
Em um cenário internacional multipolar, as alianças internacionais como o Brics são importantes para pressionar por mudanças nas relações entre os países, inclusive para a formação de parcerias eurasiáticas, avalia o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, em entrevista exclusiva para a TV Brics.
“O fato de o Brics incluir grandes potências eurasiáticas como a China, a Índia, a Rússia e agora também a Indonésia, naturalmente torna o grupo um participante potencialmente muito eficaz e facilitador para os processos de formação da Grande Parceria Eurasiática”, disse o chanceler, referindo-se ao termo cunhado pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, em 2015.
Na conversa, Lavrov aponta uma continuidade nas prioridades da presidência rotativa do Brics e destaca que as iniciativas lançadas pela Rússia para suporte à economia global em 2024, quando o país presidia o bloco, continuam sendo discutidas. O ministro ressalta que, agora, na presidência da Índia dois temas têm tomado relevância: o terrorismo e a questão da inteligência artificial.
Sobre a política internacional adotada Putin, o chanceler lembra que ela visa garantir segurança ao território, num momento em que políticos europeus falam em desencadear uma guerra contra o país, numa atitude que ele classifica como “russofobia”. Lavrov pontua ainda a presença de nazistas do governo da Ucrânia e critica duramente as sanções impostas à Rússia pelos Estados Unidos e pela Comunidade Europeia, por causa do conflito.
Leia a entrevista completa:
TV Brics: Senhor Serguei Lavrov, no dia 10 de fevereiro é celebrado anualmente na Rússia o Dia do Trabalhador Diplomático, a data oficial dos funcionários do Ministério das Relações Exteriores da Rússia e das representações no exterior. Imagino que o senhor quase sempre passe esse dia no trabalho. Como avalia essa data? Quão importante ela é para o senhor e para os seus colegas? E, de modo geral, quais considera serem os principais resultados do trabalho do ministério?
Serguei Lavrov : Quanto aos resultados, provavelmente não cabe a nós julgá-los. Temos o presidente, a quem nos subordinamos de acordo com a Constituição; e é ele quem define a nossa política externa, inclusive a aprovação do conceito de política externa. A versão mais recente foi aprovada em março de 2023 e reflete as grandes mudanças que estão ocorrendo no mundo, de caráter duradouro e sistêmico, e que ocuparão a maior parte do nosso tempo na atividade prática.
É claro que também é importante o fato de que, com cada país parceiro, com base nos acordos entre presidentes e primeiros-ministros, elaboramos planos concretos nas áreas comercial e econômica, de investimentos e de cooperação científica, além de ações conjuntas na arena internacional, na ONU [Organização das Nações Unidas] e em outras organizações. Naturalmente, é dada atenção especial à CEI [Comunidade dos Estados Independentes], à União Econômica Eurasiática [UEE], à OTSC [Organização do Tratado de Segurança Coletiva] e, de modo geral, ao espaço pós-soviético. Esse trabalho cotidiano é estruturado com base em planos de longo prazo e traz benefícios diretos e mútuos tanto para nós quanto para os nossos parceiros.
Mas a transformação que hoje se observa na arena mundial, e que começou há algum tempo em função da transição objetiva para um mundo multipolar — quando já não se trata da bipolaridade, como foi no período da União Soviética e dos Estados Unidos, do Pacto de Varsóvia e da Aliança do Atlântico Norte [Otan], nem da unipolaridade que se estabeleceu após o desaparecimento da União Soviética, mas precisamente da multipolaridade que passa a determinar os rumos do desenvolvimento da humanidade — ocorre em um contexto em que os Estados Unidos, que durante muitos anos foram um motor da economia mundial e reguladores das finanças globais, utilizaram o papel do dólar para reforçar suas posições dominantes. Hoje, eles já estão perdendo, objetivamente, sua influência econômica e seu peso na economia mundial.
Paralelamente, estão se fortalecendo países como a China, a Índia e o Brasil; no continente africano, há processos muito interessantes ligados ao fato de que os africanos querem, cada vez mais, não apenas exportar suas riquezas naturais, mas construir uma indústria própria, como a União Soviética começou a ajudá-los a fazer ainda naquela época.
E assim por diante. Ou seja, surgiram muitos centros de rápido crescimento econômico, centros de poder, de influência financeira e política, e o mundo está sendo reconfigurado. E isso tudo está acontecendo em meio a uma disputa competitiva.
O Ocidente não quer abrir mão de suas posições outrora dominantes. Com a chegada da administração Trump, essa luta para suprimir concorrentes, por assim dizer, tornou-se ainda mais evidente e aberta. De fato, a própria administração em Washington, sob a gestão de Donald Trump, não esconde essas ambições: devemos dominar no setor de energia, vamos limitar os concorrentes. Métodos completamente desleais são utilizados também contra nós. Proíbem o funcionamento de empresas petrolíferas russas, como a Lukoil e a Rosneft; tentam colocar sob controle o nosso comércio, a nossa cooperação em investimentos, os vínculos de cooperação técnicomilitar com nossos maiores parceiros estratégicos, como a Índia, por exemplo, e outros membros do Brics.
Ou seja, há uma batalha pela preservação da antiga ordem mundial, que se apoiava no papel do dólar e nas regras que o Ocidente inventou e implementou no Fundo Monetário Internacional, no Banco Mundial e na Organização Mundial do Comércio.

E quando os novos centros de crescimento passaram, com base nessas mesmas regras, a alcançar resultados econômicos muito mais expressivos e taxas de crescimento substancialmente mais altas — algo que observamos em todos os países do Brics —, o Ocidente passou, como eu disse, a buscar maneiras de impedir essa transição. Mas isso é impossível de ser feito, porque o processo é bastante objetivo: já há vários anos que as taxas de crescimento dos países do Brics superam aquelas do G7 e, principalmente, o volume do PIB [Produto Interno Bruto], em paridade de poder de compra, supera de forma significativa o PIB conjunto dos países do G7.
E acredito que aqui fiz uma pequena digressão porque esses processos na economia mundial — tanto os processos objetivos de surgimento de novos centros de desenvolvimento quanto os processos subjetivos relacionados às tentativas dos antigos centros, que estão perdendo sua influência, de atrapalhar esses processos objetivos — ocupam o espaço prioritário do nosso trabalho, não apenas no nível das previsões analíticas globais, mas também no nível das relações bilaterais práticas com cada país, já que todos os confrontos geopolíticos, as tentativas de impedir o curso objetivo da história, é claro, afetam os assuntos bilaterais. E não vou enumerar, mas temos as sanções, a chamada “frota sombria” inventada pelo Ocidente, as tentativas, em flagrante violação da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, de deter navios usando força militar em alto-mar, entre muitas e muitas outras coisas. Tarifas pelo fato de alguém comprar petróleo ou gás de outro alguém. Isso agora está disseminado em toda parte.
E o principal conteúdo do nosso trabalho… Aliás, tem uma canção assim. Ela, na verdade, é o hino do Ministério para Situações de Emergência, mas serve perfeitamente para o nosso ministério, assim como para qualquer outro órgão do nosso país.
“Nossa preocupação é esta,/Nossa preocupação é simples,/Que viva a nossa pátria amada,/E não há outras preocupações”.
Por outro lado, essa meta de que viva o país natal é hoje muito ambiciosa. Ela inclui garantir nossa segurança, uma segurança confiável, especialmente em condições em que alguns que se fazem passar por políticos na Europa ameaçam desencadear uma guerra contra a Rússia. A segurança também exige impedir a continuação, em nossas fronteiras, de um Estado nazista que o Ocidente criou a partir da Ucrânia e com o qual, mais uma vez, declarou guerra contra nós.
As bases nazistas devem ser eliminadas. E nós garantiremos, nisso não tenho dúvida alguma, os interesses da nossa segurança, impedindo a instalação em território ucraniano de qualquer tipo de arma que nos ameace. Em segundo lugar, garantindo a proteção plena, confiável e efetiva dos direitos das pessoas que são russas, russófonas, que vivem há séculos nas terras da Crimeia, de Donbass, de Novorossiia. Pessoas que o regime de Kiev, que chegou ao poder após um golpe de Estado, chamou de terroristas e contra as quais declarou guerra civil. Por isso essa é uma tarefa fundamental para que o nosso país viva. Sem falar da economia, das questões sociais, que o presidente mantém sob controle constante e que o governo cuida.
No nosso caso, uma das principais tarefas do Ministério das Relações Exteriores e da nossa política externa é garantir e criar as condições externas mais favoráveis para o desenvolvimento interno do país — econômico, social e industrial — assegurando, assim, o crescimento do bem-estar dos cidadãos.
É compreensível que, diante de uma guerra global desencadeada contra nós e das tentativas incessantes do Ocidente de punir nossos parceiros, exigindo que interrompam negociações e cessem a cooperação técnico-militar conosco, seja mais difícil realizar nosso trabalho e garantir condições favoráveis ao desenvolvimento interno do país do que era, digamos, há 10 ou 15 anos.
Mas isso não torna as tarefas menos urgentes. Acredito que estamos fazendo todo o possível para cumpri-las de maneira honrosa, como determinado pelo presidente. No final, o julgamento sobre nosso trabalho caberá, antes de tudo, aos próprios cidadãos russos.
Eu sei que os cidadãos russos têm forte interesse pelo trabalho do Ministério das Relações Exteriores. Para nós, isso é motivador, mas também acarreta obrigações adicionais de grande peso. Espero que, no período da preparação e celebração do Dia do Diplomata, em 10 de fevereiro, possamos não só falar mais sobre nossas atividades, mas também — e isso é o mais importante — responder às perguntas que recebemos de nossos cidadãos e às quais sempre tentamos responder da forma mais completa possível, mantendo o contato direto com a população. Para nós, isso é de suma importância. É crucial entender o que eles sentem em relação aos desafios externos que a Rússia enfrenta; isso frequentemente nos dá boas pistas. Pesquisas de opinião pública e até mesmo manifestações espontâneas dirigidas a nós costumam conter informações valiosas para a definição de nossos passos práticos na política externa.
Em 2025, a Indonésia ingressou no Brics. O senhor já mencionou a Índia e a China. Seria correto dizer que, atualmente, seu trabalho dedica ainda mais tempo à cooperação internacional no âmbito do Brics? E quais são as perspectivas de desenvolvimento?
Sem dúvida, tudo o que eu disse respondendo à primeira pergunta significa que, em um contexto em que o Ocidente perde sua hegemonia, mas ainda se agarra às instituições criadas para mantê-la — instituições que, por definição, já não refletem a situação real nem a justiça nas relações internacionais —, torna-se inevitável a criação de novas estruturas para atender às conexões econômicas, comerciais, de investimentos e de transporte internacionais.
Afinal, não defendemos que o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial ou a Organização Mundial do Comércio deixem de existir. Por muitos anos, lutamos pela reforma dessas instituições, desde a própria criação do Brics, para que os países do grupo, que eram e continuam sendo as economias e potências comerciais que mais crescem no mundo, ganhassem mais voz e direitos em todas essas instituições de Bretton Woods, proporcionais ao seu peso real na economia, no comércio e nas questões logísticas mundiais.
O Ocidente tenta obstruir isso categoricamente. O presidente Vladimir Putin afirmou repetidamente: não fomos nós que recusamos o uso do dólar. Os EUA, sob a gestão de [Joe] Biden, fizeram de tudo para transformar o dólar em uma arma contra aqueles que não agradam. Também observo que, apesar de todas as declarações que ouvimos sobre a necessidade de encerrar a guerra na Ucrânia desencadeada por Biden, de negociar uma solução e de retirar esse tema da pauta — o que, em tese, abriria perspectivas claras e promissoras para uma cooperação russo-americana mutuamente benéfica em investimentos e em outras áreas —, a administração Trump não contesta nenhuma das leis aprovadas por Biden para punir a Rússia após o início da operação militar especial.

Em abril, foi prorrogada a lei sobre o estado de emergência, cujo cerne é punir a Rússia por meio de sanções, inclusive com o congelamento de nossas reservas em ouro e em moeda estrangeira. No texto, afirma-se literalmente que a medida se deve ao “comportamento hostil da Rússia na política externa”. Como exemplos, são citadas a suposta interferência nas eleições dos Estados Unidos — algo que o presidente Trump rejeita e combate categoricamente todos os dias —, além de violações do direito internacional e dos direitos humanos. Em suma, mencionam de tudo um pouco.
Isso tudo é “Bidenismo” puro, algo que Trump e sua equipe rejeitam. Ainda assim, a lei foi prorrogada sem dificuldades, e as sanções contra a Rússia permanecem em vigor. Também foram impostas sanções contra a Lukoil e a Rosneft — o que, aliás, ocorreu ainda no outono [do Hemisfério Norte], poucas semanas após o encontro muito positivo entre Putin e Trump em Anchorage [Alasca].
Por um lado, ouvimos que é preciso resolver a questão ucraniana. Tudo bem: em Anchorage, aceitamos a proposta dos Estados Unidos. Ou seja, se formos encarar isso de maneira justa, eles propuseram, nós concordamos — o problema deveria estar resolvido. Para a Rússia, como Putin já disse várias vezes, não importa o que digam na Ucrânia ou na Europa: vemos perfeitamente a russofobia primitiva da maioria dos regimes da União Europeia, com raríssimas exceções. O que importava para nós era a posição dos Estados Unidos. E, ao aceitarmos a proposta deles, cumprimos nossa parte ao resolver a questão ucraniana, para então passar a uma cooperação ampla, de grande escala e mutuamente benéfica. Mas, na prática, tudo parece o contrário: novas sanções são impostas, trava-se uma guerra contra petroleiros em alto mar — como é de conhecimento — violando a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Tentam impedir que a Índia e outros parceiros nossos comprem recursos energéticos russos baratos e acessíveis. Esses já foram proibidos há muito tempo na Europa, o que os obriga a comprar gás natural liquefeito dos Estados Unidos a preços exorbitantes.
Ou seja, no âmbito econômico, os norte-americanos, de modo geral, declararam a meta de dominar a economia mundial. Por isso, além do fato de que, aparentemente, com a Ucrânia eles fizeram uma proposta que estávamos prontos a aceitar, mas que agora não querem mais, também não vemos nenhum futuro promissor na área econômica.
Os norte-americanos querem controlar todas as rotas de fornecimento de recursos energéticos para todos os principais países e continentes. Isso inclui o continente europeu, onde observam os Gasodutos Nord Stream, que foram sabotados, como sabem, há três anos, além do sistema ucraniano de transporte de gás e o Gasoduto TurkStream.
O que quero dizer é que o objetivo dos Estados Unidos é dominar a economia global. Para isso, eles utilizam um grande número de medidas coercitivas que não se encaixam em uma competição justa: tarifas, sanções, proibições diretas, chegando ao ponto de proibir até mesmo que alguns estabeleçam contato comercial.
Somos obrigados a levar tudo isso em consideração. Por isso, mantendo-nos abertos à cooperação com todos os países — assim como a Índia, a China, a Indonésia e o Brasil — inclusive com uma grande potência como os Estados Unidos, diante dos obstáculos artificiais impostos pelos próprios norte-americanos, precisamos buscar caminhos adicionais e protegidos para desenvolver nossos projetos financeiros, econômicos, de integração, logística e outros, em parceria com os países do Brics.
Aliás, quando lideramos a presidência do Brics no ano retrasado [2024], durante a cúpula do grupo em Kazan, várias iniciativas russas foram encaminhadas. Entre elas, destacam-se plataformas alternativas de pagamento, mecanismos de liquidação em moedas nacionais, a criação de capacidades de resseguro para o comércio dentro do Brics e entre o grupo e seus parceiros, além da criação de uma bolsa de grãos e de uma nova plataforma de investimentos. Tudo isso não representa uma afronta a ninguém — especialmente aos Estados Unidos —, mas sim uma resposta ao rígido controle exercido pelos EUA sobre os processos nessas áreas, com exigências de concessões unilaterais.
Por isso, não deixamos de manter contato com eles na medida em que estejam dispostos a fazê-lo em bases mutuamente benéficas. É claro que temos interesse, junto dos nossos parceiros do Brics, em criar uma arquitetura que não esteja sujeita a ações ilegítimas de qualquer representante do flanco ocidental.
Os princípios do Brics de igualdade, abertura e cooperação mutuamente benéfica ecoam também na União Econômica Eurasiática, por exemplo. E esta união de integração, o projeto da Grande Parceria Eurasiática, em sua opinião, também pode contribuir para o desenvolvimento da cooperação internacional, assim como a Organização para Cooperação de Xangai e a Asean?
Claro, tenho certeza disso. Basicamente, a Grande Parceria Eurasiática é uma iniciativa que surgiu naturalmente na pauta. Há vários anos, em 2015, se não me engano, durante uma cúpula entre a Rússia e a Asean [sigla em inglês da Associação das Nações do Sudeste Asiático], o presidente Putin cunhou o termo Grande Parceria Eurasiática. Essa ideia se apoia em uma tendência evidente: a Eurásia é o maior continente do mundo, o mais rico e de crescimento mais acelerado, especialmente na sua parte do Pacífico. É também o mais populoso e, não menos importante, o continente onde várias grandes civilizações nasceram e continuam se desenvolvendo.
Falamos da civilização chinesa, indiana, árabe, persa e a civilização russa. É difícil encontrar na história da África ou da América Latina uma quantidade de processos históricos semelhante à da Eurásia. Essas regiões também têm histórias antigas e ricas, mas a diversidade cultural e civilizacional é uma característica marcante do continente eurasiático.
Na Eurásia, existem muitas estruturas sub-regionais: a União Econômica Eurasiática, a Comunidade dos Estados Independentes, a Asean. Há a Organização do Sul da Ásia, a organização dos países árabes do Golfo Pérsico, entre muitas outras. Tanto na África quanto na América Latina, também existem muitas organizações sub-regionais, mas em ambas as regiões há uma estrutura continental unificadora: a União Africana e a Comunidade de Estados Latino-Americanos Caribenhos [Celac]. Na Eurásia, não há uma estrutura geral desse tipo.
Isso se explica, em grande parte, porque os europeus, desde a época colonial, se preocuparam principalmente em organizar seus próprios territórios, usando outras terras, inclusive as eurasiáticas, como colônias — seja a Índia, a China ou muitos outros territórios — e concentraram-se principalmente no desenvolvimento da parte ocidental do continente, partindo do princípio de que eram donos do restante.
Foi assim que surgiram as concepções que refletem as abordagens euro-atlânticas para a segurança. Após a Segunda Guerra Mundial, há a Otan a União Europeia — que atualmente se tornou praticamente um apêndice da Otan —, e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa [Osce], que também tem uma lógica euro-atlântica em seu fundamento, considerando a presença ativa da América do Norte, Estados Unidos e Canadá.
Todas essas organizações, como a Otan, com suas promessas não cumpridas feitas ainda à União Soviética de que não se expandiria para o Leste; a União Europeia, que destruiu toda a infraestrutura densa de cooperação com o nosso país; e, especialmente, a Osce, que se subordinou totalmente às ações unilaterais do Ocidente e esqueceu o princípio fundamental do consenso, da concordância de todos os seus membros. Todas elas estão, de certa forma, vivendo seus últimos dias.
Não é por acaso que a nossa iniciativa, formulada pelo presidente em 2024, sobre a garantia da segurança eurasiática, e a criação de uma arquitetura de segurança eurasiática e continental estão ganhando força, despertando cada vez mais interesse.
É claro que essa ideia de garantir a segurança com a participação de todos os países do continente precisa se apoiar em uma base material sólida — que é exatamente o que representa a Grande Parceria Eurasiática. Quanto mais fortes forem os vínculos entre as uniões regionais e sub-regionais de integração, mais firme será o alicerce para construir um modelo comum de segurança. O processo de formação da Grande Parceria Eurasiática já está em andamento, tendo se iniciado a partir das relações entre a União Econômica Eurasiática, a Organização para Cooperação de Xangai e a Asean. Nesse contexto, também é considerada a iniciativa chinesa do Cinturão e Rota. Os chefes das estruturas executivas dessas organizações se reúnem periodicamente para trocar informações sobre seus planos, o que permite identificar quais projetos podem ser implementados de forma mais eficiente e com menores custos, por meio da cooperação, evitando a duplicação de esforços.
Essa cooperação ocorre tanto no âmbito do projeto do corredor internacional de transporte Norte–Sul, quanto nos projetos que conectam o Sul da Ásia ao nosso Extremo Oriente, além dos projetos relacionados ao uso conjunto da Rota Marítima do Norte. Portanto, esses processos estão em andamento. Por razões óbvias, quando falamos da Parceria Eurasiática, os países do continente estão envolvidos nesses processos. O Brics é uma organização global, que desperta interesse em todos os continentes, e que já reúne não apenas países da Eurásia, mas também muitos países da América Latina e do continente africano. Esse processo continuará.
O Brics oferece um tipo de estrutura “guarda-chuva”, digamos assim, para o desenvolvimento dos processos de integração nos diferentes continentes. E, no futuro, o Brics pode muito bem se tornar o local onde os planos de desenvolvimento econômico, social e de infraestrutura da Eurásia, da África e da América Latina sejam harmonizados.
Além disso, o fato de o Brics incluir grandes potências eurasiáticas como a China, a Índia, a Rússia e agora também a Indonésia, naturalmente torna o grupo um participante potencialmente muito eficaz e facilitador para os processos de formação da Grande Parceria Eurasiática.
A presidência do Brics passou para a Índia, que já anunciou suas principais prioridades: resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade. Quão alinhadas estão essas prioridades com a sua visão para o desenvolvimento da cooperação internacional? Qual o papel do espaço informacional global, considerando que hoje há uma enorme quantidade de informações na vida de cada um de nós? E, adiantando um pouco, quais resultados o senhor espera pessoalmente da presidência indiana?
As prioridades de cada presidente do Brics tradicionalmente mostram continuidade. Eu citei as iniciativas que foram lançadas durante nossa presidência em 2024. Todas estão relacionadas a plataformas alternativas e mecanismos de suporte à economia mundial. Elas continuam sendo discutidas e detalhadas, assim como aconteceu no ano passado, quando o Brasil esteve à frente, e está acontecendo agora, com a presidência da Índia.
A Índia dedica especial atenção a um tema que, infelizmente, continua muito atual: o combate ao terrorismo. Observamos manifestações terroristas no Afeganistão e nos arredores, assim como em regiões entre Índia e Paquistão, Índia e Afeganistão, e entre Paquistão e Afeganistão. Existem diversos outros pontos de conflito. O Oriente Médio, é claro, incluindo sua parte asiática, também está nessa lista. Por isso, essa prioridade é muito importante para nós, especialmente porque, junto à Índia, promovemos ativamente na ONU a iniciativa para a elaboração, embora já desenvolvida, e a adoção de uma convenção global antiterrorista. Ainda não conseguimos alcançar consenso, mas essa é uma outra questão.
A Índia também tem interesse — e isso consta do programa da presidência — nas questões de segurança alimentar e segurança energética. A segurança energética será especialmente interessante de ser analisada no contexto das ações que a administração Trump vem tomando no setor energético mundial.
Essa é uma questão ligada a possibilidades e conclusões absolutamente práticas. A Índia também dedica grande atenção — e nós apoiamos ativamente — às questões de segurança das tecnologias da informação e comunicação. Em cerca de duas semanas, ou no início de março, dentro de um prazo de um a um mês e meio, ocorrerá na Índia uma cúpula sobre inteligência artificial, para a qual a Rússia foi convidada e está atualmente trabalhando ativamente na elaboração da agenda do evento. Esse encontro é de grande importância, especialmente considerando que as normas para a interação entre Estados no campo da inteligência artificial, bem como as normas para o uso da IA por cada país, estão apenas começando a ser formadas.
Trata-se de uma luta diplomática bastante séria, mas com impacto prático direto, porque essas normas devem regular, esperamos sinceramente que assim seja, o comportamento que influencia questões de segurança. Como você sabe, há atualmente tentativas ativas de alguns países de introduzir inteligência artificial na área militar.
Pode ser direito de cada país decidir como isso vai se desenrolar, mas já há tentativas de alguns países de criar uma estrutura sob seu controle, subordinando a ela tudo o que os Estados podem, fazem e têm direito de fazer com a inteligência artificial na esfera militar. Evidentemente, países como os membros do Brics não aceitarão esse cerceamento de sua soberania, porém, a transparência nessa área permanece fundamental.
Por isso, acredito que a presidência indiana tem uma agenda muito atual, relevante, que responde aos desafios do presente e é voltada para o futuro. Vamos oferecer a ela todo o nosso apoio.