os carros históricos do rali em fotos

Thierry Sabine (1949–1986), criador do Paris-Dakar, dizia que seu rali era “um desafio para os que vão, um sonho para os que ficam”. Hoje, 47 anos depois da primeira largada na Place du Trocadéro, a prova jamais esteve tão rápida, segura ou tecnológica — mas muitos sentem falta do romantismo original, quando equipes amadoras, com modelos de produção em série, lançavam-se nas areias do Saara.

Para suprir esse vazio, o Dakar ganhou em 2021 a categoria Classic. Trata-se de um rali de regularidade, no qual vencer não significa ser o mais rápido, mas aquele que consegue seguir com maior precisão os tempos e médias estipulados pela organização. 

Ao reduzir a importância da velocidade máxima, a Classic permite que veículos com mais de 30 ou 40 anos de fabricação enfrentem o deserto em condições seguras. Desde sua estreia, a categoria cresceu rapidamente.

A edição de 2026, disputada entre os dias 3 e 17 de janeiro, na Arábia Saudita, reuniu 97 veículos (75 carros e 22 caminhões), com 214 competidores de 26 países. Eles largaram e chegaram junto ao rali principal, na cidade de Yanbu, porém seguiram trajetos diferentes.

Mas não pense que o Dakar Classic é um desfile de carros antigos. O percurso tem areia fofa, pedras e navegação complexa em 7.348 quilômetros de especiais e deslocamentos (sendo 4.500 km de trechos cronometrados).  Os veículos seguem regras modernas de segurança, com gaiolas homologadas, cintos de seis pontos, extintores e bancos de competição, mas com preparação mecânica rigorosamente controlada.



Dakar Classic (Divulgação – ASO) (43)

Foto de: Divulgação

Variedade dá o tom

Para começar, há um longo rol de modelos elegíveis — carros, utilitários e caminhões que participaram de ralis-maratona no passado. A diversidade vai do Hummer H1 ao Citroën 2CV, passando por buggys-protótipo e caminhões todo-terreno. Uma dica para os brasileiros: o Troller está nessa lista, já que participou dos Paris-Dakar do início dos anos 2000.

Na prática, a maioria dos inscritos vai de utilitários Toyota Land Cruiser ou Mitsubishi Pajero produzidos entre as décadas de 1980 e 1990, pela robustez, facilidade de aquisição e fartura de itens de preparação.

Motores, transmissões e suspensões precisam respeitar especificações compatíveis com a época do modelo. Organizadas por período e nível técnico, classes históricas põem lado a lado vencedores históricos do Dakar e modelos que jamais triunfaram, mas ajudaram a moldar a identidade da prova.

Com o crescimento da categoria nos últimos cinco anos, surgiu um problema: a proliferação de carros antigos com mecânica moderna — algo semelhante ao que se vê na Carrera Panamericana, disputada anualmente nas estradas do México. A prática gerava desempenho artificial, encarecia os custos, diluía o desafio técnico e afastava o Dakar Classic de sua proposta original. Para 2026, a Amaury Sport Organisation (ASO), empresa que promove o Dakar, adotou um regulamento mais estrito.

Motores substituídos precisam pertencer ao mesmo período do veículo. A injeção eletrônica só é aceita se o modelo original já oferecesse esse recurso em sua época. Se nasceu carburado, continua carburado. Isso devolve aos pilotos o desafio de lidar com mecânicas temperamentais dos anos 1970 e 1980 — exatamente como Sabine e os pioneiros faziam. Trocar molas semi-elípticas por helicoidais, por exemplo, só é permitido se houver comprovação de que, na época, um modelo idêntico disputou o antigo Paris-Dakar com essa modificação.

Por fim, a divisão de períodos tornou-se mais rígida:
Período A: pré-1986;
Período B: de 1986 a 1998;
Período C: de 1999 a 2005.

Os pilotos, em sua maioria, também são “clássicos”: cinquentões, sessentões ou mesmo setentões (um deles, o austríaco Peter Brabeck-Letmathe, já passou dos 80) que sempre sonharam em participar de um Dakar. Em muitos casos, fazem dupla com a esposa ou o filho.

Há também equipes 100% femininas, como a formada pelas francesas Sophie Bié e Christine Bernard, de 62 e 61 anos, respectivamente. Outra equipe exclusivamente de mulheres foi formada por um trio de italianas que correu com um Unimog 435, ano 1988.

Alguns amadores recorrem a empresas como a Compagnie Saharienne, que vende um pacote ao estilo “pague e brinque”, incluindo aluguel de um Toyota Land Cruiser já preparado para rali de regularidade, caminhões de assistência, mecânicos, alimentação e despachantes para resolver a parte burocrática.

Há, contudo, muitos veteranos de ralis — alguns com participações nos Paris-Dakar dos anos 1980 e 1990 — que preferem fazer as coisas à moda antiga. 



Dakar Classic (Divulgação – ASO) (28)

Foto de: Divulgação

O triunfo de um Land Rover raiz

Nesse novo contexto, o resultado do Dakar Classic 2026 tem peso simbólico: o grande vencedor foi um Land Rover Series III 109 Station Wagon, ano 1978, pilotado pelo lituano Karolis Raisys e navegado pelo francês Christophe Marques, da equipe Ovoko Racing. O modelo representa a essência do off-road clássico: chassi de longarinas, eixos rígidos, motor V8 a gasolina e resistência quase lendária.

Sem equipe de apoio, os próprios tripulantes fizeram os reparos no Land Rover nº 703 todas as noites. Ao longo das 13 etapas, Raisys e Marques mantiveram-se constantemente próximos dos tempos ideais e longe de problemas mecânicos. O resultado foi uma vitória com apenas 735 segundos de penalização (contra 1.003 do segundo colocado). 

Instrutor da Land Rover nos países bálticos, Raisys competiu no Dakar Classic pela segunda vez este ano. Já o navegador Marques acumula ampla experiência em provas de regularidade.



Toyota 4Runner 1990 – Dakar Classic (Divulgação – ASO)

Foto de: Divulgação

Velhos japoneses mostram seu valor

O pódio foi completado por dois Mitsubishi Pajero 1993–1994. Ícone do Dakar, o todo-terreno japonês mostrou que sua arquitetura ainda é extremamente eficaz em um rali de regularidade. O segundo lugar ficou com o carro nº 710, dos tchecos Ondřej Klymčiw e Josef Broz, enquanto o bronze foi conquistado pelos italianos Josef Unterholzner e Franco Gaioni, no nº 731.

Do quarto ao oitavo lugar, a classificação trouxe mais 4×4 japoneses: um Pajero, três Toyota Land Cruiser e um Nissan Terrano de primeira geração.



902 – Dakar Classic (Divulgação – ASO) (29)

Foto de: Divulgação

O “Touro” volta às dunas

Em nono, o caminhão nº 902 levou uma tripulação polonesa: o piloto Białkowski, o navegador Baskiewicz e o mecânico Grodzki. Eles reativaram uma máquina lendária dos ralis-maratona: o DAF The Bull. Desenvolvido pelo holandês Jan de Rooy para o Paris-Dakar de 1985, tem dois motores de 11,6 litros que, juntos, entregam 750 cv, além de tração nas quatro rodas e velocidade máxima próxima de 200 km/h. Nas transmissões de TV, era comum ver o monstro de 11 toneladas ultrapassando veículos bem menores. O exemplar dos poloneses em 2026 não é uma réplica, mas o verdadeiro DAF 3300 conduzido por De Rooy em 1985, quando terminou como vice-campeão do Paris-Dakar.

Fechando o Top 10 da edição de 2026, aparece o Mercedes G-Klasse nº 708, do jornalista e piloto alemão Jörg Sand. Seu 280 GE branco, com adesivos da Texaco, é uma réplica exata do exemplar com o qual o belga Jacky Ickx sagrou-se campeão geral do Paris-Dakar de 1983.

Falando em lendas, houve ainda um caminhão tcheco Tatra T815. Equipado com motor refrigerado a ar, esse modelo foi campeão na categoria dos pesados nos Paris-Dakar de 1988, 1994, 1995, 1998, 1999 e 2001, com o piloto Karel Loprais.

Com gastos modestos e evocando o espírito dos anos 1980, a dupla francesa Nicolas e Lucien Fantin (pai e filho) correu com um Lada Niva de 1978. Foi uma homenagem aos Niva da equipe Poch que, numa briga de Davi contra Golias, fizeram bonito nos Paris-Dakar de 1981 (3º lugar geral), 1982 e 1983 (2º lugar geral).

Outras participações que chamaram a atenção foram os Porsche 959. No Paris-Dakar de 1986, o modelo conquistou o primeiro e o segundo lugares, com René Metge e Jacky Ickx, respectivamente. Um carro desses participou do Classic 2026 tripulado pelo casal espanhol Juan Morera e Lidia Ruba, vencedores da edição de 2023.

Além desse raríssimo 959 original, com a pintura da equipe oficial Rothmans-Porsche, havia outros carros da marca preparados na Itália pela Robert Sikkens Racing, tendo como base o 964 Carrera 4, de tração integral (1989–1994).

Já a dupla polonesa Staniszewski/Zoll inscreveu um Porsche 924 com grandes modificações na suspensão e no sistema de arrefecimento. Desde 1981, um 924 — que tem tração apenas nas rodas traseiras — não participava da prova.

Mais incomum foi o Renault 18 4×4 dos irmãos franceses Thierry e Laurente Campos. Eles se inspiraram nas “breaks” com as quais os lendários irmãos Claude e Bernard Marreau disputaram as edições do Paris-Dakar de 1983 a 1985.



Um food truck de batatas fritas no Dakar Classic

Foto de: Divulgação

Vai uma batata frita?

O competidor mais pitoresco é o empresário francês Hervé Diers, que já disputou 12 edições do Dakar desde 1985. Dono da Hedimag, uma fábrica de food trucks, ele participa do Classic ao volante de uma picape Toyota Série 70, de 1996, com uma cozinha profissional instalada no lugar da caçamba. Nos bivouacs (acampamentos) ao final de cada etapa, Diers serve batatas fritas aos participantes. Mesmo com o peso extra, terminou em 45º lugar entre os 97 inscritos.

Uma dupla francesa (Abrial e Baronnet) correu com um BMW 325iX. Lançada em 1985, essa versão do Série 3 E30 marcou a estreia da marca alemã no mundo da tração integral. Seu seis-em-linha original rendia 170 cv — já o motor do carro inscrito no Dakar Classic foi preparado para render 240 cv.

Mas exótica mesmo foi uma van Mitsubishi Delica L300 4×4, ano 1990, do piloto francês Henry Favre e do navegador italiano Alessandro Iacovelli. Apaixonado por todo tipo de encrenca motorizada, Favre comprou os escombros da L300 e, ao longo de um ano, a transformou em um veículo capaz de enfrentar o Dakar.

Com o lema “não somos rápidos, mas somos corajosos”, a dupla terminou em último lugar entre as 91 equipes que completaram todas as etapas do rali — o mais importante, porém, é que a L300 cruzou a linha de chegada funcionando. Do alto de uma nuvem sobre o deserto, Thierry Sabine deve ter gostado.

Autor

  • Redação Uberlândia no Foco

    O Uberlândia no Foco é um portal de notícias localizado na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, que tem como objetivo informar a população sobre os acontecimentos importantes da região do Triângulo Mineiro e do país. Fundado por Rafael Patrici Nazar e Sabrina Justino Fernandes, o portal busca ser referência para aqueles que buscam informações precisas e atualizadas sobre a cidade e a região. Nosso objetivo é cobrir uma ampla gama de assuntos, incluindo política, economia, saúde, educação, cultura, entre outros. Além disso, visamos abordar também, questões relevantes a nível nacional, garantindo assim que seus leitores estejam sempre informados sobre os acontecimentos mais importantes do país. Nossa equipe é altamente capacitada e dedicada a fornecer informações precisas e confiáveis aos seus leitores. Eles trabalham incansavelmente para garantir que as notícias sejam atualizadas e verificadas antes de serem publicadas no portal. Buscamos oferecer aos leitores uma plataforma interativa, na qual possam compartilhar suas opiniões e participar de debates sobre os assuntos mais importantes da cidade e da região. Isso torna o portal uma plataforma democrática, onde todas as vozes podem ser ouvidas e valorizadas. Não deixe de nos seguir para ficar por dentro das últimas atualizações e notícias relevantes. Juntos, temos uma grande caminhada pela frente.

0 Votes: 0 Upvotes, 0 Downvotes (0 Points)

Leave a reply

Segue a gente
  • Facebook38.5K
  • Youtube300.5k
  • Instagram128.9K
  • Whatsapp2.k
  • Telegram100k
Oferta do mês
    Loading Next Post...
    Seguir
    Sign In/Sign Up Sidebar Search
    COLUNISTAS
    Loading

    Signing-in 3 seconds...

    Signing-up 3 seconds...