
Enquanto Donald Trump anunciava no domingo que a guerra contra o Irã estava “praticamente concluída”, nesta terça-feira (10) os Estados Unidos preparam o que classificam como o mais intenso ataque desde o início do conflito, mirando instalações iranianas de fabricação de mísseis. A oscilação no discurso do presidente estadunidense, para o professor de Relações Internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser, revela muito mais do que uma estratégia de comunicação: expõe a dificuldade de Washington em alcançar seus objetivos diante da resistência iraniana.
O professor destaca no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, que o Irã tem conseguido realizar ataques significativos contra Israel e as monarquias do Golfo, atingindo bases militares, refinarias e afetando o preço do petróleo. “Por outro lado, o Irã está sendo duramente atingido. Não tenha dúvida nenhuma”, pondera. “Anteontem houve um ataque aos terminais petrolíferos de Teerã que fez com que alguns acusassem o uso de guerra química. O Irã está presenciando uma chuva ácida, dia no Irã parecia noite. Estão atacando o sistema de energia elétrica, destruindo hospitais.”
Nasser reconhece que o sistema de defesa iraniano não tem conseguido debelar todos os ataques. “A situação militar do Irã é difícil. Agora, politicamente, continua muito sólido, muito unido, com várias mobilizações populares. Está longe a possibilidade de mudança de regime ou guerra civil.”
Um dos principais aspectos do conflito, segundo o analista, é a assimetria econômica dos armamentos utilizados. “Um drone suicida do Irã custa entre 25 e 30 mil dólares. Um antimíssil, 1 milhão e meio de dólares. Em termos militares, a disputa é o tempo.”
Os sistemas de defesa de Israel e das monarquias do Golfo continuam eficientes — entre 90% e 92% de interceptação. “Só que esses 8% ou 10% que passam atingem consideravelmente. O Irã tem apostado nisso, em lançamentos em quantidade para distrair o sistema de defesa.”
Nasser também comenta os riscos de uma escalada envolvendo plantas de dessalinização de água nos países do Golfo, que dependem desse sistema para abastecer suas populações. “Se o Irã fizer isso, vai atingir a população. E aí passa um ponto bastante grave: provocar uma catástrofe humanitária.”
Para ele, esse é um limite que o Irã provavelmente não ultrapassará. “É do jogo fazer esse tipo de ameaça, mas acho que ele não chegaria nesse ponto. Se fosse Israel ou os Estados Unidos, eu não duvido — se eles fazem genocídio, não custa nada fazer isso com a população de outro país. O Irã preza a diferenciação entre os governos, as elites desses países e o povo árabe, o povo muçulmano.”
Os ataques iranianos expuseram a vulnerabilidade das bases estadunidenses e de seus aliados na região. Nasser lembra que, há cerca de dois ou três anos, um míssil lançado pelos houthis caiu numa refinaria da Arábia Saudita, e o governo Biden ouviu protestos de Riad sobre sua exposição. “Imagina agora”, provoca.
O analista é enfático ao projetar o futuro: “Eu não acredito que Israel nem os Estados Unidos vão deixar de atacar em outro momento, mesmo que interrompam agora. Isso não tem fim. Vai retornar outras vezes, como Israel já faz com os palestinos e o Líbano.”
Sobre as notícias de que os curdos estariam sendo novamente articulados por Israel e Estados Unidos para enfrentar o governo iraniano, Nasser é cauteloso. Ele lembra a diversidade dos grupos curdos na região — Turquia, Síria, Iraque e Irã — e destaca que a população curda no Irã é pequena e nunca foi politicamente relevante.
“Eu não duvido que estejam alimentando algum grupo ali. Mas não acredito que seja maioria entre os curdos, nem que tenha poder para tanto. É mais uma medida para causar turbulência, distrair, esgotar o Irã”, avalia.
O professor alerta para os riscos mais amplos de uma aventura desse tipo: “Quem vai entrar no jogo é a Turquia. Qualquer coisa dos curdos, a Turquia entra, como já fez na Síria. Isso desencadearia um problema com o governo iraquiano também, que é aliado dos Estados Unidos.”
Nasser comenta ainda as denúncias de que Israel estaria usando agrotóxicos para destruir plantações na Síria, próximo à fronteira. “Isso é característica de Israel, faz isso direto com os palestinos na produção de azeitona. É um horror”, afirma.
Para ele, a expansão territorial é um projeto de Estado israelense, não apenas de Netanyahu. “O opositor dele, Lapid, já citou o Antigo Testamento para dizer que toda a região até a Mesopotâmia é de Israel. Isso é real, é concreto. A Síria está no plano.”
Nasser sintetiza o momento com uma análise que equilibra a resistência política e a destruição material. “Mesmo que politicamente o Irã saia vencedor — e eu não desconsidero essa hipótese —, ele vai sair economicamente destruído. As sanções criminosas dos Estados Unidos já atingiam a economia, e esses ataques vão atingir mais ainda. Vai ser uma situação muito difícil para o povo.”
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