‘Jovem Sherlock’ traz Hero Fiennes Tiffin em uma despojada e prática aventura detetivesca

Crítica livre de spoilers.

Sherlock Holmes é um dos personagens mais conhecidos da cultura pop mundial, tendo atravessado séculos desde sua estreia nos escritos do romancista e contista Sir Arthur Conan Doyle e se sagrado como um dos maiores detetives fictícios da história da literatura. Não é surpresa que o icônico personagem, que serviu de base para incontáveis narrativas de mistério e investigação, tenha sido eternizado por vários atores com o passar das décadas – incluindo o vencedor do Oscar Robert Downey Jr., Henry Cavill e Benedict Cumberbatch (apenas para citar alguns).

Mais do que isso, a obra de Doyle é constantemente alvo de readaptações e expansões por fãs inveterados desse explosivo e instigante universo, como é o caso de Andrew Lane, nome por trás da saga ‘O Jovem Sherlock Holmes’, que nos apresenta ao personagem titular em sua adolescência e o início da fase adulta. Agora, o Prime Video nos convida a retornar para esse panteão com a série ‘Jovem Sherlock’, que traz os mistérios de Lane às telinhas conforme destrincha mais ainda a conspícua mente de Doyle – e que, estendendo-se por oito episódios, cumpre exatamente com o que promete e nos fisga desde os primeiros minutos.

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Nessa nova versão, Peter Harness se une a Guy Ritchie – responsável pela duologia cinematográfica estrelada por Downey Jr. – para uma releitura que não pensa duas vezes antes de mergulhar na Inglaterra vitoriana de meados do século XIX, colocando Hero Fiennes Tiffin no papel do prestigiado detetive. Mas Tiffin encarna um Sherlock Holmes antes da fama, mas já dotado de uma predileção pela confusão e pela total ausência de consciência social. Não é surpresa, pois, que nosso primeiro vislumbre do herói venha numa cela de prisão, em que Sherlock está confinado por roubar carteiras (como parte de um experimento “inofensivo”) e por desacato à autoridade.

Porém, o nome Holmes é conhecido em meio à high society, e cabe a Mycroft (Max Irons), irmão mais velho de Sherlock, livrá-lo da sentença e colocá-lo em uma espécie de “punição branda”: como serviçal da Universidade Candlin, em Oxford, enganando-o ao fazê-lo pensar que ele seria escalado como um dos prestigiados estudantes da academia. É claro que a impetuosa e imparável mente de Sherlock o impede de se exilar em suas funções, permitindo que ele tenha acesso quase total a centenas de livros e a um conhecimento secular que o interessa mais do que tudo. Entretanto, as coisas não saem como o planejado: após fazer amizade com o jovem James Moriarty (Dónal Finn), ele é acusado de roubar pergaminhos milenares do filósofo Sun Tzu, trazidos pela princesa Shou’an (Zine Tseng) da China, a fim de reafirmar as estreitas relações comerciais entre o país e a Inglaterra.

Determinado a encontrar o culpado e a não voltar para o cárcere, Sherlock mal imagina que esse seria apenas o início de uma perigosa e intrincada jornada marcada por explosões, assassinatos e uma caótica artimanha que dá o pontapé inicial na errática personalidade do personagem que aprendemos a amar. E, através de uma história de origem não apenas de Sherlock, mas de outras personas conhecidas do panteão de Doyle, Richie e Harness encontram um tom que mescla dramédia a um ar despojado que, em boa parte, sucede no que se propõe – ainda que algumas escolhas técnicas soem um pouco fora de contexto.

Tiffin, que ascendeu ao estrelato após estrelar a franquia ‘After’, encontra merecido destaque como o personagem-título e, incrementando a personalidade de Sherlock com sua própria visão, faz um sólido trabalho que se apoia não apenas em um charme nato, mas em um comprometimento considerável que pega páginas emprestadas de conterrâneos que já o interpretaram. O astro desfruta de uma química rompante com Finn, construindo um subnúcleo que explora os laços de amizade entre Moriarty e Sherlock antes de se tornaram arqui-inimigos, e com Tseng, que usa uma unidimensionalidade proposital para esconder as habilidades de Shou’an. Integrando o elenco, temos Colin Firth retomando parceria com Ritchie como o moralmente controverso e ardiloso Sir Bucephalus Hodge; e Scott Reid como o Policial Lestrade, que, à época da pré-sequência, não tinha um bom relacionamento com o detetive.

Se o formidável corpo de atores e atrizes é forte o suficiente para nos envolver, Ritchie e Harness desandam em alguns aspectos técnicos e artísticos: de um lado, temos uma preocupação irretocável com o cenário e com o design de produção, colocando um tempero a um panorama marcado pela urbanização desenfreada e pelo constante embate social entre as classes; de outro, a montagem e a direção, por vezes, ousam em momentos equivocados, trazendo uma estilização desnecessária que descompensa o ritmo e o dinamismo do frenético. E, como era de se esperar, Bruce Broughton assina uma caprichosa trilha sonora que emula o arranjo dos filmes estrelados por Downey Jr. sem se deixar levar pelo saudosismo exacerbado.

‘Jovem Sherlock’ tem seus problemas, mas consegue varrê-los para debaixo do tapete ao acreditar com firmeza na essência do projeto ao esquadrinhar um ponto de encontro entre o legado de Doyle e os escritos de Lane. Ao canalizar os esforços a fim de deixar que o elenco seja o motor de uma alucina e deliciosa aventura, o resultado é aprazível o bastante para nos manter vidrados nas telas do começo ao fim.

Lembrando que a série está disponível no Prime Video.

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Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

Autor

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