
Nascido na favela da Maré, criado pelos avós de origem indígena e quilombola, o defensor de direitos humanos Luíz Carlos Silva, 50 anos, aprendeu desde cedo a importância da coletividade. “Com a precariedade do acesso às políticas públicas no território, a gente acabava um tomando conta uns dos outros e eu cresci nessa articulação”, conta.
Com uma forte sensibilidade e vontade de mudança, Silva passou a assumir ainda na adolescência a liderança da turma da escola, participando do grêmio escolar. Depois de formado em biologia, sua atuação nas escolas era sempre na coordenação para realizar projetos interdisciplinares. Atualmente ele possui um cursinho de idiomas, informática e reforço escolar, além de manter o centro de candomblé Egbé Asé Sango Olukoso Lalu há 15 anos em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
O centro coordenado por Silva é acionado para uma série de demandas comunitárias como a necessidade de emissão de documentos, pedidos de cestas básicas, doações e abrigo para vítimas de enchentes, mães preocupadas com o envolvimento dos filhos com o uso de drogas, vítimas de violência e preconceito. “Vem a mãe que tinha um filho encarcerado, aí eu acabava cuidando desse filho mesmo que estivesse distante. Aí um pai de família que não conseguia emprego, que não tinha documento, eu acabava ajudando”, enumera.
No entanto, a ênfase está no acolhimento da população LGBTQIAPN+. Além de passar pelo processo de afirmação como homem gay, ele também teve a vida transformada após o filho do primeiro casamento, que nasceu biologicamente como menina, fazer sua transição para homem trans. “Eu vi a luta dessa transformação. A gente conversando sobre várias coisas e ele foi me despertando mais ainda com suas histórias sobre algumas situações vividas”, diz.
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Para o babalorixá, a relação entre a defesa dos direitos humanos e o candomblé está no foco dado à coletividade, que tem um papel importante no acolhimento das pessoas e no cuidado com a saúde mental. “O coletivo abraça e respeita esses corpos do jeito que eles realmente querem ser. E o acolhimento não é só os trâmites religiosos, mas também sentar para ouvir o que a pessoa tem pra falar, chorar e mostrar que a caminhada pode ser mais leve, apesar das dores”, resume.
Diante das inúmeras demandas que recebe no centro, ele fala da importância do papel das redes para saber encaminhar e direcionar os pedidos. E dentro desse papel de articulação, está o de ter realizado entre 2023 e 2024 as oficinas de formação da Rede de Defensores de Direitos Humanos e Promoção da Saúde no Estado do Rio de Janeiro realizadas pela Coordenação de Cooperação Social da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A formação tem como objetivo capacitar pessoas, grupos, coletivos e movimentos sociais em temáticas relacionadas à saúde e direitos e criar uma articulação no estado dentro de uma perspectiva de saúde ampliada. Nessa visão, não basta não ter doenças, mas acesso à qualidade de vida. Entre os temas das oficinas estão educação, direitos das mulheres, LGBTQIAPN+, sistema prisional, justiça socioambiental e acesso à cultura.
Silva avalia que as diferentes bagagens e trajetórias dos colegas permitiram ao grupo cumprir o objetivo do curso. “Eu não tenho ainda a possibilidade de ir diretamente aos órgãos públicos, eu preciso do auxílio dessa rede que foi formada para poder direcionar as pessoas”, conta.