
Ao começar a escrever sobre as mulheres brasileiras na Suíça, meu impulso inicial era mostrar o quanto é desafiador para imigrantes, migrantes e expatriadas viver em um país que, no imaginário mundial, funciona como as engrenagens perfeitas de um relógio. Na vida cotidiana, porém, a realidade é mais complexa. Conversei com muitas mulheres, ouvi histórias de vida, consultei estatísticas oficiais e pesquisei o que pude sobre a presença feminina brasileira neste país.
Pensei em apresentar números: quantas somos, em que setores trabalhamos — sobretudo no de serviços —, as dificuldades de adaptação às diferenças culturais, jurídicas, familiares, alimentares, educacionais, ao mercado de trabalho, ao acesso a creches, moradia, saúde e direitos sociais. Mas, no meio desse caminho, fui lembrando de todas as mulheres que encontrei pelos países onde vivi e trabalhei.
No México, onde morei por quase seis anos, testemunhei a luta diária de tantas mexicanas. Vi suas dificuldades no mercado de trabalho, na educação, e a violência de gênero que atravessa o cotidiano de um país tão belo quanto desafiador. Conheci mulheres que são pura arte em sobreviver — não apenas Frida Kahlo ou Dolores Olmedo, mas Marys, Yolandas, Teresas, Ellens, Verónicas, Ana Lílias, Yalitzas e tantas outras que aprendem desde cedo que o ardor do chile poblano não “pica” tanto quanto a vida. Mulheres que sabem que a Mãe Terra, a Pachamama, pode tremer a qualquer momento, e que, quando isso acontece, a solidariedade é a única forma possível de permanecer de pé.
Também no México encontrei mulheres nas caravanas de migrantes vindas de Honduras, El Salvador e Guatemala. Muitas carregavam seus bebês nos braços ou caminhavam ao lado de suas filhas. O que as movia era o sonho de dias sem violência, mesmo que, para alcançá-los, precisassem enfrentar a brutalidade de milhares de quilômetros de estrada. Havia coragem e luta, mas faltava o brilho nos olhos — apagado pela dureza do caminho.
Na Europa conheci sírias que fugiram da guerra em busca de paz. Enfrentaram mares e terrenos que, muitas vezes, lhes roubaram familiares nos naufrágios de barcos precários que partiam da Turquia e da Grécia. No novo país, tiveram de aprender a língua, os costumes, lidar com a xenofobia, a desconfiança e as diferenças culturais. Mas também encontraram mãos amigas — de mulheres e homens que compreendem que o mundo não precisa de muros e cercas, e que é possível conviver em harmonia neste planeta.
Ao escrever este artigo, lembrei das jornalistas palestinas cujos depoimentos ouvi no ano passado. A força dessas mulheres é impactante. Mesmo sob ataques — que ainda não cessaram — seguem protegendo suas famílias e exercendo seu trabalho com um profissionalismo admirável, narrando o genocídio que se desenrola diante de seus olhos e lembrando ao mundo que guerras nunca terminam bem, e que mulheres e crianças são sempre as mais atingidas nesses conflitos insanos.
Percebi, então, que ao escrever sobre as brasileiras na Suíça, eu estava, na verdade, escrevendo sobre todas nós. Nossas lutas são universais. A luta diária das Geisas, Neides, Marshas, Sharas, Isis, Denises, Rosangelas, Irenes, Solanges, Kátias, Karunas, Anas, Lauras, Adrianas, Sandras, Fatimas, Veras — de A a Z — é real e constante. Em todos os continentes, queremos apenas o direito de viver e existir. Queremos respeito como seres humanos, queremos que nossos direitos sociais, trabalhistas e de liberdade de ir e vir sejam realidade. Queremos seguir vivas — e que aquelas que não puderam permanecer entre nós, porque lhes tiraram cruelmente o direito de existir, tenham justiça.
Queremos empregos dignos, oportunidades de crescimento e condições de trabalho que nos permitam mostrar quem somos e nossa capacidade profissional. Queremos tempo livre, cultura, diversão e felicidade. Simples assim.
Por isso, não nos deem flores e parabéns no 8 de março. Deem-nos condições para sonhar — e realizar nossos sonhos — seja na Suíça, no Quênia, no México, na Espanha, no Brasil, na Palestina, na Malásia, na Índia, na Austrália ou em qualquer lugar deste planeta.
*Mônica Cabanas é jornalista
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.