
O geógrafo e professor da pós-graduação em Ciência Ambiental Universidade de São Paulo (USP) Wagner Ribeiro avaliou que a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em Belém (PA), apresenta avanços importantes, mas ainda enfrenta impasses. “É preciso ponderar o histórico das COPs para avaliar por que o governo está correto em dizer que já é uma vitória. Ao mesmo tempo, também é preciso dizer que os movimentos sociais estão corretos em querer mais”, afirmou, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Segundo Ribeiro, a definição rápida da pauta e a criação de um fundo de financiamento para a floresta representam conquistas relevantes. “Logo no primeiro dia se conseguiu estabelecer claramente qual é a pauta da reunião. A partir daí, você tem um avanço importante”, destacou. “Sou contra a financiarização da natureza, mas, numa perspectiva do que o capital costuma operar, esse fundo se torna uma alternativa que vai remunerar não apenas o capital, mas também as comunidades”, pontuou.
O professor ressaltou que as manifestações indígenas e populares fazem parte da dinâmica do evento. “Os movimentos sociais estão fazendo o seu papel como sempre fizeram e devem continuar pressionando”, disse. Para ele, é essencial que as pautas “mais audaciosas e ambiciosas” avancem, especialmente na adaptação e na mitigação das mudanças climáticas.
Sobre o lobby empresarial na zona de negociações, Ribeiro afirmou que “a Blue Zone [Zona Azul, em português; espaço oficial da conferência] é uma área de disputa política” e reconheceu o financiamento privado na organização do evento, mas ponderou que “há uma distância entre as empresas financiarem a reunião e pautarem a reunião. Esse é o ambiente de disputa.”
No entanto, Ribeiro lembrou que a própria mobilização social em torno da COP já é um avanço. “Ver escolas fazendo simulação da COP com estudantes é extraordinário. Ele [o estudante] nunca vai esquecer que representou outro país. Só por isso a COP já é um sucesso também”, celebrou.
O professor também criticou a insistência do governo brasileiro na exploração de combustíveis fósseis. “Do meu ponto de vista, insistir nos combustíveis fósseis nessa altura do campeonato é um erro histórico. É um erro da esquerda insistir nessa pauta”, disse. Ele elogiou a posição do presidente colombiano Gustavo Petro, que defende uma transição mais acelerada para energias limpas.
Ribeiro destacou ainda que a efetividade das políticas climáticas depende de ações públicas articuladas. “Não tem outra forma senão política pública. Isso tem que vir por meio de regulamentação, de ações que estimulem outros tipos de comportamento”, indicou, citando exemplos como um transporte coletivo de qualidade e o incentivo à energia solar.
Além disso, ele alertou para a urgência da adaptação dos municípios brasileiros diante de eventos extremos. “Não chega a 30% dos municípios que têm um plano de adaptação à mudança climática. E o município é a escala onde os problemas ocorrem”, frisou. “Mesmo onde há planos, como em São Paulo, eles não são implementados”, denunciou.
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