EUA lideram investimentos externos diretos no Brasil

Investir ou não investir no Brasil, eis a questão para os americanos. Os números de IED, em que os EUA têm o maior estoque de investimento estrangeiro direto no Brasil, jogam a favor; já a política da área para a América Latina do governo de Donald Trump, nem tanto.

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— Atualmente, os EUA respondem por cerca de um terço do estoque de investimentos estrangeiros no Brasil e são o maior investidor externo, superando US$ 300 bilhões [R$1,7 trilhão] no ano de 2024 — diz Fabrizio Panzini, diretor de Políticas Públicas e Relações Governamentais da Amcham Brasil, entidade multissetorial do país e a maior Câmara Americana de Comércio fora dos EUA.

Apesar desse estoque, a China continua sendo nosso maior parceiro comercial.

A voz dissonante veio num jantar em Nova York do Grupo Esfera, think tank e polo empreendedor brasileiro, no começo de maio, em que o enviado especial para América Latina do governo americano, Mauricio Claver-Carone, ao falar dos problemas do Brasil para atrair investimentos dos EUA, mostrou obstáculos.

— O país tem um enorme potencial, mas precisa enfrentar seus três Cs: câmbio, corrupção e crime. Não é uma crítica vazia, é um chamado para o país destravar seu potencial — disse o advogado, que também foi diretor dos EUA no Fundo Monetário Internacional (FMI) e presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Para Antonio Corrêa de Lacerda, economista e professor do Programa de Pós-graduação em Economia Política da PUC-SP, “a fala reflete desconhecimento da realidade brasileira e uma visão preconceituosa”. Segundo ele, a política cambial brasileira, de câmbio flutuante, está up to date com as melhores práticas internacionais e é atualmente competitiva para quem deseja instalar ou produzir no país.

— O Brasil está entre os dez maiores mercados mundiais, por PIB, população, e tem tradição na absorção de IED. Temos nos posicionado há pelo menos duas décadas dentre os dez maiores absorvedores dessa modalidade, que é considerada a mais “nobre” — afirma.

O país é o segundo com maior IED em 2024, só atrás dos EUA, e atraiu investimento estrangeiro direto global de US$ 70 bilhões (R$ 396,4 bilhões), segundo o Banco Central.

A questão do crime e da corrupção, Lacerda considera que relatórios como o da Transparência Internacional, que ranqueiam os países considerados mais corruptos, se baseiam em dados de um Brasil que é democrático, transparente, com uma imprensa livre e que acaba noticiando mais o assunto, criando a impressão de que aqui o problema é maior do que em outros países com controle de mídia.

— Mas isso não tem impedido que as maiores empresas do mundo continuem investindo aqui — diz o economista, que acrescenta que nas últimas décadas poucas empresas americanas saíram do país. O Brasil ocupa o 36º lugar no ranking da Transparência.

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Em confiabilidade, o Brasil está à frente de países como China, Índia e México, em 21º lugar, segundo pesquisa 2025 da Kearney.

O relatório de 2023 do Bureau of Economic Analysis (BEA), agência do Departamento de Comércio dos EUA, mostrou que em 2022 o Brasil estava em 16º lugar no ranking de investimentos americanos no mundo. A chegada do dinheiro de IED de lá por aqui tem um contorno de prazo mais longo de maturação, olhando a demanda de anos adiante, principalmente em setores como energia e infraestrutura, segundo especialistas.

Parte considerável desse investimento, que é diversificado, tem como destino o setor financeiro e de seguros (quase 20%, segundo a Amcham), seguido da área de manufaturas, principalmente químico, alimentos e bebidas, máquinas e automotivo. Uma característica é a qualidade do IED vindo dos EUA, focado na indústria e serviços de alta complexidade, desde a citada automobilística e de eletroeletrônicos, passando por vários segmentos de bens de consumo durável e de capitais. Na última década, segundo o Banco Central brasileiro, os Estados Unidos foram o segundo maior país destino de lucros e dividendos, com US$ 54,2 bilhões (R$ 305,99 bilhões), atrás somente dos Países Baixos, com US$ 56,4 bilhões (R$ 318,4 bilhões).

O perfil do investidor norte-americano nos últimos anos, via análise da Amcham, teve uma leve alteração, sendo o setor de tecnologia, especificamente data centers, responsável por cerca de um quarto do valor na última década, seguido por fabricação de veículos, armazenagem e tr
ansporte, máquinas e equipamentos e setor elétrico. Existem perspectivas positivas em áreas como minerais críticos e energias renováveis. No cômputo geral, o fluxo de IED global diminuiu 8% em 2024, segundo dados da Agência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) — já o volume de IED para o Brasil sofreu uma queda de 5%, portanto menor que a média global, totalizando US$ 61 bilhões, baseada em 11 meses.

Economistas consultados pelo VALOR sugerem separar a caótica política de Trump das sólidas relações diplomáticas e comerciais entre Brasil e EUA, que em 2024 comemoraram 200 anos.

— Estive em abril em Washington nas reuniões do FMI e eventos paralelos e havia uma grande divisão entre os investidores americanos: os que achavam que a guerra tarifária teria grandes consequências e os com uma visão um pouco mais benigna — afirma Marcelo Toledo, economista-chefe da Bradesco Asset. — O que me surpreendeu foi uma postura de esperar para ver, pausar, mais do que já terem decisões formadas.

Toledo aponta que pelo lado dos investidores financeiros americanos, os problemas seriam dois: o Brasil não ter grau de investimento e o seu crescimento baixo:

— Temos projeções para 2025 de 2%, enquanto a Índia, mesmo com uma lista gigantesca de problemas de toda sorte, vai crescer entre 6,5% a 7% — conclui.

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  • Redação Uberlândia no Foco

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