
Feirantes do Distrito Federal se mobilizam contra o Projeto de Lei nº1604/25, que tramita na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) como uma possível ameaça de privatização das feiras públicas da capital. A proposta, de autoria do Governo do Distrito Federal (GDF), altera a Lei nº 6.956/2021, que normatiza a regularização, organização e funcionamento das feiras e pode dificultar a permanência dos trabalhadores, além de aumentar burocracias e custos para quem atua no setor.
Diante da crescente preocupação, feirantes têm pressionado o governo e os parlamentares para retirar o projeto da pauta. O deputado distrital Ricardo Vale (PT-DF) destaca que a proposta abre caminho para a privatização das feiras e pode prejudicar milhares de trabalhadores.
“Temos como compromisso garantir que os direitos dos feirantes sejam preservados. Na minha opinião, a possibilidade de privatização dos espaços das feiras e as incertezas quanto aos direitos de preferência dos atuais feirantes nas futuras licitações de boxes, levantam preocupações sobre a continuidade do sustento das famílias que dependem do trabalho nas feiras e a preservação da tradição cultural associada a esses espaços.”, afirma Vale.
O parlamentar reforçou ainda a necessidade de diálogo e transparência no processo legislativo. “Sugerimos que o governo retire esse PL o mais rápido possível, para que os feirantes possam continuar trabalhando com tranquilidade”, completa.
De acordo com o deputado, será criada uma Frente Parlamentar em Defesa dos Feirantes para apoiar na negociação entre os trabalhadores e o GDF. As frentes parlamentares são organizações suprapartidárias, de no mínimo oito Deputados Distritais, que atuam em defesa de uma causa.
O presidente do Sindicato dos Feirantes do DF, Francisco Valdenir Machado Elias, que atua no ramo há 52 anos, criticou duramente a proposta e afirmou que os trabalhadores não foram consultados antes da tramitação do projeto. “Isso foi um jabuti que colocaram na CLDF. Nunca fomos chamados para dialogar. O governo está impondo sua vontade sem considerar a realidade dos feirantes”, diz.
Elias ressalta que a categoria teme um cenário de despejo e precarização das condições de trabalho. “Se houver um processo de licitação e alguém oferecer R$ 100 mil pelo box, mas o feirante não tiver esse dinheiro, ele perde o espaço e vai para a rua. Isso não faz sentido. Estamos falando de pessoas que trabalham nas feiras há décadas e agora vivem essa insegurança.”
Atualmente, de acordo com o sindicato, o DF possui 106 feiras registradas e cerca de 30 mil feirantes ativos. Elias argumenta que a legislação atual já oferece um caminho viável para a regularização desses trabalhadores, sem a necessidade de uma nova proposta.
“A Lei de 2021 já contempla nossa categoria, mas nunca foi regulamentada. O governo, ao invés de impor uma nova lei, deveria regulamentar a existente. O feirante precisa de um termo qualificado e um cadastramento adequado, não de mais incertezas”, defendeu o sindicalista.
A Lei nº 6.956/2021 estabelece as diretrizes gerais para a gestão das feiras, incluindo definições sobre permissões de uso, responsabilidades dos feirantes e do poder público, além de normas para manutenção e funcionamento desses espaços.
Já o PL nº1604/2025, na prática, propõe modificações que introduzem o direito de preferência em licitações para os trabalhadores que já ocupam boxes nas feiras, durante processos de licitação para uso desses espaços. Para exercer esse direito, os feirantes devem atender a critérios específicos, como comprovar a ocupação regular do box por meio de documentação oficial e limitar a solicitação de preferência a até quatro boxes adjacentes. Além disso, não é permitido que o direito de preferência seja solicitado em conjunto com terceiros que não sejam ocupantes.
Em nota, a Secretaria Executiva das Cidades informou que o projeto enviado à CLDF trata, exclusivamente, do direito de permanência, que tem como objetivo assegurar ao atual ocupante a possibilidade de ter o direito de preferência em caso de licitação.
Diz ainda que, após a aprovação do PL pela Câmara Legislativa, será publicado um decreto regulamentando a Lei nº 6.956/2021. A pasta esclarece que a elaboração da proposta que trata do direito de permanência foi construída com a participação do sindicato das feiras e de representantes dos feirantes
Por fim, a Secretaria destacou que as feiras permanentes do Distrito Federal são mobiliários urbanos pertencentes ao bem público do Governo do Distrito Federal. Nesse sentido, não há que se falar em privatização.
A categoria promete intensificar as mobilizações caso o PL não seja retirado de pauta. “Na segunda-feira (7), estaremos na Câmara Legislativa para falar com o presidente da Casa para saber como está o andamento do projeto. Se o governo não sinalizar a retirada do projeto, iremos para as ruas e para a porta do Palácio do Buriti, provavelmente na quarta-feira (9), será o Dia D. Essa é apenas a primeira batalha, mas a guerra está vindo, e vamos lutar com todas as forças pelos nossos direitos”, avisou Elias.