
Rachel Weisz é uma das atrizes mais versáteis de sua geração e já encarnou incontáveis personagens complexas e envolventes ao longo de uma expressiva carreira. Vencedora de uma merecida estatueta do Oscar por seu trabalho em ‘O Jardineiro Fiel’, a atriz participou de projetos como ‘A Múmia’, ‘Constantine’, ‘A Favorita’ e ‘Gêmeas – Mórbida Semelhança’, eternizando-se através de um charme britânico inescapável e sedutor que reafirma seu intrínseco magnetismo. Agora, Weisz firma parceria com a Netflix para uma minissérie que mistura comédia, drama e suspense erótico e que se desenrola ao longo de oito breves episódios: ‘Vladimir’.
A trama é centrada em M (Weisz), uma professora de literatura de meia-idade que possui uma dinâmica um tanto quanto intrincada em relação a seu casamento com John (John Slattery), presidente do Departamento de Inglês da mesma universidade em que M leciona. Ambos possuem um matrimônio aberto, em que os dois podem desfrutar da companhia de outras pessoas desde que as regras sejam respeitadas. Porém, as coisas tomam um rumo complicado quando John é suspenso de seu trabalho após várias alunas se levantarem contra ele, afirmando que mantiveram relações sexuais com o professor – e, agora, alegam um comportamento predatório do acadêmico.
E isso não é tudo: M, frustrada em meio às polêmicas que podem afetar não apenas o já turbulento funcionamento da família – que inclui a filha Sid (Ellen Robertson), uma advogada de Nova York que volta para a casa dos pais após um término devastador -, fica obcecada por Vladimir (Leo Woodall), professor assistente e escritor que é contratado para compor o corpo docente da faculdade. Movida por uma irruptiva e vibrante imaginação erótica, ela pouco a pouco passa a enxergar o colega de profissão em uma espécie de prêmio a ser conquistado, aproximando-se dele e colocando-se em uma trajetória um tanto quanto perigosa, principalmente pelo fato de Vladimir ter uma esposa, Cynthia (Jessica Henwick), e uma filha.
Baseado no romance best-seller homônimo de Julia May Jonas, o enredo é um encontro de vários estilos artísticos que, em breves capítulos de pouco mais de meia hora, constroem uma pulsante atmosfera que não nos deixa respirar sequer um segundo – e digo isso tanto como ponto positivo, quanto negativo. Afinal, no momento em que a minissérie se inicia com uma frenética sequência envolvendo M, Vladimir e uma cabana no meio da floresta, nos sentimos na obrigação de entender o que está acontecendo e como aqueles personagens se envolveram naquela situação.
É notável como Jonas, responsável pela própria adaptação, mantém-se fiel às raízes do material original e puxa elementos do controverso thriller dramático ‘Rebecca’, de Daphne du Maurier, que também ganhou uma releitura na gigante do streaming. Mesmo não sendo diretamente influenciado pelo clássico britânico, o projeto esquadrinha temas como paixão, erotismo, fetiches e obsessão de maneira contundente, apoiando-se na escolha certeira de uma narradora em primeira pessoa que não apenas torna toda a história mais suculenta, como coloca um ponto de interrogação na credibilidade do que está sendo mostrado aos espectadores. Por mais que escorregue aqui e ali, o resultado é sólido o suficiente para nos deixar satisfeitos e ansiando por mais.
Alistando a ajuda de um robusto time de diretores e roteiristas, Jonas mergulha no idílico e contraditório cosmos que criou nas páginas a fim de traduzir para o audiovisual as excêntricas personalidades do enredo – e, por esse motivo, as incursões imagéticas e técnicas podem causar certo choque aos desavisados. Afinal, por tratar-se de uma sátira tragicômica que se ramifica para críticas ao sistema e à hierarquia acadêmicos, seguir as fórmulas do gênero à risca poderia transformar o projeto em “mais do mesmo”. Todavia, não é isso o que acontece, e é possível traçar um breve paralelo entre a minissérie estrelada por Weisz e a recém-lançada ‘De Belfast ao Paraíso’, criada por Lisa McGee, em que o exagero e a teatralidade reinam absolutos.
É sempre interessante ver Weisz de volta à ativa, ainda mais considerando sua habilidade quase camaleônica de reinvenção. Em ‘Vladimir’, a laureada atriz tem a tarefa de nos convencer de que tudo o que nos conta é verdade – e o fato de M não revelar seu nome em qualquer momento da história é o que a torna tão carismática. Adornada com o charme da performer, a complexidade da protagonista singra entre a loucura e a sanidade, entre o desejo e o poder, entregando-se de corpo e alma a uma mulher que clama pelo controle ao menos uma vez na vida, em vez de condiciona pelo que lhe aconteceu. E, tendo recentemente trabalhado no thriller psicológico ‘Gêmeas – Mórbida Semelhança’, Weisz nos presenteia com um lado mais despojado e propositalmente descompensado de sua arte.
Compondo a estrutura do projeto, Woodall encarna o objeto de interesse de M de forma ambígua – ou é o que pensamos, considerando que o fio conduto da narrativa centra-se na duvidosa protagonista. Woodall e Weisz nutrem de uma ótima química em cena, criando um núcleo principal cujos corolários se estendem para os arcos que envolvem as bem-vindas performances de Slattery, Henwick e Robertson. O trabalho dos atores e atrizes, inclusive, é estruturado o suficiente para ofuscar os irônicos clichês que são alvos de comentários pelo roteiro, mantendo-nos engajados até os momentos finais (que, por sua vez, encontram-se em uma espécie de anticlímax que com certeza irá dividir o público).
‘Vladimir’ encontra sucesso no espetáculo que Weisz se propõe a comandar, explorando a efervescente psique humana em uma jornada atribulada por obsessão e paixão. E, mesmo não sendo do gosto de todos que optarem por conferi-la, a minissérie é satisfatória em sua completude e é uma pedida certeira para um dia de descanso.