
França em tensão: o acordo UE–Mercosul em debate
Por que o tratado comercial entre a União Europeia e o Mercosul divide opiniões — especialmente na França — e o que está em jogo para cada lado.
O acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul — bloco formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai — voltou ao centro do debate político europeu. Na França, o tema tem provocado forte resistência de agricultores, sindicatos e parte da classe política, ao mesmo tempo em que é defendido por setores industriais, exportadores e formuladores de política externa. A controvérsia revela um embate clássico: abertura de mercados e ganhos econômicos versus proteção de setores sensíveis e padrões ambientais.
Negociado ao longo de mais de duas décadas, o acordo prevê a redução gradual de tarifas e barreiras comerciais entre os dois blocos, criando uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. Ele envolve não apenas bens agrícolas e industriais, mas também regras sobre compras governamentais, propriedade intelectual e compromissos ambientais.
A França possui um dos setores agrícolas mais fortes e politicamente influentes da Europa. Agricultores franceses temem que a entrada de produtos do Mercosul — especialmente carne bovina, aves, açúcar e soja — gere concorrência considerada desleal. O argumento central é que produtores sul-americanos operam sob regras ambientais e sanitárias menos rígidas, o que reduziria custos e pressionaria os preços europeus.
Além disso, a pauta ambiental ganhou peso. Autoridades francesas e organizações ambientais questionam se o acordo é compatível com os compromissos climáticos europeus, sobretudo diante do histórico de desmatamento na Amazônia.
Apesar das críticas, o acordo oferece vantagens claras para a UE:
Para os países do Mercosul, o acordo é visto como uma oportunidade histórica:
O impasse francês ilustra o desafio central do acordo UE–Mercosul: conciliar abertura comercial com proteção ambiental e social. Para avançar, especialistas apontam a necessidade de garantias mais robustas, mecanismos de fiscalização eficazes e políticas de compensação para os setores mais afetados.
Enquanto isso, o tratado permanece como símbolo de um dilema maior enfrentado pelas democracias contemporâneas: como crescer economicamente sem sacrificar sustentabilidade, soberania alimentar e coesão social.
No fim, o debate francês sobre o acordo UE–Mercosul vai além da balança comercial. Ele expõe o choque entre dois projetos de mundo: um que aposta na integração econômica como motor de prosperidade e outro que exige salvaguardas claras para proteger territórios, modos de vida e o meio ambiente. Ignorar qualquer um desses lados é um erro político. O desafio não é escolher entre comércio ou proteção, mas desenhar regras que tornem ambos compatíveis — e legítimos aos olhos da sociedade.
Jean‑Marc Lefèvre
Colunista de Política Internacional