
Pouco mais de um ano após a regulamentação total do mercado de apostas, números oficiais indicam um abismo entre o faturamento das empresas e o quanto elas contribuem com financiamento público para lidar com seus efeitos. Entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, o governo federal arrecadou quase R$ 5 bilhões com a tributação das bets. Desse total, cerca de R$ 57 milhões foram destinados ao Fundo Nacional de Saúde (FNS) para ações de “prevenção, controle e mitigação de danos” associados às apostas.
A cifra corresponde a 1,15% da arrecadação obtida no período. O percentual contrasta com estimativas do dossiê A saúde dos brasileiros em jogo, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), que calculou em R$ 38,8 bilhões o custo social anual das apostas no Brasil. Desse total, R$ 30,6 bilhões correspondem a impactos ligados à saúde, em despesas com tratamentos, perda de qualidade de vida e mortes.
Na prática, a conta que chega ao sistema público é 537 vezes maior que o valor repassado para enfrentá-la.
Os dados sobre arrecadação e destinação dos tributos foram obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Fiquem Sabendo. As planilhas enviadas pelo Ministério da Fazenda mostram que a maior parte dos recursos foi absorvida por outras rubricas do orçamento federal. Os chamados “recursos livres” da União receberam R$ 1,05 bilhão. Na sequência aparecem os ministérios do Turismo, com R$ 883 milhões, e do Esporte, com R$ 875 milhões. A saúde, por sua vez, ficou com uma parcela residual.
O contraste ganha ainda mais peso quando se observa a escala alcançada pelo setor. Em 2025, o mercado regulado de apostas de quota fixa registrou R$ 36,9 bilhões em receita bruta, segundo dados da própria Fazenda, movimentados por mais de 25,2 milhões de CPFs únicos. Considerado esse universo, o repasse à saúde equivale a menos de R$ 2,30 por apostador em um país que ainda tenta estruturar sua rede pública para atender casos de transtorno do jogo.
Enquanto poucas empresas lucram, o prejuízo é coletivo. No Brasil, 78 operadoras exploram a atividade por trás de 133 marcas de bets. Os impactos associados a esse mercado, incluindo a atuação ilegal, se concentram em eventos extremos e de longa permanência. Segundo o Ieps, R$ 17 bilhões estão ligados a mortes adicionais por suicídio e R$ 10,4 bilhões à perda de qualidade de vida decorrente da depressão. Outros R$ 3 bilhões estão associados a tratamentos médicos para depressão.
A cifra, porém, não encerra o problema. “Os dados foram estimados em cima do que é possível mensurar. E isso é muito importante, porque o número a que a gente chegou é conservador, bem conservador. O custo individual das famílias que perdem dinheiro nas apostas, por exemplo, não entrou no cálculo”, explica ao Brasil de Fato Marcella Semente, uma das autoras do estudo e a responsável pelas relações institucionais do Ieps.
Segundo a pesquisadora, a equipe adaptou ao caso brasileiro uma metodologia já empregada no Reino Unido, país que já dispõe de uma estrutura consolidada para registrar, de forma sistemática, os impactos do transtorno do jogo no sistema de saúde. “Até o ano passado, o ministério sequer tinha criado uma linha de cuidado para transtorno do jogo no SUS. Então a gente não conseguia identificar quanto dos atendimentos e tratamentos estava ligado a isso. Era preciso alertar para os danos, mesmo antes de o país ter essa infraestrutura de informação organizada”, assegura.
Ainda sem uma estrutura consolidada para monitorar o problema, o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a incorporar o transtorno do jogo como demanda recente, pressionando uma rede já sobrecarregada.
A resposta institucional começou a ganhar forma apenas no último ano. Em março de 2026, o Ministério da Saúde passou a oferecer teleatendimento em saúde mental voltado a pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas, com investimento de R$ 2,5 milhões. O acesso também pode ocorrer pelas Unidades Básicas de Saúde e pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), responsáveis pelos casos mais graves.
A chamada Linha de Cuidado para transtorno do jogo começou a ser implementada em dezembro de 2025, com diretrizes clínicas já publicadas. Entre as ações previstas estão a qualificação de profissionais, com curso em parceria com a Fiocruz Brasília, que deve abrir 20 mil vagas, além de oficinas regionais e uma pesquisa nacional sobre jogos e apostas, com investimento de R$ 6 milhões. Um observatório específico sobre apostas e saúde mental está em desenvolvimento e deve ser lançado no segundo semestre de 2026.
Na prática, porém, o avanço da política pública ainda corre atrás de um problema já instalado. Na avaliação da economista Ione Amorim, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o modelo atual opera de forma reativa. “O dinheiro chega como reparação de dano, não como prevenção. Quando a gente atua só depois que o problema está posto, é enxugar gelo”, afirma.
Amorim chama atenção para o caráter prolongado desse tipo de adoecimento. Segundo ela, o tratamento de pessoas com dependência em jogos pode se estender por meses ou anos dentro da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), frequentemente com necessidade de acompanhamento contínuo e uso de medicação. “A gente está falando de um problema que não é pontual. Ele pode se tornar crônico. E o SUS não pode ser financiado por migalhas para lidar com isso”, diz.
O número de brasileiros que buscaram ajuda nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) por dependência em jogos saltou de 413, em 2021, para 1.265, em 2024, crescimento de 206%. No acumulado entre 2018 e maio de 2025, o SUS registrou 10.553 atendimentos relacionados a jogo patológico e mania de jogo. Mais da metade deles, 6.237, ocorreu na Atenção Primária, sinal de que o problema já ultrapassou os serviços especializados e começa a se espalhar pela porta de entrada do sistema.
A tendência, segundo projeções do próprio Ministério da Saúde, é de agravamento. A pasta estima que a pressão sobre a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) deve crescer 104% até 2028, num cenário em que o poder público ainda tenta estruturar as ferramentas mínimas para lidar com a nova demanda.
Apesar dos números crescentes, um estudo divulgado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), em maio de 2025, alertou que a demanda real pode estar subestimada por vergonha ou falta de diagnóstico precoce.
Mais do que ampliar atendimento, a pesquisadora Ione Amorim defende que a política pública incorpore estratégias controle sobre a oferta de jogos, tratando as bets como um tema de saúde pública. “Enquanto o foco estiver só na arrecadação e na ideia de jogo responsável, sem enfrentar publicidade, acesso e mecanismos de indução, a gente não vai conseguir reduzir o dano”, avalia.
Os efeitos das apostas não se distribuem de forma homogênea na população. Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) indicam que o transtorno do jogo já atinge cerca de 1,4 milhão de brasileiros, com maior incidência entre grupos socialmente mais vulneráveis.
Entre os apostadores, 64,1% se autodeclaram pretos ou pardos, o que evidencia como o avanço do setor se cruza com desigualdades raciais históricas. Do ponto de vista da remuneração, pessoas que recebem até um salário mínimo são grupo mais exposto à promessa de ganhos rápidos.
O ambiente digital amplia esse risco. Usuários de plataformas online de apostas têm quatro vezes mais chances de desenvolver transtorno do jogo do que aqueles que apostam em outras modalidades, segundo o levantamento. A combinação entre acesso permanente, estímulos contínuos e ausência de barreiras efetivas transforma o celular em porta de entrada para um consumo intensivo.
“A gente tem hoje uma concorrência pelo foco das pessoas, e os jogos entram com o atrativo do ganho. Em vez de estar ali passando o tempo, a pessoa está girando para ganhar”, afirma Amorim.
Segundo ela, as bets se aproveitam de fragilidades já existentes na vida cotidiana. “Você pega uma realidade de falta de dinheiro e transforma o jogo em promessa de renda. A pessoa deixa de ver aquilo como entretenimento e passa a tratar como solução financeira”, diz.
As consequências podem ser extremas. Estudos apontam que o risco de suicídio entre pessoas com transtorno do jogo é até 15 vezes maior do que na população geral. Ainda assim, o problema permanece em grande parte invisível, atravessando dinâmicas familiares, endividamento e perda de vínculos sociais.
Essa vulnerabilidade também aparece nas disputas em torno de políticas públicas. A tentativa do governo de restringir o uso de recursos do Bolsa Família em apostas, por exemplo, enfrenta questionamentos judiciais. A Advocacia-Geral da União argumenta que, por se tratar de dinheiro fungível, o bloqueio integral seria a única forma de proteger a renda das famílias.
Enquanto isso, no mundo dos negócios, as bets se organizam para barrar o avanço de medidas mais duras de regulação. Em 2025, o governo federal tentou elevar a tributação das bets de 12% para 18% por meio de medida provisória. A proposta foi derrubada pelo Congresso.
A derrota do governo foi resultado de pressão direta de setores interessados na manutenção de uma carga tributária mais baixa. A articulação contou com a atuação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e do Instituto Pensar Agro (IPA), que defenderam a preservação da “competitividade” das operadoras. Parlamentares do centrão e da direita apresentaram emendas nesse sentido e, em alguns casos, chegaram a propor a redução da alíquota para 3%.
Nos bastidores, o embate expôs também o lugar secundário ocupado pela saúde na formulação da política para o setor. Levantamento da Fiquem Sabendo mostrou que o Ministério da Saúde participou de apenas dois de 209 encontros entre representantes do Executivo e agentes privados durante a construção das regras para as apostas. A maior parte das reuniões envolveu escritórios de advocacia, associações do setor e empresas diretamente interessadas na regulamentação.
Enquanto isso, no Congresso, o governo promete continuar o combate. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou projeto que propõe elevar a tributação, grativamente, para 24% e destinar os recursos exclusivamente para a saúde mental. Para o líder do governo na Câmara, Pedro Uczai (PT-SC), há ambiente político para avançar com medidas mais rígidas. “É possível aprovar. Hoje tem ambiente”, afirmou ao Brasil de Fato.
Uczai defende que o país enfrente o tema para além da arrecadação. “As bets estão produzindo consequências profundas para as famílias brasileiras, retirando renda e ampliando o endividamento. Isso prejudica a economia popular e gera custo direto para o SUS”, disse.
Segundo ele, parte da base governista já discute inclusive a possibilidade de proibir a atividade no país. “A sociedade precisa enfrentar esse debate. Se prejudica as famílias e vicia, por que manter?”, questiona.
Na avaliação do deputado, o governo acredita contar com apoio de campos políticos e religiosos que, em outros momentos, poderiam parecer distantes desse debate. “O mundo evangélico vai nos apoiar, e são de direita, na maior parte deles. Vão apoiar porque estão perdendo inclusive dízimo”, disse.
Do outro lado, representantes do setor argumentam que o aumento da carga tributária pode ter efeito contrário ao desejado. Associações como a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) defendem que a tributação total já se aproxima de 36% quando somados diferentes encargos, o que reduziria a competitividade das plataformas legais. Na avaliação dessas entidades, o endurecimento fiscal poderia empurrar usuários para o mercado ilegal, que estimam movimentar cerca de R$ 7 bilhões por mês.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, realizada no Senado entre o fim de 2024 e meados de 2025, terminou sem força política para transformar seu diagnóstico em medidas concretas. O relatório final da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) foi rejeitado, e a comissão encerrou os trabalhos sem aprovar formalmente suas propostas.
No relatório, as bets aparecem menos como motor de atividade econômica e mais como vetor de drenagem de renda das famílias. Mesmo quando há retorno em forma de prêmio, a CPI observou que esse dinheiro tende a permanecer no próprio ecossistema das apostas, sem circular de forma relevante em outros setores da economia.
Na apresentação do parecer, Soraya resumiu essa conclusão ao afirmar que a expansão das bets reduziu o consumo das famílias e favoreceu poucos operadores, enquanto “empregos da economia real foram destruídos”.
Os próprios dados oficiais sobre emprego formal reforçam essa leitura. Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), o setor reunia 1.144 empregos formais no país, com média de apenas 19 trabalhadores por empresa. Trata-se de uma estrutura enxuta, altamente digitalizada e com baixa capacidade de absorção de mão de obra, muito distante da narrativa de dinamização do mercado de trabalho usada para defender a expansão das bets.
Na parte fiscal, o quadro tampouco é de ganho líquido incontestável. Em depoimento à CPI, a Receita Federal afirmou que, com a regulamentação e o acesso aos dados das operadoras, passou a estimar perdas de arrecadação acumuladas desde 2018. No relatório, consta a informação de que, entre 2019 e 2023, essa perda pode ter superado R$ 3 bilhões.
O único benefício econômico reconhecido de forma mais nítida no texto é limitado e condicional: a aposta de quota fixa em eventos esportivos reais poderia contribuir para financiar o esporte e ampliar a arrecadação, desde que submetida a regulação rigorosa.
Para a economista Ione Amorim, o desafio passa por mudar o enquadramento do problema. “A gente não pode tratar as bets como um mercado financeiro comum. É uma atividade que causa dano à estrutura da sociedade e à saúde da população. E precisa ser regulada como tal”, afirma.
A responsabilização de influenciadores digitais passou a ocupar lugar central no debate regulatório à medida que o governo reconheceu o papel dessas figuras na expansão das apostas, sobretudo entre públicos mais jovens e mais vulneráveis à promessa de ganho fácil.
Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas mostram que, entre outubro de 2024 e dezembro de 2025, foram abertos 412 processos de fiscalização contra influenciadores, com 324 perfis removidos e 25 mil conteúdos irregulares bloqueados.
A ofensiva ocorre em um cenário de publicidade massiva, espalhada por redes sociais, aplicativos e transmissões esportivas, muitas vezes com linguagem informal, estética lúdica e apelos que aproximam o jogo da ideia de renda extra ou entretenimento cotidiano.
Para a economista Ione Amorim, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), esses agentes cumprem hoje para as bets uma função parecida com a dos correspondentes bancários no mercado de crédito: “Influenciadores digitais são hoje para as bets o que os correspondentes bancários são para o crédito. Um utiliza crédito responsável, o outro utiliza jogo responsável. E, no meio desses dois, ninguém responde pela vulnerabilidade do usuário”, afirmou ao Brasil de Fato.
Essa engrenagem publicitária também ajuda a explicar a exposição precoce de crianças e adolescentes a um mercado do qual, em tese, deveriam estar excluídos. Como o conteúdo circula no mesmo ambiente digital frequentado por esse público, a barreira legal da idade não impede que meninos e meninas sejam alcançados por campanhas, vídeos curtos e postagens patrocinadas que naturalizam as apostas e embaralham as fronteiras entre jogo, diversão e promessa de ganho.
Na avaliação de Marcella Semente, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), a regulação da publicidade ainda é “muito incipiente”, sobretudo porque o apostador, antes de chegar ao mercado legal ou ilegal, quase sempre foi exposto a alguma forma de propaganda.
Na leitura de Ione Amorim, o problema não está apenas na publicidade em si, mas no conflito de interesse de um modelo em que quem lucra com a aposta também molda a mensagem sobre seus riscos. O resultado é a normalização de uma atividade desenhada para capturar atenção, induzir consumo e empurrar ao indivíduo a responsabilidade por perdas que são estruturais.