
A Cooperativa Piá, de Nova Petrópolis, entrou em liquidação extrajudicial em meio a uma crise financeira com dívida estimada em R$ 260 milhões e queda no número de produtores. A decisão, aprovada por unanimidade na quinta-feira (26), suspende cobranças judiciais e mantém as operações, com o presidente Jorge Dinnebier nomeado liquidante.
Na prática, a medida permite a continuidade das atividades da associação, que seguirá recebendo leite dos associados e entregando produtos aos clientes. Dinnebier passa a ser o representante legal do grupo.
Dinnebier explicou que, com a liquidação, é possível suspender a cobrança de empréstimos e bloqueios judiciais de títulos, o que dá fôlego para reorganizar a cooperativa. Segundo ele, a medida é prevista em lei e não significa o fechamento da entidade. A cooperativa continua recolhendo leite, fabricando e vendendo produtos.
A estrutura de direção, porém, foi alterada. O Conselho de Administração foi dissolvido e, no lugar, assume um liquidante — no caso, o próprio Dinnebier. A cooperativa passa a adotar o termo “em liquidação” na razão social, convoca credores e inicia a negociação das dívidas. O liquidante deve prestar contas a cada seis meses.
Na situação, comprovado motivo relevante, a cooperativa pode prorrogar as ações de cobrança por mais um ano, podendo, conforme o caso, ser prorrogado por mais um período. O liquidante não quis revelar o montante da dívida, explicando apenas que a maior parte está concentrada em Banrisul, Sicredi e BRDE, além de impostos atrasados.
Fontes de Nova Petrópolis avaliam que a cooperativa enfrenta uma grave crise financeira há anos. Em 2023, a diretoria renunciou e Dinnebier foi eleito presidente. Para tentar equilibrar as contas, a Piá vendeu supermercados em Nova Petrópolis, Santa Maria do Herval, Picada Café e Morro Reuter. A unidade de Feliz está alugada.
Com uma dívida estimada em R$ 260 milhões, a Piá tenta se reerguer. O primeiro passo, segundo integrantes do comando interino, é recuperar a credibilidade junto ao mercado. A cooperativa já chegou a reunir cerca de 1,5 mil produtores de leite, com entrega diária de 180 mil litros. Hoje, são menos de cem famílias, com produção média de 9 mil litros por dia.
Dinnebier assume as funções do antigo Conselho de Administração, com poder para negociar dívidas, representar legalmente a cooperativa e prestar contas aos associados, agora a cada seis meses, conforme determina a lei. Segundo ele, a medida deve permitir renegociar débitos com prazos maiores, juros menores e possibilidade de descontos para reequilibrar a operação.
Ari Boelther foi nomeado suplente de liquidante. O novo Conselho Fiscal é formado por Roberto Wazlawick, Ismael Becker e Antônio Faoro.
A crise da Piá levanta preocupação sobre a credibilidade do sistema cooperativista de comercialização. É mais um episódio envolvendo cooperativas, desta vez no berço do cooperativismo brasileiro. Nova Petrópolis é reconhecida como a “Capital Nacional do Cooperativismo”, título oficializado pela Lei Federal 12.205/2010.
Em 1902, na localidade de Linha Imperial, o padre Theodor Amstad fundou a primeira cooperativa de crédito da América Latina, hoje Sicredi Pioneira.
Segundo a prefeitura, “o município é considerado um museu a céu aberto do cooperativismo, atraindo visitantes interessados na história do desenvolvimento financeiro e social colaborativo”.
A primeira cooperativa do país em funcionamento contínuo é a Caixa de Economias e Empréstimos Amstad, fundada em 28 de dezembro de 1902. Atualmente, Nova Petrópolis reúne nove cooperativas, sendo cinco delas criadas no próprio município, reafirmando o título recebido.