
Depois de sobrevivermos à desastrosa adaptação de ‘Silent Hill‘ e enquanto aguardamos com cautela pelo novo filme da saga ‘Resident Evil‘, a maldição das adaptações de videogames retorna com uma vingança poderosa. Em teoria, ‘The Mortuary Assistant‘ tinha tudo para ser uma experiência minimamente divertida, mas ninguém poderia estar preparado para as decisões abismais que tornariam esta produção um dos piores filmes de terror do ano.
Na trama, Rebecca Owens, recém-formada em ciências mortuárias, aceita um emprego noturno na Funerária River Fields. Inicialmente, o trabalho parece simples — embalsamamento de corpos, preenchimento de papelada e manutenção do local. Mas, quando Rebecca começa a trabalhar no turno da noite, as coisas tomam um rumo sombrio.
Embora pareça estreante, o cineasta Jeremiah Kipp já acumula mais de 60 créditos de direção em sua carreira. Ele construiu seu legado comandando filmes de baixíssimo orçamento – incluindo um terror infame estrelado pela brasileira Nana Gouvêa –, sendo ‘The Mortuary Assistant‘ o seu projeto mais ambicioso e de maior alcance. Apesar de contar com uma ótima ambientação e um enredo que facilita a construção de uma atmosfera sinistra, Kipp afunda esta adaptação com uma direção tenebrosa, que parece ter saído de um filme de terror lançado direto em vídeo nos anos 2000.
Os problemas na condução de Kipp são notados desde as primeiras cenas, com suas tentativas falhas de injetar “terror”. Construção de tensão? Nunca se ouviu falar. Aqui, a mentalidade é mostrar tudo em foco e de forma gratuita. Ao invés de colocar a protagonista em primeiro plano, com algo sinistro acontecendo no fundo, o diretor prefere exibir a entidade em toda sua glória.
A direção, no entanto, não é o único problema desta adaptação. Apesar de manter a fidelidade, o roteiro também erra ao incorporar mecânicas do jogo que não se traduzem bem no formato de filme. Com um ritmo acelerado e repetitivo, a trama se desenvolve de forma confusa ao tentar assimilar toda a experiência e mitologia do jogo em um filme de 90 minutos. O enredo ainda falha ao deixar de preencher as lacunas da história original – especialmente em relação à participação expandida do personagem de Paul Sparks.
A única coisa que posso falar de forma positiva sobre esta produção é o uso de efeitos práticos. Algumas cenas no começo do filme impressionam com excelentes efeitos de maquiagem, especialmente quando a protagonista replica alguns dos processos de embalsamento que serão facilmente reconhecidos pelas pessoas familiarizadas com o jogo. Há um cuidado especial para que esta adaptação pareça autêntica – incluindo a ambientação e a caracterização dos personagens –, mas qualquer ponto positivo é rapidamente ofuscado pelas péssimas decisões da direção e do roteiro.
‘The Mortuary Assistant‘ não precisava revolucionar o gênero, mas é tão ruim que transforma até mesmo uma experiência de terror em um necrotério em algo entediante. Há mais valor em assistir uma gameplay do jogo no YouTube do que assistir esta versão sem vida de uma adaptação que desperdiça seu próprio potencial.