
Cada R$ 1 de aumento no salário mínimo causa impacto de R$ 420 milhões para a Previdência, mostra o estudo “Fronteiras”, conduzido por José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos. Em 2024, as despesas previdenciárias somaram R$ 964,3 bilhões, com previsão de atingir R$ 1,077 trilhão em 2025, um crescimento de 12%. Para Alfaix, desvincular os benefícios previdenciários da Política de Valorização do Salário-Mínimo é um caminho necessário.
– Quando se oferecem reajustes reais às aposentadorias, não estamos apenas preservando o poder de compra — o que é legítimo —, mas remunerando aposentados por ganhos de produtividade. Isso não faz sentido econômico, e tampouco encontra respaldo nos modelos previdenciários dos demais países que adotam regime de repartição simples – diz o economista.
O ex-presidente do Banco Central, Arminio Fraga, em entrevistada concedida à Cassia Almeida, publicada nesta quinta-feira, foi além. Ele sugeriu a interrupção por seis anos do aumento real do salário mínimo como estratégia para reduzir o déficit fiscal em um ponto do PIB. Alfaix afirma que o Brasil, de fato, não tem, hoje, os fundamentos para sustentar uma trajetória de crescimento com ganhos de produtividade.
– Ganhos reais de renda deveriam vir do aumento da produtividade — não de indexações automáticas. Enquanto isso não acontecer, os reajustes reais do mínimo continuarão sendo uma imposição constitucional descolada da realidade econômica. E voltamos ao ponto central: não há saída fora da produtividade.
O economista da Rio Bravo, afirma, no entanto, caminhos complementares. Incentivar a poupança privada e a educação financeira é um deles.
– É preciso desmistificar a ideia de que investir é privilégio de quem tem grandes quantias, e ao mesmo tempo deixar claro que o sistema de repartição não garantirá um padrão digno de renda no futuro. Mas mesmo essa virada cultural depende, em última instância, de uma transformação mais profunda da economia: hoje, a renda das famílias, a arrecadação e os investimentos privados seguem excessivamente dependentes dos ciclos de gasto do governo.
– O Brasil não está fadado a ser um país envelhecido e mais pobre. Mas também não há espaço para ilusão. As soluções existem — são difíceis, muitas impopulares — e o tempo para implementá-las está acabando. A trajetória das despesas previdenciárias é insustentável, e inevitavelmente será corrigida. A dúvida é se faremos isso por decisão antecipada, ou por ter que enfrentar o colapso. Com mais senso de urgência e menos tabu ideológico, talvez o país finalmente leve esse debate a sério.