TDAH no ambiente acadêmico: desafios e perspectivas

Antes de explorar este tema, é importante defini-lo, pois só fui me dar conta do  que significava um mês antes de ter sido diagnosticado como portador deste  transtorno. Confesso que antes disso eu só sabia o significado da sigla,  evidenciando que este é um transtorno negligenciado e pouco conhecido, tanto  pela sociedade quanto pela comunidade acadêmica, embora estima-se que  mais de 2 milhões de brasileiros tenham o transtorno, segundo o Ministério da  Saúde.

O TDAH é o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. É um distúrbio  neurobiológico/psicossocial ligado a fatores genéticos, fisiológicos, sociais e  vivenciais caracterizado por sintomas como falta de atenção, inquietação e  impulsividade. Aparece na infância e pode acompanhar o indivíduo por toda a  vida adulta em mais da metade dos casos. É um dos transtornos mais comuns  em crianças e adolescentes e sua prevalência é de 3 a 5% das crianças,  independente de fatores sociais e econômicos.

Os portadores de TDAH têm uma diminuição de atividade do sistema nervoso,  principalmente na região frontal, e suas conexões com o resto do cérebro que,  segundo algumas teorias, seria causada por problemas na captação de  neurotransmissores como a dopamina e a noradrenalina, responsáveis pela  transmissão de mensagens entre as células cerebrais.

Em crianças, há sinais como desatenção, distração, agitação incontrolável,  ansiedade, impulsividade e tagarelice. Sintomas do TDAH podem ser facilmente  confundidos como má criação, manha, ansiedade ou medo e, muitas vezes, a  criança é tratada como inconveniente no meio social e em ambiente escolar, no  qual também, devido à hiperatividade e dificuldade de concentração e  compreensão das instruções, tornam-se irritadiças e exibem um desempenho  ruim quando comparados ao colegas de sala. A impulsividade pode ser perigosa  pois a criança pode fazer alguma coisa arriscada sem pensar nas  consequências, demandando cuidado redobrado dos pais e responsáveis.

Como já foi mencionado, mais da metade das crianças (cerca de 60%) com  TDAH também sofrem consequências na idade adulta, cujos sintomas são um  pouco diferentes, mas é muito comum a hiperatividade, impulsividade, falta de  foco e atenção, desorganização e procrastinação.

Isto tudo afeta a capacidade de planejamento, execução de tarefas,  organização, manejo do tempo, memória de trabalho, regulação emocional,  iniciação de tarefas e persistência. Nos adultos, esse comprometimento  frequentemente aparece como dificuldade em terminar tarefas no prazo  determinado, atrasos frequentes, esquecimento de tarefas planejadas, falta de foco, etc. Muitas vezes, são considerados como “preguiçosos”,  “desinteressados”, “desleixados” e tudo isso os afeta quanto à autoconfiança e  autoestima, ocasionando sérios desdobramentos, seja no convívio social,  familiar, acadêmico e psíquico.

Um dos maiores prejuízos acumulados na vida do adulto com TDAH está na  necessidade frequente da troca de estímulos, se traduzindo em baixo  desempenho profissional, troca incessante de empregos, problemas familiares,  términos abruptos de relacionamentos, distúrbios do sono, dificuldade em  terminar cursos universitários, insucesso profissional e falta de controle  financeiro.

O diagnóstico de TDAH é clínico e multidisciplinar e se baseia em um tripé de  sintomas básicos, como desatenção, impulsividade e hiperatividade. Ele deve ser  realizado por um profissional (psiquiatra, neurologista, terapeuta ocupacional ou  psicólogo) adequadamente treinado, o qual conheça os sintomas, o curso de  evolução da síndrome, os padrões normais do desenvolvimento humano e a  diferença entre esse e outros transtornos. A avaliação diagnóstica deve sempre  envolver os pais ou responsáveis, os membros da família que convivem com a  criança e a escola. No caso de adultos, a família e o cônjuge devem participar do  processo diagnóstico, contribuindo com informações.

Especialmente na idade adulta, este diagnóstico é um desafio, pois pode ser  confundido ou estar associado a outros transtornos psiquiátricos, como  transtorno desafiador opositor, transtorno de conduta, dificuldades de  aprendizagem (atrasos em leitura, ortografia, matemática, escrita, dentre outras),  transtorno de humor bipolar, transtorno de personalidade antissocial, transtorno  de ansiedade, abuso de substâncias psicoativas (álcool e outras drogas) e  transtorno de tiques.

No ambiente acadêmico, seja entre servidores ou alunos, esses desdobramentos  podem ter sérias consequências, tanto no rendimento quanto nos aspectos  sociais, principalmente quando há casos não diagnosticados ou sem tratamento  adequado.

Embora ainda seja um transtorno negligenciado, cada vez mais membros da  comunidade acadêmica, principalmente alunos, têm apresentado laudos com  diagnóstico de TDAH. Isto é imprescindível para que haja uma atenção  diferenciada em relação a eles, tanto por parte dos docentes e das equipes de  atendimento psicossocial, quanto dos colegas, pois é um transtorno que, por ser  ainda pouco conhecido, é alvo de preconceitos devido ao baixo rendimento  acadêmico do indivíduo, procrastinação, dificuldade de concentração e no  término de tarefas, dificuldade de convívio social, impulsividade, agressividade,  abuso de drogas e álcool. Por causa disso, muitas vezes desistem no meio do  caminho, aumentando os índices de evasão escolar.

Se for um servidor, é ainda  mais complicado, pois muitas vezes não tem compreensão e apoio do restante da equipe e nem da instituição e tem que recorrer a uma estratégia que  considere a licença médica por desenvolverem outros transtornos, como  ansiedade, síndrome do pânico e a Síndrome do Esgotamento Profissional  (Burnout).

O diagnóstico, tratamento e manejo desse transtorno abre novas possibilidades  de enfrentar uma disfunção cerebral hereditária que é penosa para o indivíduo,  mas há estratégias que ensinam o portador a enfrentar esse problema e  percorrer esse caminho com mais foco e tranquilidade, reduzindo as  consequências, ao menos, para as mesmas proporções que qualquer indivíduo  sem TDAH. Dentre elas, deve-se considerar tanto o tratamento farmacológico  quanto a terapia cognitivo-comportamental.

Rememorando minha vida acadêmica, consegui desvendar muitas inquietações  e dificuldades expostas nesse texto, pois só soube que sou portador de TDAH após quase meio século de vida, sem tratamento ou intervenção adequada. Não  havia nome ou diagnóstico para isto até há pouco tempo. Consegui desenvolver  estratégias para lidar com a situação, principalmente considerando a  organização e rotina de estudos e trabalho, mas as dificuldades foram enormes.

Tudo é possível mas, quando diagnosticado precocemente, há possibilidades de  que os portadores desse transtorno possam ter sucesso e melhor qualidade de  vida, principalmente no ambiente acadêmico, objeto desta discussão. E nós,  docentes, temos um papel importante neste processo de minimização dessas  dificuldades, juntamente com o tratamento medicamentoso e terapias  necessárias. Mas, é preciso que haja a sensibilização de toda a comunidade  acadêmica responsável pela formação do discente e de profissionais  qualificados para que a intervenção tenha sucesso.

Em 2021 foi sancionada a Lei Federal 14.254 que dispõe sobre o  acompanhamento integral para os educandos com dislexia ou TDAH ou outro transtorno de  aprendizagem que compreende a identificação precoce do transtorno, o encaminhamento do educando para diagnóstico, o apoio educacional na rede de  ensino, bem como o apoio terapêutico especializado na rede de saúde.

O poder  público deve desenvolver e manter programa de acompanhamento integral para  estes educandos e os sistemas de ensino devem garantir aos professores da  educação básica amplo acesso à informação, inclusive quanto aos encaminhamentos possíveis para atendimento multissetorial e formação  continuada para capacitá-los para a identificação precoce dos sinais  relacionados aos transtornos de aprendizagem ou ao TDAH, bem como para o  atendimento educacional escolar dos educandos. Embora esta lei tenha sido  direcionada especialmente à educação básica, é imprescindível que a academia  também possa participar deste processo, pois a melhoria do conhecimento sobre  este transtorno é diretamente proporcional à chance de sucesso de um  atendimento mais específico e humanizado para o aluno.

Conhecer, diagnosticar e tratar o TDAH é essencial, mas é igualmente  importante compartilhar a informação com os professores, amigos, colegas de  sala ou de trabalho, chefia, cônjuge, namorado(a) e pessoas de convívio próximo  para que haja mais empatia, harmonia e, através de novas abordagens e quebra  de paradigmas, o preconceito e o descaso não venham intensificar ainda mais  as inquietações nas relações interpessoais, escolares e profissionais a que o  portador é submetido. Isso é inclusão e certamente proporcionará uma melhoria  na qualidade de vida de todos, diminuirá a evasão escolar e contribuirá de  maneira significativa no melhoramento e fortalecimento do ensino superior.

 

*Guilherme Garcia da Silveira é professor no Instituto de Ciências Exatas e Naturais do Pontal da Universidade Federal de Uberlândia (Icenp/UFU).

 

A seção “Leia Cientistas” reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao. Se você já enviou o seu texto, aguarde que ele deve ser publicado nos próximos dias.

 

Source link

Autor

  • Redação Uberlândia no Foco

    O Uberlândia no Foco é um portal de notícias localizado na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, que tem como objetivo informar a população sobre os acontecimentos importantes da região do Triângulo Mineiro e do país. Fundado por Rafael Patrici Nazar e Sabrina Justino Fernandes, o portal busca ser referência para aqueles que buscam informações precisas e atualizadas sobre a cidade e a região. Nosso objetivo é cobrir uma ampla gama de assuntos, incluindo política, economia, saúde, educação, cultura, entre outros. Além disso, visamos abordar também, questões relevantes a nível nacional, garantindo assim que seus leitores estejam sempre informados sobre os acontecimentos mais importantes do país. Nossa equipe é altamente capacitada e dedicada a fornecer informações precisas e confiáveis aos seus leitores. Eles trabalham incansavelmente para garantir que as notícias sejam atualizadas e verificadas antes de serem publicadas no portal. Buscamos oferecer aos leitores uma plataforma interativa, na qual possam compartilhar suas opiniões e participar de debates sobre os assuntos mais importantes da cidade e da região. Isso torna o portal uma plataforma democrática, onde todas as vozes podem ser ouvidas e valorizadas. Não deixe de nos seguir para ficar por dentro das últimas atualizações e notícias relevantes. Juntos, temos uma grande caminhada pela frente.

Leave a reply

Loading Next Post...
Seguir
Sign In/Sign Up Sidebar Search
COLUNISTAS
Loading

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...