
“Nós também já fomos colônias. Então, o Brasil quer que Burkina Faso e outros países da África se emancipem completamente e possam ser soberanos, terem a sua autonomia como a gente tem. E é nesse sentido que a gente atua aqui”, afirma Ellen Barros, embaixadora brasileira em Burkina Faso há cinco anos.
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, a diplomata aborda a situação geopolítica complexa do Sahel, incluindo a expansão do terrorismo e a ruptura com a França levada a cabo por Níger, Mali e Burkina Faso após levantes militares e civis nos últimos anos.
Barros ressalta a iniciativa do governo burkinabé em romper acordos assinados com a França após a independência de 1960. “Eles dizem muito que a independência formal foi 1960 e que agora que tá acontecendo a independência real de fato. E eu noto isso porque como você explica que em 2025 a população local esteja ainda lidando com níveis tão baixos de analfabetismo, de o estado não ser capaz de garantir educação e saúde. Como é que você explica isso num país que tem uma riqueza natural tão grande?”, completa.
Na conversa, Barros destaca a realidade de Burkina Faso atualmente. Desde 30 de setembro de 2022, o país é liderado pelo presidente Ibrahim Traoré. O jovem capitão chegou ao poder em um contexto de insegurança e descrédito na atuação de militares franceses no enfrentamento ao terrorismo fundamentalista de milícias islâmicas no Sahel. Com 34 anos, Traoré liderou um levante que depôs o líder militar Paul-Henri Damiba e emergiu como esperança de soberania real ao país.
“Houve dois golpes de Estado, justamente porque o governo civil que estava aqui eleito não estava conseguindo debelar o terrorismo com a ajuda da França. E aí isso tudo acabou sendo canalizado por um sentimento anti-francês muito grande que fez praticamente com que eles rompem praticamente da noite para o dia com todos aqueles acordos, aquele modo de vida que tinha, que era muito próximo à França”, analisa Barros.
A embaixada brasileira no país africano foi aberta em 2009 durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A visita do repórter do BdF, Pedro Stropasolas, segundo a diplomata, foi a primeira de um jornalista brasileiro na sede da embaixada em Uagadugu, a capital de Burkina Faso.
Durante a entrevista, a embaixadora focou principalmente na cooperação Sul-Sul entre Brasil e Burkina Faso, destacando projetos em áreas como educação e, sobretudo, na cooperação técnica agrícola. Barros enfatiza também a necessidade de maior envolvimento e investimento brasileiro na África, citando a falta de rotas aéreas direta entre o Brasil e os países africanos.
“A África é muito importante pra gente, do ponto de vista histórico, cultural. É aquilo que o presidente fala: ‘O Brasil é a África, a África é o Brasil’. Estando aqui há 5 anos, eu constato isso no dia a dia. É tanta coisa que eu vejo aqui que é do Brasil também, eu me sinto em casa. E eles quando vão para lá também voltam dizendo a mesma coisa, se impressionam com a aproximação que a gente tem”, reflete Barros.
“A gente quer a cooperação Sul-Sul. É uma cooperação horizontal, onde há um intercâmbio de conhecimento, de saberes”, completa a embaixadora.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – A gente já pode iniciar um pouco com a história desta embaixada aqui que estamos em Uagadugu e qual a relação hoje entre o Brasil e Burkina Faso?
Ellen Barros – Tenho 47 anos de ministério e Burkina Faso é um dos países mais maravilhosos e ricos culturalmente que eu já servi. O povo é de uma hospitalidade imensa. A embaixada foi aberta aqui logo depois da visita do presidente Lula, quando ele esteve aqui no segundo mandato dele. A embaixada começou a ser aberta em 2008, no mesmo período que Burkina Faso também abriu sua embaixada em Brasília, que é a única embaixada deles em toda a América Latina.
A gente tem tentado fazer um trabalho de ampliar o relacionamento, expandir, aprofundar. Na área educacional, Burkina Faso foi incluído no Programa de Estudantes-Convênio, pelo qual o Brasil oferece vagas nas universidades brasileiras a estudantes de determinados países.
Burkina Faso mandou, pela primeira vez, cinco estudantes universitários no ano passado. Esse ano mandou sete e a gente agora tá preparando a próxima edição. É um tipo de cooperação a longo prazo. Porque você começa realmente a formar pessoas que vão conhecer o Brasil e que vão retornar, trazer o que eles aprenderam para cá. E isso tudo a longo prazo você vai reforçando o relacionamento. Esse ano o PECG, que é chamado Programa Estudante de Convênio Graduação, incluiu também estudantes de pós-graduação, oferecendo mestrado e doutorado.
Hoje em dia, você tem a área de cooperação técnica, que é um dos carros-chefes também da embaixada. Na época que o Brasil e os países produtores de algodão ganharam um contencioso na Organização Mundial do Comércio (OMC), há uns 15 anos, houve recursos que foram aplicados para a cooperação. O Brasil então começou a participar para a melhoria genética do algodão. Isso foi revertido em função de um grupo de países. E essa cooperação foi o chamado projeto Cotton 4. Eram quatro países inicialmente, Burkina Faso era um deles, durou quase 12 anos e, ao final desse período, veio a pandemia. Houve uma pausa.
Uns três anos atrás a gente retomou a cooperação técnica. Hoje em dia existe um outro projeto no algodão que tem a ver com você criar um banco de sementes de algodão para todos os países dessa região. Eles vão poder trocar para que eles possam ter uma cultura mais resiliente, mais resistente a pragas e sobretudo reforçar a qualidade do algodão deles. Eles são grandes produtores de algodão bio, livre de agrotóxicos. E o algodão é o segundo maior produto do Burkina Faso. Era o primeiro. Até no começo dos anos 2010 ser descoberto ouro. E hoje em dia o ouro é o grande carro chefe da economia. Em segundo lugar, vem o algodão.
É essa parte da cooperação técnica que é muito concentrada justamente na agricultura por conta de Burkina Faso ser um país agrário. Burkina tem cerca de 22 milhões de habitantes. O tamanho do país é como se fosse o Tocantins no Brasil. E o clima dessa região, que é o semiárido, é muito parecido com o nosso Cerrado, com o Agreste do Brasil. São muitas similaridades. Por isso, muito das coisas que o Brasil desenvolveu de tecnologia para para a agricultura pode ser aplicado aqui, transplantado, adaptado, utilizado e exportado de volta para o Brasil em novas formas de tecnologia.
Essa é a grande importância da cooperação Sul- Sul, que é o que o Brasil procura aplicar na sua cooperação. É uma abordagem diferente da cooperação Norte-Sul, que é o tipo de cooperação que os países mais desenvolvidos costumam seguir, que eles vêm com pacotes prontos, fechados, de como fazer. O Brasil não. A gente quer a cooperação Sul-Sul. É uma cooperação horizontal, onde há um intercâmbio de conhecimento, de saberes. Você pergunta o que a pessoa quer, e a pessoa, o interlocutor vai procurar ver se aquilo se aplica à sua realidade ou não, como é que ele pode adaptar isso. E se a gente participar dessa cooperação, a gente vai aprender coisas também, que a gente pode trazer de volta para o Brasil.
O segundo grande projeto nessa área da agricultura é a manga. Eles também são grandes produtores de manga, uma manga maravilhosa. E rivaliza com a nossa manga rosa. Eles têm um problema de uma doença chamada seca da manga, que no Brasil a gente conseguiu resolver. Mês que vem tem uma missão da Agência Brasileira de Cooperação que está vindo aqui para continuar esse relacionamento, para ver como eles vão debelar essa praga, fazendo formação de agricultores. É um projeto muito bonito.

Essas parcerias ligadas ao desenvolvimento da agricultura em Burkina Faso são mais um impulso desse atual governo, de Ibrahim Traoré?
Eu atribuo a existência da embaixada aqui à prioridade que o Brasil deu ao relacionamento com a África. Sempre existiu, mas o impulso para que a embaixada realmente abrisse se deu durante o primeiro e segundo mandato do governo Lula. Após aqueles anos iniciais de muita empolgação e abertura da embaixada, houve um arrefecimento em função das várias turbulências políticas e econômicas que o Brasil passou. Então, a gente não pôde, embora a embaixada continuasse aberta, intensificar a cooperação por limitação da nossa parte, eu acho.
Eu acho que o interesse sempre existiu, mas você não tinha como realmente impulsionar essa cooperação. O que eu noto é que, há dois anos, desde que começou este terceiro mandato do governo Lula, voltou a ter densidade o relacionamento. Uma coisa muito importante que aconteceu, por exemplo, há cerca de dois meses [maio] foi a segunda reunião dos ministros da agricultura da África no Brasil. Sabe quando é que foi a primeira reunião? 2010.
Estamos em 2025 e aconteceu a segunda reunião. E por que isso é importante? Porque foi uma consequência do programa da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que foi lançada na presidência do Brasil durante o G20, como consequência da importância da questão da segurança alimentar. Burkina Faso mandou o seu vice-ministro da Agricultura. Ato contínuo, ele vai visitar o Instituto Daniel Franco, em Minas Gerais.
E o Instituto Daniel Franco manda uma missão aqui chefiada pelo próprio presidente do instituto, Daniel Franco, para verificar in loco quais são as condições de você prestar apoio na melhora do gado. Burkina Faso é um dos grandes fornecedores de pecuária aqui para essa região, para os países da região. E como é que você pode melhorar geneticamente esse gado? O Brasil pode ajudar com isso, porque, por exemplo, o tipo de gado que está aqui não é o melhor gado para essa área, é um gado europeu.
A gente que tem um gado que vive com as mesmas condições climáticas, geográficas e que é um um gado forte, resiliente. A produção de leite, por exemplo, aqui as vacas leiteiras não produzem sequer dois litros de leite. É muito pouco. Então você pode melhorar isso, mas como é que você melhora? Não basta só trazer o gado para cá e vender, que é uma coisa até fácil de fazer e que muitos países fariam, né? Não. A gente quer preparar as condições para que, quando esse gado venha, eles possam também saber que tipo de alimento dar para esse gado, como é que vai poder ter cruzamento com as espécies que eles têm aqui. E isso tudo é com troca, com supervisão.
Veterinários brasileiros vão vir para cá e eles vão para lá também visitar. Então toda essa parte de tecnologia é importantíssima na hora de da cooperação Sul-Sul, porque você não quer só vender, não é interessante pra gente. É você vender, mas trazendo algo a mais em termos de transferência de tecnologia, para que eles também possam ir adiante, ter autonomia com relação ao que eles vão construir aqui, né? Assim, você pode realmente ter uma relação que eles chamam de gagnant gagnant (ganhando, ganhando), bom para as duas partes.
A gente tem observado, nos últimos anos, um movimento dos países do Sahel de ruptura com a França, principalmente em termos de cooperação militar. Como você vê essa relação do povo burkinabé com a França. Na sua opinião, por que houve esses movimentos de ruptura?
Eu acho que uma coisa que tem que ser abordada é o problema do terrorismo no Sahel. É um problema sério. O país está em guerra. A gente sente isso no dia a dia. Você não vai a nenhum lugar aqui onde não há policiamento ostensivo, qualquer lugar que você vá, todo mundo é monitorado, porque já aconteceu no passado dois grandes atentados em Uagadugu, em 2016 e em 2018. Então, hoje em dia, as áreas urbanas são bem seguras. Eu sou do Rio de Janeiro, eu me sinto mais segura aqui do que no Rio em termos de segurança urbana, por exemplo. O terrorismo está na área rural. Esse é um país agrário. Você tem 22 milhões de habitantes, cerca de 2 milhões em Uagadugu e não chega a 1 milhão na segunda maior cidade, que é Bobo-Dioulasso, no sudoeste do país. Então você tem aí 18 milhões de pessoas espalhadas pelo país.
O país é ocupado, tem cerca de 60 etnias, algumas delas são mais agrárias, de fazerem plantações. E tem as etnias nômades, que são populações ancestrais, que estão aqui e caminham com seu gado, com seus rebanhos. É toda uma economia de pequena escala, onde não há grandes latifúndios. A hora que o terrorismo ataca essas populações mais afastadas dos grandes centros urbanos é uma tristeza. Acaba provocando a ruptura de toda a cadeia alimentar de sobrevivência, de comércio, abastecimento.
Tem algumas populações que são isoladas, que você não consegue chegar até elas. O governo encaminha comboios protegidos pelo Exército, pelos militares, para poder chegar a essas populações. É um esforço de guerra que a população de Burkina Faso vive. Então, a gente não pode abstrair a importância disso. E, infelizmente, isso está aqui em Burkina Faso, no Mali, que é o vizinho no Noroeste, e o Níger, no Nordeste.
O Níger, Burkina Faso e o Mali são o coração do Sahel. É uma área que está atraindo a presença de vários outros países, continua um interesse muito grande. E o que que aconteceu aqui foi que quando eles se tornaram independentes na década de 1960, os franceses ainda continuaram tendo uma relação privilegiada com eles por meio de vários mecanismos, inclusive ilegais, como acordos. Há vários estudos sobre a origem desses grupos terroristas. Alguns dizem, por exemplo, que muito das armas e do descontentamento foi trazido quando a Líbia foi invadida pela França e por vários países capitaneados pela França, que depôs o Gaddafi, um líder regional aqui. Você tem avenidas com o nome do Gaddafi aqui, por exemplo.
Muitos daqueles militares, das milícias, dos grupos que lutavam ali naquela área toda da Líbia, desceram e acabaram vindo para essa área toda do Sahel, se juntando com grupos locais.
Cada um desses países são guerras diferentes. Aqui, por exemplo, Burkina Faso tem uma maioria religiosa muçulmana, cerca de 60%. E você tem as outras religiões, as tradicionais, a católica, a evangélica. Você não tem uma maioria realmente muçulmana que eu acho que possa justificar uma presença de grupos terroristas ortodoxos, fundamentalistas.
Eu acho que o Burkina Faso tem uma tradição de muita tolerância religiosa, étnica, cultural, de línguas. E na hora que você entra atacando as populações, expulsando gente dos vilarejos, as pessoas acabam se deslocando para os grandes centros urbanos. Isso tudo vai corroendo o tecido social. Então eles têm um desafio muito grande.
E o que que aconteceu em 2022? Houve dois golpes de Estado, justamente porque o governo civil que estava aqui eleito não estava conseguindo debelar o terrorismo com a ajuda da França. E aí isso tudo acabou sendo canalizado por um sentimento anti-francês muito grande que fez praticamente com que eles rompessem, praticamente da noite para o dia, com todos aqueles acordos, aquele modo de vida que tinha, que era muito próximo à França. Inclusive a cooperação militar. Quando a França saiu, houve um vácuo em que outros países se aproveitaram rapidamente.
Nesses cinco anos que eu estou aqui, pude ver novos países que abriram as embaixadas. Países que já existiam aqui, mas aumentaram muito a presença, como a Rússia, a Turquia e a China. Então, é um xadrez geopolítico que vai se movimentando muito. E o Brasil, por todas as razões, a gente não tem nenhuma ambição geopolítica nem nada, mas a África é muito importante para a gente, do ponto de vista histórico, cultural. É aquilo que o presidente fala: “O Brasil é a África, a África é o Brasil”. Estando aqui há 5 anos, eu constato isso no dia a dia. É tanta coisa que eu vejo aqui que é do Brasil também, eu me sinto em casa. E quando eles vão para lá também, voltam dizendo a mesma coisa, se impressionam com a aproximação que a gente tem.
Nós também já fomos colônias. O Brasil quer que Burkina Faso e outros países da África se emancipem completamente e possam ser soberanos, terem a sua autonomia como a gente tem. E é nesse sentido que a gente atua aqui.

Elen, o discurso de Traoré e outros líderes dos países Sahel em relação a essa quebra de acordos colônias evidencia justamente uma busca de soberania. A gente vê muito no governo, por exemplo, uma demonstração de que o país tem muitas riquezas minerais, o que não justifica historicamente os altos níveis de pobreza e de fome observado na região. Você percebe essa relação entre os acordos coloniais e a atual situação de pobreza nesses países?
Sim, eu acho que sim. Aqui, eles dizem muito que a independência formal foi 1960 e que agora que tá acontecendo a independência real de fato. E eu noto isso porque como você explica que em 2025 a população local esteja ainda lidando com níveis tão baixos de analfabetismo, de o estado não ser capaz de garantir educação e saúde. Como é que você explica isso num país que tem uma riqueza natural tão grande, né? E tem uma população tão trabalhadora.
Me lembra muito do Brasil, sabe? As pessoas aqui trabalham, têm uma ética do trabalho impressionante. Então, não é por falta de vontade, é por falta de acesso a condições. Então, eu acho que o que eles querem hoje em dia é autonomia plena. Eles não controlam nem a própria moeda.
A moeda que é utilizada em toda a África Ocidental é o franco CFA, franco da ex-comunidade francesa. O franco CFA tem um banco central na França que controla a flutuação, eles têm que deixar reservas, então eles não controlam nem a própria política monetária. Como é que você pode ser um país soberano se você não controla nem a sua própria política monetária? E por que eles não controlam? Porque foram as condições em que a independência de toda essa região se deu.
Na hora que você dá independência, mas ainda mantém alguns laços preferenciais, você acaba limitando o movimento que você pode fazer aqui dentro. Eu acho que o que eles estão tentando realmente fazer agora é lutar para eles terem controle sobre a vida do país, as riquezas do país. Eu ouço isso de todo mundo, não é só do governo. É um país eminentemente jovem. Você tem 75% da população com menos de 35 anos. 75%. O atual presidente, o capitão Traoré, tem 37. Quando ele tomou o poder, ele tinha 34. Então, você tem 50% da população com menos de 15 anos. Olha a quantidade de pessoas que precisam ter acesso à educação, à saúde para poderem construir o país.
Eu acho que uma das razões da alta popularidade do atual presidente é justamente porque ele representa uma ruptura geracional. Ele é o primeiro presidente que não se formou, não estudou, não teve um relacionamento preferencial com a França. E ele encarna muito dos ideais sankaristas, de Thomas Sankara, que foi um dos grandes líderes do pan-africanismo.
Ele pensou Burkina Faso quando tomou o poder em 83. Foi um governo que não durou muito, ele foi assassinado em 87, mas ele deixou muita coisa. Thomas Sankara já pensava no meio ambiente, na emancipação das mulheres, na educação, na casa própria, que as pessoas tivessem acesso à terra, que a terra não fosse controlada por poucos. Questões fundamentais que eles tentaram abordar na década de 80. Aí, Sankara foi assassinado, entrou um presidente que ficou 27 anos no poder (Blaise Compaoré), extremamente autoritário, ditatorial, com o respaldo da França. Esse presidente foi deposto pelas revoltas populares de 2014, onde a população foi à rua para dar um basta nisso.
E aí veio a primeira eleição de um presidente civil no país em décadas. Em 2015, foi eleito Roch Marc Christian Kaboré. E assim que ele foi eleito, começaram os ataques terroristas. Dizem alguns estudos que esse ditador que ficou 27 anos no poder, o Compaoré, ele tinha um certo modus operandi para manter os terroristas fora do país através de pagamentos. E na hora que houve essa ruptura, as revoltas de 2014, onde o primeiro presidente eleito disse que não iria negociar, que não se dobraria a esse tipo de exigência, os grupos terroristas que até então estavam no Mali desceram para cá. Então, isso já tem 10 anos. É uma realidade dura, porque o terrorismo envolve colocar uma quantidade grande de recursos. São recursos que você não está direcionando para outras áreas essenciais, como a educação e a saúde.
Então, nesse ponto, eu acho que o Brasil pode ajudar muito, porque a segurança alimentar para uma população tão jovem e tão ativa é importante. Eu espero que a partir dessa aliança global contra a fome e a pobreza, essa reunião dos ministros da agricultura africanos que teve no Brasil, com tudo isso, a gente possa contribuir de alguma forma para que eles possam encontrar a solução para esse que é um dos problemas mais graves que eu vejo aqui.
Existe algo que você queira complementar para a nossa entrevista?
Eu acho que é uma pena, por exemplo, que não se tenha companhias aéreas brasileiras que voem para cá. Isso acho que dificulta muito a aproximação do Brasil com os países africanos. Você vai ter uma ou outra companhia aérea africana que voa pro Brasil, mas voa de acordo com as prioridades deles. Você tem companhias angolanas, sul-africanas, etíope, de Marrocos, você tem algumas companhias africanas que vão pro Brasil, mas é um absurdo que o Brasil não tenha companhias aéreas que voem para cá. É porque não tem mercado?. Claro que tem mercado. É um continente com todo um potencial e com toda uma força e história cultural. Nós somos o que somos por causa dos países africanos. Então, como é que você vai dizer que não tem o mercado? Eu acho que é falta de visão.
Eu me lembro que havia a Varig que voava para cá, havia voos. Então, eu espero que isso possa ser feito. Como a gente vai começar a exportar para o Burkina Faso? Então, a gente precisa abrir mercados, sobretudo agora com essas dificuldades todas que a gente tá tendo em relação aos Estados Unidos, você tem que exportar. A África é um grande mercado, que eles também podem exportar pro Brasil, mas você tem que ter meios, rotas, não só aéreas, mas conexões marítimas. Então, eu acho que tudo isso é uma coisa que é uma falta de visãodo empresariado brasileiro de não olhar pra África, para entender o todo o potencial que essa região tem. E eu vejo que os outros países todos entendem isso, vem e estão se fazendo presentes aqui. Então, a gente não pode ficar de fora.
Na área cultural, esse é um dos países mais ricos culturalmente que eu já conheci na minha vida. Tem tanto potencial de artistas brasileiros que podem vir para cá, artistas, artesãos e vice-versa. O ano passado eles mandaram uma delegação imensa para a Feira Preta em São Paulo para participar. Levaram coisas do artesanato, do tecido tradicional daqui pro Brasil, para as pessoas conhecerem. Então, tem potencial no relacionamento. E eu espero que os brasileiros tenham essa curiosidade de saber de onde é que a gente veio, de onde é que a gente vem, e o que que a gente tem aqui. Eu gostaria muito que as pessoas no Brasil tivessem mais curiosidade e menos medo de vir para cá. É um continente maravilhoso. Burkina Fá é um país maravilhoso. Vale a pena conhecer.