, crédito caro e margem insuficiente para atravessar a curva do ciclo econômico.
É essa reflexão que precisa estar no centro do debate agora. Antes que o ranger vire ruído alto demais para ser ignorado.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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