Entre o socialismo e a extrema direita, Portugal decide futuro político em eleição marcada por crise climática

Portugal está de volta às urnas neste domingo (8) em uma disputa inédita nas últimas quatro décadas. Pela primeira vez desde 1986, a eleição presidencial será decidida em segundo turno, colocando frente a frente o socialista (centro) António José Seguro e o líder da extrema direita, André Ventura.

A votação ocorre em meio a um cenário excepcional: uma sequência de fortes tempestades de inverno que atingiu diversas regiões do país provocou ao menos 14 mortes e mais de 10 mil ocorrências relacionadas ao mau tempo nas últimas semanas. A situação forçou o adiamento da votação em diversas freguesias entre as mais afetadas. Em Portugal, existem 22 círculos eleitorais no total (18 no continente, dois nas regiões autónomas e dois na emigração). O adiamento aconteceu em freguesias específicas de oito municípios (como Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos e Pombal), onde as tempestades tornaram impossível o acesso às urnas.

Com mais de 11 milhões de eleitores aptos a votar, o pleito acontece três semanas após o primeiro turno, realizado em 18 de janeiro. Na ocasião, Seguro liderou com cerca de 31% dos votos válidos, enquanto Ventura avançou para a segunda rodada com 23,49%. O próximo presidente tomará posse no início de março e sucederá Marcelo Rebelo de Sousa, político de centro-direita que ocupa o cargo há uma década.

Pesquisas apontam favoritismo socialista

Levantamentos divulgados nas últimas semanas indicam vantagem para António José Seguro. Pesquisa do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (Cesop), da Universidade Católica Portuguesa, atribui 70% das intenções de voto ao candidato do Partido Socialista, contra 30% de Ventura, do Chega.

Apesar da diferença numérica, analistas observam que a ascensão da ultradireita no país, fenômeno que acompanha tendências em outras partes da Europa, transformou a disputa em um marco político, com repercussões para o sistema institucional português e para o equilíbrio entre os poderes.

Como funciona o poder no país

Portugal adota o modelo semipresidencialista, no qual o Poder Executivo é compartilhado entre o presidente da República e o primeiro-ministro. Cabe ao presidente garantir a ordem constitucional, intervir em momentos de crise e, se necessário, dissolver o Parlamento para convocar eleições legislativas antecipadas.

Já o primeiro-ministro concentra a condução cotidiana do governo: forma a equipe ministerial, apresenta projetos ao Legislativo, negocia com autoridades locais e toma decisões estratégicas, como o envio de tropas ou a participação em missões internacionais.

Dois projetos em confronto

António José Seguro, político e professor universitário, construiu carreira no interior do Partido Socialista. Já foi deputado, eurodeputado, secretário de Estado e ministro-adjunto, além de ter presidido a legenda por vários anos. Formado em relações internacionais e mestre em ciência política, apresenta-se como defensor da moderação política, da estabilidade institucional e do papel do presidente como guardião da democracia instaurada após a Revolução dos Cravos, em 1974.

Já André Ventura é jurista e fundador do partido Chega, criado em 2019. Ex-deputado e professor universitário, ganhou projeção nacional como comentarista de futebol e de assuntos judiciais na televisão. Sua candidatura é marcada por um discurso antissistema, ataques aos partidos tradicionais e propostas de ruptura com o modelo político vigente, posicionando-se como representante da insatisfação popular com as elites.

As urnas foram abertas às 08h02 no horário local (05h02 no horário de Brasília).

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