Após adiamento, júri do caso Mãe Bernadete Pacífico acontece em Salvador na próxima segunda (13)

O julgamento dos acusados pela execução do assassinato de Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho (BA), acontecerá na próxima segunda-feira (13), a partir das 8h, no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador. Em luta por justiça, organizações e movimentos sociais também convocam um ato em frente ao fórum antes do início do julgamento, às 7h.

Previsto inicialmente para o dia 31 de março, o júri popular foi adiado após a defesa ter solicitado a troca de advogados. Para a família e comunidade, o adiamento, embora amparado legalmente, escancara as fragilidades do sistema na proteção e garantia de justiça para lideranças quilombolas.

O caso engajou uma ampla rede de organizações da sociedade civil, que defendem a necessidade de mobilização popular para garantir que os culpados, incluindo os mandantes, sejam devidamente responsabilizados. Por isso, antes do júri, às 7h, movimentos sociais, organizações quilombolas, movimento negro e de mulheres negras convocam um ato em frente ao Fórum Ruy Barbosa pedindo por justiça.

“Mãe Bernadete não representava apenas o quilombo dela, ela representava nacionalmente os quilombos do Brasil. Ela pediu ajuda, pediu socorro a todas as instâncias jurídicas desse país, mas, mesmo assim, o Estado falhou na proteção e segue falhando na responsabilização dos envolvidos. Nosso papel enquanto movimento social é essencial nessa exigência por justiça. Vamos pressionar e exigir respostas”, destaca Amanda Oliveira, ativista do Odara – Instituto da Mulher Negra.

Vinte e cinco tiros

Mãe Bernadete foi assassinada no dia 17 de agosto de 2023, dentro da associação da sua comunidade. No momento do crime, ela assistia televisão acompanhada de seus netos quando foi atingida por 25 tiros, a maioria deles no rosto.

De acordo com denúncia do Ministério Público da Bahia (MP-BA), Marílio dos Santos, acusado de ser o mandante do crime, e Arielson da Conceição Santos, que teria sido um dos autores dos disparos, serão julgados pelo crime de homicídio qualificado cometido por motivo torpe, meio cruel, com impossibilidade de defesa da vítima e utilização de arma de uso restrito. Arielson também responderá pelo crime de roubo.

Os outros três denunciados pelo MP-BA, Sérgio Ferreira de Jesus, Josevan Dionísio dos Santos e Ydney Carlos dos Santos de Jesus, serão julgados posteriormente.

A líder quilombola atuava na defesa dos direitos territoriais e na organização comunitária, sendo uma voz importante na luta contra a grilagem de terras que historicamente afeta as comunidades quilombolas da região. Antes de sua morte, ela havia denunciado ameaças e conflitos relacionados à disputa por territórios quilombolas, alertando as autoridades sobre a escalada de violência contra lideranças que defendem os direitos de suas comunidades.

Ciclo de violência e impunidade

Em 2019, Mãe Bernadete passou a ser parte do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), após denunciar riscos relacionados à sua atuação e à luta por justiça pelo assassinato de seu filho, Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo. Binho foi assassinado a tiros em setembro de 2017, aos 36 anos, nas proximidades da comunidade. O crime também estava relacionado à disputa territorial e permanece impune até hoje.

Para a família, a dor da perda e a lentidão da justiça se misturam em um ciclo contínuo de violência e impunidade. Jurandir Pacífico, filho de Mãe Bernadete e irmão de Binho do Quilombo, explica que, no mesmo dia em que o júri de sua mãe foi adiado, o inquérito sobre o assassinato de seu irmão foi arquivado, o que levou a família a solicitar a federalização do caso de Binho. Para ele, a ação é vista como uma retaliação.

“Para mim isso é um recado: ‘eu vou arquivar o inquérito do irmão dele no dia em que a gente conseguiu cancelar também o julgamento da mãe’, para que eu entendesse que existe um sistema por trás disso”, desabafou Jurandir.

SERVIÇO 

O quê: Ato por justiça e júri popular do caso Mãe Bernadete Pacífico
Onde: Fórum Ruy Barbosa – Praça Dom Pedro II, s/n – Nazaré, Salvador (BA)
Quando: 13 de abril de 2026 (segunda-feira), a partir das 7h

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