Diretor Rostand Costa trilha caminhos no audiovisual pernambucano tendo o hip-hop como alicerce

Desde o fim de março, o curta-metragem documentário O Canto do Rio transita pelo circuito exibidor do Recife. O filme mergulha na luta da comunidade do Pontal de Maracaípe frente ao avanço da privatização do território. Exibido na Caixa Cultural Recife neste sábado (11), a produção tem direção de Rostand Costa, realizador que vem construindo seu caminho no cenário audiovisual de Pernambuco ao longo da última década. Mas ele não iniciou nos curtas e, sim, nos videoclipes. Tendo a coletividade e combatividade da ideologia do hip-hop como norte, aventura-se agora em novas formas e narrativas. 

Autodidata na área, o diretor criado entre as periferias de Santo Amaro e Afogados, viu o fascínio pelo audiovisual nascer no sofá de casa por meio da mais popular manifestação no país: as telenovelas, acompanhando sempre ao lado da mãe. Enquanto espectador, viu nascer a curiosidade em entender como aquilo que via na televisão funcionava, sobretudo as aberturas. Anos mais tarde, ao ganhar um computador, começou seus caminhos pela edição, treinando suas habilidades em esquetes de humor amadoras feitas com amigos. 

Os primeiros trabalhos foram para campanhas políticas e publicitárias, que permitiram comprar uma câmera para começar a entender também os meandros da direção de fotografia. Mas foi na música que viu a possibilidade de desenvolver sua voz autoral dentro do audiovisual. “Encontrei espaço para não apenas sobreviver, mas de buscar uma linguagem e autoralidade dentro do cenário do hip-hop underground pernambucano, encontrando pessoas que compartilhavam visões de mundo e interesses artísticos parecidos com os meus. Tive muita liberdade para pensar, imaginar e me encontrar dentro da linguagem”, relembra Rostand Costa.

As batalhas de rap da Região Metropolitana do Recife acabaram se tornando um local de conexões e trocas. As parcerias uniram sua vontade de trabalhar à necessidade de artistas da cena em trazer roupagens visuais mais cativantes aos seus trabalhos musicais. E se o dinheiro não circulava no meio, o nome do diretor sim, construindo um portfólio e uma consideração nas ruas. Hoje, Costa conta com trabalhos ao lado de nomes como Amaro Freitas — que assina a trilha sonora d’O Canto do Rio —, Anderson Neiff, Luiz Lins, Diomedes Chinaski e Bella Kahun. 

“Minha base ideológica é o hip-hop, movimento que me abraçou e me trouxe identidade. Me fez entender que eu, como um jovem negro de periferia, não estava sozinho. E também me deu dimensão da importância da coletividade. Eu sempre tive uma necessidade de bater de frente e causar atrito frente as coisas que me incomodam, algo que o rap também faz. Eu absorvi essa visão de mundo e fui atrás de meios para colaborar nessa construção de uma revolução”, diz Costa, que passou a entender o audiovisual como sua principal ferramenta nessa luta. 

É dentro dessas perspectivas que o diretor decidiu dar um novo passo ao encarar a produção de um documentário. Um filme que nasce de uma conexão com o território e com a natureza estabelecida por Rostand Costa com Maracaípe, encontrando histórias de luta de lideranças comunitárias locais, como Betinho, Leninha e Ana Paula, diante do muro erguido pela elite na tentativa de privatizar uma parte da natureza e restringir a vida da comunidade.

“Minha mãe vendia pastel na feira e meu pai era comerciante no mercado público de Afogados. Eu os via sair às 5 horas da manhã e voltar às 18 horas. Então ali, em Maracaípe, vi pessoas que poderiam ser meus pais, na luta pelo trabalho como meio de sobrevivência e dignidade, que podem passar pelo o que eles passaram”, explica o diretor sobre sua aproximação com a narrativa de seu filme.

O hip-hop enquanto norte ideológico também retorna no seu fazer documentário. “No rap, a gente entende que periferia é periferia em qualquer lugar. Os pretos sofrendo ali também são os pretos sofrendo aqui. Então, para além da questão do avanço da especulação imobiliária e a apropriação do meio ambiente, falamos no filme de uma história de luta coletiva, da necessidade de organizar contra algo que acontece hoje, ontem e quando as caravelas chegaram”, conclui. 

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