
Apesar da turbulência causada pelo tarifaço do presidente Donald Trump, a perspectiva dos grandes investidores internacionais em relação ao Brasil não foi especialmente abalada. Pelo contrário, a possibilidade de ganho com a crescente política isolacionista dos Estados Unidos pode ser o empurrão que faltava para quem ainda precisava incluir o país no seu portfólio. Esta é a opinião de Mark Gross, ex-CEO do Banco American Express em São Paulo e ex-country manager do Standard Chartered Bank no Brasil e atualmente diretor-executivo da boutique de investimentos Bentley Associates, em Nova York, onde atende grandes investidores institucionais como fundos de pensão e companhias de seguro.
— Não é possível ser um investidor global e não estar no Brasil — observou Gross, acrescentando que o país sempre foi um componente chave do portfólio de seus clientes, que apreciam os retornos das commodities brasileiras, como soja, proteína animal, milho, óleo e gás.
Para o tipo de cliente de Gross, o pulo do gato está no fato de os EUA e o Brasil serem concorrentes no mercado de commodities e na oportunidade criada para os brasileiros com o atual estica e puxa tarifário entre americanos e chineses. Um exemplo é a soja.
Só no ano passado, enquanto Joe Biden ainda era presidente dos EUA, 73% dos 98,8 milhões de toneladas de soja produzida em terras brasileiras foram para a China, num valor total de US$ 31,5 bilhões (R$ 195,7 bilhões).
No atual cenário em que os chineses vão procurar alternativas para evitar negociar com os EUA, o Brasil está bem-posicionado para lucrar com a sobra.
— Em termos de qualidade, os produtos do Brasil e dos EUA são de alta qualidade virtualmente iguais. Então, em uma situação de reciprocidade de tarifas, e a China está impondo uma tarifa de 30% sobre a soja americana, a soja brasileira fica subitamente 30% mais barata — explicou.
Jorge Amato, chefe de Estratégia de Investimentos América Latina do Citibank compartilhou opinião parecida durante o “Summit Valor Econômico Brazil-USA”, na semana passada. Para o executivo, não só o para o Brasil como para todos os países da América Latina, o impacto das tarifas será um pouco menor do que no resto do mundo, dada a configuração de tipos de economia, produtos e serviço que a região produz. O desafio estará em “como navegar esta nova economia bifurcada entre EUA e China”, na qual os latinos têm que convencer os americanos de sua preferência ou ao menos neutralidade política.