Capítulo 9 – Frenectomia: o corte que liberta

Bruna GomesAtualidadesColunistas10 months ago94 Views

Frenectomia: o corte que liberta

A maternidade nos mergulha em infinitas experiências e, no meio delas, nos surpreendemos com nossa própria resistência. Seguir com a amamentação em meio ao turbilhão de emoções e cobranças que o puerpério nos proporciona é, de fato, desafiador. E, muitas vezes, a pressão nem vem de fora, mas de dentro: de nós e contra nós! Realizamos cobranças da pessoa que está mais fragilizada, mais amedrontada, mais insegura; e, no fim, nos tornamos a pessoa mais cruel com nós mesmas.

O colostro apareceu logo após o parto, mas o leite de transição, que dura cerca de 15 dias, só desceu por volta do terceiro dia. Mesmo assim, meu bebê não conseguia mamar direito. Apesar da quantidade de leite, ele se esforçava muito e algo claramente não estava certo. Ele ficava irritado, começava a sugar mas parava rapidamente, mesmo estando com fome. Eu insistia, ele chorava, tentava novamente e acabava me machucando. Eu me perguntava: o que está acontecendo? Era desesperador!

O marido logo vinha tentar ajudar, mas havia momentos em que quatro mãos pareciam insuficientes para conter o bebê. Uma mão sustentava o corpinho frágil, outra segurava a cabeça, uma terceira posicionava a mama, e a última tentava ajustar o queixo, os lábios e até o nariz! Meu Deus, algo definitivamente não estava certo – apesar de todo esse esforço conjunto, sempre acabávamos precisando de complementar com leite extraído. E quando não havia leite suficiente, recorríamos a uma pequena quantidade de fórmula, só para acalmá-lo antes de tentarmos novamente. Como eu desejava muito estabelecer a amamentação, optei por não utilizar mamadeira como auxílio. Então, se ele não mamava no peito, bebia no copo.

Três dias depois, procurei uma consultora de amamentação. Eu queria muito que ela avaliasse minha técnica de oferta do peito, pois não entendia onde estava errando – tinha estudado tanto para isso! E como foi importante essa consulta! Percebi que estava no caminho certo e que essas dificuldades eram comuns, especialmente com um bebê que tinha anquiloglossia (língua presa).

O mais surpreendente foi que, mesmo tendo sido avaliado por um pediatra ainda no hospital, essa condição passara despercebida. A consultora confirmou minhas suspeitas após uma avaliação cuidadosa, observando várias características específicas, e me encaminhou para uma odontopediatra. Lá, o diagnóstico foi confirmado e a frenectomia (cirurgia para corrigir a língua presa) foi realizada. E nosso filho se esforçava tanto para mamar que já começava a desenvolver torcicolo.

É próprio da fisiologia humana que, durante a deglutição, a língua se apoie no palato (céu da boca) para impulsionar o alimento. Um bebê com anquiloglossia não consegue realizar esse movimento adequadamente, pois sua língua não tem a necessária mobilidade. E no caso do nosso filho, ele compensava essa limitação usando excessivamente os músculos do pescoço; por isso da sobrecarga. Já tentou engolir sem que a língua faça o movimento correto no palato? Não é nada fácil!

O procedimento é bastante simples, porém é crucial procurar um profissional competente que transmita segurança. No caso do nosso pequeno, foi feita uma pequena incisão no freio lingual com anestesia local, sem necessidade de sutura. Vale ressaltar que existem diferentes tipos de anquiloglossia, e cada caso deve ser avaliado individualmente pelo especialista.

Que libertador! Foi um momento muito emocionante para mim e para meu marido, que esteve presente em cada etapa, compartilhando todas as nossas angústias! Como nunca havia mamado antes, nosso filho já amamentou de forma independente logo após o procedimento. Ainda na clínica, utilizamos a técnica de relactação com sonda, em que um dispositivo é posicionado junto ao peito para complementar a alimentação do bebê. O sistema consiste em uma sonda acoplada a um recipiente com leite (materno ou fórmula), cuja outra extremidade é fixada próximo ao mamilo. Dessa forma, enquanto o bebê suga o peito, recebe simultaneamente o leite da sonda. Risadas e lágrimas tomaram conta daquele momento tão especial.

Embora essa técnica seja comumente empregada para estimular a produção de leite, no nosso caso foi utilizada como incentivo inicial à amamentação, ajudando na transição pós-cirúrgica. E em casa mesmo fazíamos os exercícios de fortalecimento da linguinha, conforme orientação da odontopediatra, já que, se tratando de um músculo que durante toda a gestação se manteve presa, ela estava enfraquecida. Então, mesmo após a realização da frenectomia, as mamadas ainda eram um tanto exaustivas – compreensível nesse processo de adaptação. Mas tão prazeroso, tão satisfatório! Agora sim estávamos prontos para iniciar nossa jornada, ainda que um tanto turbulenta, mas muito gratificante!

A gente até poderia ter cedido à mamadeira, satisfeito a fome imediata. Mas a língua presa não atrapalha só na amamentação; pode causar um monte de outras coisas: atraso da fala, dificuldade de ingerir comida sólida, maior chance de engasgar e até dificuldade para cuidar dos dentinhos depois. Mas aí, quando nos tornamos pais, descobrimos que cada coisinha importa, cada detalhe faz uma diferença danada. No fim, a pergunta que fica é: quanto vale um simples detalhe?

Bruna Gomes

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