
Ainda outro dia, um telejornal mostrou imagens da África do Sul onde, casualmente, via-se um enxame de microcarros amarelos em meio ao trânsito urbano. A curiosidade automotiva falou mais alto que a notícia: corremos para a internet para tentar decifrar aqueles objetos rodantes não identificados.
O Google Lens ajudou a matar a charada. Trata-se do Bajaj Qute, um veículo que desafia classificações. Será um carro com motor de motocicleta ou uma motocicleta com carroceria fechada?
Uma mensagem de WhatsApp para Brenwin Naidu, editor do Sunday Times Lifestyle Motoring em Joanesburgo e colega de júri no World Car Awards, permitiu saber mais sobre o veículo.
— São, na verdade, quadriciclos, uma categoria legalmente distinta de carros convencionais. Os Qute circulam em áreas urbanas, quase exclusivamente como transportes por aplicativo. Já vi um ou dois na estrada, embora eu não tenha certeza se eles deveriam estar ali — diz Brenwin.
O nome é um trocadilho com Cute – bonitinho ou fofinho, em inglês
Foto de: Bajaj
Sim: com base na cilindrada, a legislação sul-africana permite que eles transitem em rodovias, ainda que seu habitat seja a cidade grande. E os condutores precisam ter o equivalente à nossa CNH categoria B.
O modelo não é fabricado na África do Sul, mas sim importado da Índia. Seu projeto teve início em 2009, quando a Bajaj — mais conhecida no Brasil por suas motos — anunciou uma parceria com a Aliança Renault-Nissan para produzir um veículo ultrapopular, que custaria o equivalente a US$ 2.500 (R$ 13.500).
A Renault-Nissan desistiu do projeto, mas a Bajaj foi adiante. Em 2012, a marca indiana apresentou o resultado: o RE60, pensado para o serviço de táxi — teoricamente, um avanço técnico e de segurança em relação aos tuk tuks tradicionais, triciclos sem portas e com guidom.
O próprio governo indiano, contudo, impôs barreiras legais e entraves regulatórios que atrasaram a homologação do RE60. Somente em 2019, o modelo foi aprovado para circular em seu país, mas como quadriciclo e não como automóvel de fato.
Bajaj Qute – carrinho é estreito e alto e tem aros de 12 polegadas
Foto de: Bajaj
Rebatizado de Bajaj Qute (que soa como cute, “fofinho” ou “bonitinho” em inglês), o modelo não chegou tão barato quanto se imaginava. Vendido na Índia pelo equivalente a R$ 24 mil — contra os R$ 15 mil de um tuk tuk Bajaj comum — o quadriciclo tornou-se um completo fiasco em seu país de origem.
O jeito foi focar na exportação para países tão variados quanto Turquia, Egito, Gana, São Tomé e Príncipe, Indonésia e Rússia. Entre 1º de abril de 2024 e 31 de março de 2025, a Bajaj vendeu 6.422 unidades do Qute no mercado externo.
No México, é comum ver os Qute transportando passageiros nas periferias das grandes cidades. Na Guatemala, um de seus principais mercados, o modelo é mais usado no interior:
— No ano passado, foram vendidos 1.900 Qute na Guatemala e estima-se que serão 2.200 este ano — conta-nos o jornalista automotivo Néstor Larrazábal, do programa Motor en TV.
Na África do Sul, os Qute sofreram ataques dos motoristas de táxis e vans convencionais
Foto de: Bajaj
E foi no esforço de exportações que o Qute desembarcou na África do Sul, onde custa 94.800 rand (R$ 29 mil), valor aproximado de um Renault Sandero 2017 naquele país.
A chegada do pequenino Bajaj ao mercado de transporte já resultou em atritos com motoristas de táxis e vans convencionais, incluindo episódios de vandalismo e ataques contra os veículos.
O Qute é minúsculo para um veículo de quatro lugares. Com 2,75 m de comprimento, 1,31 m de largura e 1,65 m de altura, lembra uma caixa de fósforos deitada de lado. Para comparação, os Smart de dois lugares vendidos no Brasil até 2016 mediam 2,69 m/1,56 m/1,54 m.
A carroceria combina um monobloco de metal a uma pele externa de plástico, com quatro portas de vidros deslizantes. Tudo para manter o peso do Qute em 449 quilos — ou seja, menos que a metade de um VW Up! básico.
O motorzinho monocilíndrico vai na traseira
Foto de: Bajaj
O motor monocilíndrico de quatro tempos, com refrigeração líquida, 216 cm³, injeção e dupla alumagem, fica na traseira, rendendo 13,4 cv e 2 kgfm de torque. Vai acoplado a uma caixa sequencial de cinco marchas, mais ré. Para ter acesso à parte mecânica, baixa-se a parte central do para-choque.
A aceleração é esperta o suficiente para o trânsito pesado dos centros urbanos. O motor teria fôlego para ir além dos 70 km/h de máxima, não fosse um limitador eletrônico. E nem queira passar disso: com sua carroceria muito estreita e alta sobre rodinhas de 12”, o Qute é instável em manobras rápidas. Imagine fazer o teste do alce com um veículo desses…
O rolling exagerado e a sensibilidade a ventos laterais tornam o pequenino Bajaj claramente inadequado para rodovias, como se vê em um divertido vídeo do jornalista Ciro de Siena para o site Cars.co.za.
O volante tem posição mais horizontal do que a habitual, enquanto a alavanca de marchas sai do meio do painel. Seu acionamento é sequencial, familiar a qualquer um que já tenha pilotado uma moto. O quadro de instrumentos também vai em posição central e é bem motociclístico, com o indicador da marcha engatada.
As rodas são diminutas, com pneus “canela fina”, 135/70R12. Mesmo sem qualquer tipo de assistência, a direção é bem leve.
Apesar das dimensões reduzidas, o interior é surpreendentemente espaçoso. Quatro ocupantes se acomodam com conforto, incluindo alguém com 1,85 m de altura no banco traseiro. Os joelhos viajam com folga.
Há ventiladores no teto para todas as fileiras, saídas de ar ajustáveis nas colunas A e cintos de segurança para todos. Os bancos, contudo, não têm encostos de cabeça e são praticamente retos, sem apoios laterais.
Os bancos não têm encostos de cabeça nem apoios laterais
Foto de: Bajaj
O porta-malas dianteiro suporta 20 kg, podendo chegar a 40 kg extras no bagageiro de teto (nem queremos imaginar o que acontece com o centro de gravidade nessa situação). Na cabine, os porta-trecos totalizam 190 litros, distribuídos entre compartimentos sob os bancos, dois porta-luvas com chave e enormes bolsos laterais. O banco traseiro rebatível (60:40) aumenta a flexibilidade de transporte — a Bajaj jura que, baixando-se todo o encosto de trás, abre-se um compartimento de carga com capacidade de 850 litros.
O Qute é equipado com o essencial: luzes, setas, limpador de para-brisa (com apenas uma velocidade), rádio com MP3 e tomada 12V. Ar-condicionado, airbags ou ABS? Esqueça…
O pequeno porte e o baixo peso tornam o Qute vulnerável em colisões com veículos maiores. Ainda assim, o modelo tem aprovação do NRCS (National Regulator for Compulsory Specifications) para circulação em qualquer via sul-africana. Muitos desses Bajaj são amarelos, talvez para chamar a atenção enquanto se arrastam no trânsito.
Os indianos Qute são uma visão comum nas ruas da África do Sul
Foto de: Bajaj
— Fico surpreso que essa engenhoca tenha conseguido passar pela homologação para nossas vias. Parece fora de lugar, já que a África do Sul não é tão densa em termos de tráfego quanto a Índia — analisa Brenwin.
O consumo é impressionante: até 36 km/l, tornando-o muito econômico para deslocamentos rápidos. E é bom que seja assim, já que o tanque tem capacidade para apenas 8 litros de gasolina.
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Fonte: Bajaj
O Qute não é uma opção para famílias ou longas viagens, mas cumpre seu papel como veículo urbano econômico, substituindo o tuk tuk ou fazendo pequenas entregas. Uma espécie de mototáxi que pode levar três passageiros abrigados da chuva.
— Os Bajaj Qute não são muito bem vistos pelos motoristas sul-africanos. Eu os compararia aos mosquitos do mundo automotivo — define o editor do Sunday Times.