
Na segunda semana da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, o país persa nomeou Mujtaba Khomeini, filho do ex-líder supremo assassinado Ali Khamenei, como novo aiatolá. Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o professor e pesquisador de Relações Internacionais Ricardo Leães avalia que, “além de ser filho de Ali Khamenei, ele é uma pessoa muito próxima das guardas revolucionárias iranianas”.
A decisão representa um desafio direto a Israel, que havia declarado que o novo líder supremo seria assassinado da mesma forma que seu antecessor. “Quando o Irã escolhe um novo líder supremo e anuncia isso para todo mundo, ele está desafiando Israel, dizendo: ‘Vocês disseram que vão assassinar o nosso próximo líder, mas nós temos confiança de que temos condições de protegê-lo’”, explica o pesquisador.
Diferentemente de Ali Khamenei, um homem idoso, com mais de 80 anos, que “talvez tenha optado pelo martírio”, Mujtaba Khomeini tem uma relação orgânica com as guardas revolucionárias e representa a continuidade da resistência. “Tudo indica que teremos mais uma consolidação dessa visão de que o Irã precisa resistir aos ataques de Estados Unidos e Israel.”
Leães destaca que o Irã construiu bunkers altamente protegidos, com concretos especializados, onde abriga seu programa nuclear e instalações militares subterrâneas. “Provavelmente o Mujtaba agora está muito bem protegido em alguma dessas instalações. Não sabemos onde, nem quais são as viabilidades de um possível ataque.”
No final de semana, Trump declarou que Cuba é a “próxima ofensiva estadunidense”. Para Leães, a declaração não é surpreendente à luz da Estratégia Nacional de Segurança divulgada pela administração Trump em novembro de 2025.
“Eu me dei o trabalho de ler esse documento, e nele fica muito claro que a prioridade estratégica dos Estados Unidos seria o hemisfério ocidental, uma maneira indireta de se referir à América Latina”, revela. “Há uma visão de que os Estados Unidos exageraram nos seus compromissos externos e que agora o foco deveria voltar à América Latina.”
O pesquisador alerta para o risco iminente à soberania cubana. “Não vejo condições do governo cubano ter efetivamente recursos para se defender, e infelizmente não imagino que países como Rússia ou China tenham interesse e disposição de se contrapor aos Estados Unidos.”
Um dos pontos mais sensíveis da conjuntura atual é a possibilidade de os Estados Unidos classificarem organizações criminosas brasileiras como “grupos terroristas” — o que, na prática, abriria precedente para uma intervenção militar unilateral.
Leães explica o mecanismo: após os ataques de 11 de setembro de 2001, foi aprovada nos EUA a lei conhecida como Patriot Act, que permite ao executivo federal lançar guerras sem passar pelo Congresso em casos de ataque por grupos terroristas. “Quando eles dizem que grupos de narcotraficantes são terroristas, eles estão se dando o direito de atacar os países onde esses grupos atuam. Qualquer presidente dos Estados Unidos poderia atacar o Brasil sem recorrer ao Congresso.”
O pesquisador menciona a declaração do candidato da oposição, Flávio Bolsonaro, que em evento na avenida Paulista defendeu que “Trump deveria atacar o Rio de Janeiro”, região onde atuam milícias e organizações criminosas. “Isso obviamente vai ser tema da sua campanha”, alerta.
Trump anunciou ainda a criação do “Escudo das Américas”, um grupo de combate ao crime organizado articulado com governos de direita e extrema direita na região. O Paraguai já autorizou bases militares dos EUA próximas à tríplice fronteira, uma região estratégica e sensível.
“A Estratégia Nacional de Segurança de Trump fala abertamente em se valer desses governos para levar adiante a agenda dos Estados Unidos”, alerta Leães. “O que a gente vê é uma tentativa de cercar qualquer governo que minimamente ofereça resistência à hegemonia estadunidense.”
Para o pesquisador, o Brasil precisa urgentemente “iniciar uma modernização militar e, sobretudo, uma mudança doutrinária e ideológica das nossas Forças Armadas”. “Infelizmente, com os generais que nós temos, que têm uma visão muito pró-ocidental, não estamos prontos para encarar os desafios que estão diante de nós. Os grandes treinamentos e mobilizações militares são feitas em conjunto com os Estados Unidos.”
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