
Meio século após produzir seu último carro zero-quilômetro, a marca britânica Jensen está de volta e anuncia, para breve, uma nova geração de seu modelo mais famoso: o Interceptor.
Essa ressurreição se dará por obra e graça da Jensen International Automotive (JIA), empresa que passou os últimos 15 anos desenvolvendo belos restomods a partir dos Interceptor originais, fabricados entre 1966 e 1976.
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Em 2026, a JIA passará de restauradora a fabricante de nicho: construirá um sucessor espiritual do Jensen, projetado do zero para ocupar um segmento cada vez mais raro no mercado — o de um grand tourer puro e sem eletrificação.
Não será um restomod, nem um “continuation car” (modelo icônico que volta a ser produzido mantendo suas características originais). O novo Interceptor terá engenharia inédita e carroceria contemporânea.
— Queremos elevar o conceito do GT britânico de luxo a um novo nível, com abordagem totalmente contemporânea — afirma David Duerden, diretor-executivo da JIA.
A filosofia que norteia o projeto, contudo, é a da experiência analógica. Em vez de motores elétricos, interfaces digitais gigantescas e sistemas avançados de assistência ao condutor, a fabricante aposta em conexão mecânica e no envolvimento direto entre motorista e máquina. Botões reais, sensações físicas nos comandos e respostas diretas fazem parte dessa promessa.
Com a Jaguar anunciando sua transição completa para a produção de BEVs ultraluxuosos e a Aston Martin adotando uma estratégia gradual de eletrificação, abre-se uma lacuna para entusiastas que ainda associam um GT a longas viagens, ao som (não sintetizado) de um motor V8 e a emoções reais ao volante. A JIA quer justamente ocupar esse espaço.
O nacional Brasinca 4200 GT (1964)
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Atualmente, a JIA restaura e vende carros que chama de Interceptor R. Esse “R” vem de “Re-born” ou “Re-engineered”, já que velhos exemplares originais são totalmente desmontados, têm a estrutura recuperada e renascem com motores GM V8 atuais, tanto os LS3 aspirados quanto os LT4 com compressor mecânico, com potência de até 650 cv.
Agora, a empresa deixará de atuar apenas como restauradora de elite para assumir o papel de fabricante de nicho. O Interceptor modelo 2026 será feito sobre um chassi de alumínio totalmente novo, desenvolvido para combinar rigidez torcional com redução significativa de peso.
A carroceria também vai por esse caminho. Por enquanto, a JIA mostrou apenas uma prévia que deixa entrever a lateral do carro em um ambiente pouco iluminado. Pode-se notar que a silhueta tem contornos que remetem ao Interceptor lançado em 1966, com suas proporções clássicas — capô longo, traseira fastback e o característico vidro traseiro envolvente.
Um Jensen FF restomod preparado pela JIA
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A diferença está na execução: linhas mais limpas, postura mais agressiva e soluções aerodinâmicas compatíveis com um GT do século XXI, sem perder o vínculo visual com o passado.
Aqui vale um aparte: no Brasil, o Jensen Interceptor original é mais conhecido como o carro que teria copiado o desenho do Brasinca 4200 GT, ou STV Uirapuru, um esportivo nacional de pequena produção projetado por Rigoberto Soler e lançado no Salão de São Paulo de 1964 — ou seja, dois anos antes do modelo britânico. Compare as fotos e dê sua opinião…
Os restomods da JIA recebem V8 atuais da GM, como este LT4 Supercharger
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O novo modelo será produzido artesanalmente em Banbury, distante 90 km de West Bromwich, onde ficava a sede da antiga Jensen Motors Limited. O volume será deliberadamente baixo, descrito pela própria empresa como “ultra-limitado”, posicionando o carro como um objeto de desejo para colecionadores.
A parte mecânica ainda é um mistério. A JIA diz apenas que o novo Interceptor será movido por um V8 “sob medida” (bespoke), sem revelar origem ou especificações finais. Há rumores de uma colaboração com preparadoras de elite, como a Cosworth, ou do desenvolvimento de um V8 amplamente retrabalhado a partir de um bloco norte-americano. Os Jensen produzidos entre 1966 e 1976 usavam motores V8 da Chrysler.
Pode-se esperar potência acima de 600 cv, fiel à tradição da Jensen de unir músculo americano e elegância britânica. Também é muito provável que o carro ofereça uma opção de câmbio manual, algo praticamente extinto no segmento de GTs de luxo modernos.
O preço ainda não foi revelado, mas os valores devem girar em torno de £ 500 mil (cerca de R$ 3,6 milhões, na conversão direta). Como referência, os restomods da JIA hoje custam na faixa de £ 150 mil a £ 400 mil, dependendo da mecânica utilizada e do nível de personalização.
Jensen-Ford (1934-1936), modelo criado para o ator Clark Gable (foto – R M Sotheby_s)
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Fundada em 1934 pelos irmãos Alan e Richard Jensen, a Jensen Motors nasceu como encarroçadora e rapidamente atraiu a atenção do ator Clark Gable, que encomendou um elegante conversível sobre chassi de Ford V8. Assim nasceu o Jensen-Ford, primeiro modelo da empresa a combinar mecânica norte-americana com carroceria de estilo europeu. Uma série de 30 desses carros foi produzida entre 1934 e 1936.
A partir daí, a empresa passou a lançar sua própria linha de automóveis de luxo com foco em desempenho, inicialmente equipados com motores Ford. Ao longo dos anos seguintes, esses modelos adotaram outros conjuntos mecânicos importados dos EUA, como Nash, Lincoln e Chrysler. A companhia se aventurou ainda na produção de pequenos caminhões e juntou-se ao esforço industrial da Segunda Guerra Mundial, fabricando peças para veículos militares, como torres para tanques.
No pós-guerra, a Jensen voltou a desenvolver seus próprios modelos de alto desempenho e, em paralelo, foi responsável pela produção das carrocerias dos famosos esportivos britânicos Austin-Healey, entre 1953 e 1967. Também forneceu as carrocerias dos primeiros Volvo P1800, entre 1961 e 1963.
A carroceria do Austin-Healey era feita na Jensen (Foto Bonhams)
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O auge da empresa veio em 1966, com o lançamento do Interceptor, desenhado pela Carrozzeria Touring. Foi o modelo de maior sucesso da história da Jensen, com 6.408 unidades construídas ao longo de dez anos.
Ainda em 1966, o Interceptor deu origem ao revolucionário Jensen FF, primeiro carro de passeio do mundo a oferecer tração integral permanente, com embreagem por acoplamento viscoso, e freios com ABS — muito antes de essas tecnologias se popularizarem com marcas alemãs.
Jensen-Healey 1973 – projeto enterrou a empresa (Foto Bonhams)
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Sobrava tecnologia, mas faltava equilíbrio no caixa. Outro projeto conjunto com a Healey — o malfadado Jensen-Healey, lançado em 1972 — e a crise do petróleo de 1973 selaram o destino da empresa. A Jensen Motors Limited faliu em 1976.
Diversas tentativas de ressuscitar a marca surgiram ao longo das décadas seguintes, nenhuma com êxito. Cabe agora à JIA, com seu profundo conhecimento na restauração dos Jensen originais, levar o legado adiante.