Congresso Nacional dá tapa na cara do brasileiro comum

idosa beneficiada pela aposentadoria rural
Foto: Pixabay

O que aconteceu esta semana no Congresso Nacional não foi apenas uma decisão administrativa. Foi um gesto político. É um gesto profundamente simbólico, no pior sentido possível.

Em votação simbólica, rápida, quase protocolar, Câmara e Senado aprovaram reajustes salariais generosos para os servidores da Casa. Não para deputados e senadores diretamente, esses já recebem salários brutos próximos de R$ 46 mil, fora verbas, auxílios e estruturas que empurram a remuneração real muito além disso. O foco foi nos funcionários do Legislativo. E aí mora o escândalo.

No Senado, os reajustes podem chegar a 76% em alguns casos. O vencimento básico salta de algo em torno de R$ 14 mil para perto de R$ 19 mil. E, como se não bastasse, entram em cena os velhos conhecidos “penduricalhos”: gratificações que podem alcançar 100% do salário, abrindo brechas para furar o teto constitucional e transformar o limite legal em mera peça decorativa.

Agora, vale parar um segundo e olhar para fora das paredes acarpetadas do Congresso.

Segundo dados recentes do IBGE, a renda média do brasileiro gira em torno de R$ 3.600 por mês. O salário mínimo, após reajustes já anunciados, deve chegar a R$ 1.621 em 2026. Já a aposentadoria média do INSS oscila entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, com teto de R$ 8.475.

Coloque isso em perspectiva. Um auxiliar legislativo em início de carreira pode passar a ganhar, já na largada, mais do que aquilo que milhões de brasileiros levam uma vida inteira de trabalho para alcançar, quando conseguem.

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E o contraste fica ainda mais indigesto quando olhamos o cenário macroeconômico.

O Brasil caminha para uma dívida pública que beira 83% do PIB. Os juros seguem elevados, com projeções apontando a Selic ainda na casa de 13% ou mais em 2026, drenando centenas de bilhões de reais por ano apenas para rolar a dívida. É dinheiro que não vai para saúde, educação, infraestrutura, segurança ou crescimento. É dinheiro queimado para sustentar um desequilíbrio fiscal crônico.

Diante disso, o que o Congresso fez? Priorizou a própria folha de pagamento.

Não foi uma discussão longa. Não houve grande debate. Não se viu preocupação com sinalização fiscal, responsabilidade ou exemplo. Em cerca de cinco horas, em votação simbólica, decidiu-se que, enquanto o país aperta o cinto, o Legislativo pode afrouxar o seu.

É o velho roteiro do “cuidei do meu bolso primeiro”.

Enquanto se discute ajuste fiscal para o resto da sociedade, enquanto se cobra sacrifício do contribuinte, enquanto se aceita juros altos como “mal necessário”, o Congresso manda um recado cristalino: dentro do próprio quintal, o aperto não entra.

Isso não é valorização do servidor público, que, sim, merece reconhecimento e remuneração justa. Isso é corporativismo puro, descolado da realidade do país e completamente insensível ao momento econômico.

O resultado dessa escolha é conhecido. Mais pressão sobre as contas públicas. Mais dificuldade para reduzir juros. Mais inflação adiante. E serviços públicos que continuam capengando, porque o dinheiro some antes de chegar onde importa.

No fim das contas, o brasileiro comum paga a conta duas vezes: como contribuinte e como usuário de um Estado que cobra muito, gasta mal e protege os seus. O que rolou no Congresso não foi apenas um reajuste salarial. Foi, sim, um tapa na cara de quem sustenta o país.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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  • Redação Uberlândia no Foco

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