
A Justiça de São Paulo derrubou a decisão que obrigava a prefeitura da cidade a alterar nomes de ruas que homenageiam figuras ligadas à ditadura militar. O pedido havia sido apresentado pelo Instituto Vladimir Herzog, que anunciou que recorrerá. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o urbanista e vereador Nabil Bonduki (PT-SP) afirmou que o tema já tramita no Legislativo municipal.
“Apresentei neste ano um projeto de lei que ganhou o nome de Ainda Estou Aqui, em homenagem ao filme e à família Paiva, que teve muita evidência com o recebimento do Oscar. Nesse projeto de lei, nós temos a mudança de inúmeras ruas que homenageiam torturadores por nomes de pessoas que são defensoras dos direitos humanos”, explicou.
Segundo ele, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) tem se omitido quanto a tema. “Ela alega que a instância que decide sobre mudança de rua é a Câmara. Nisso ela está correta. Só que o que a base do governo tem feito, o próprio governo, é impedido que a Câmara faça aquilo que deve ser feito”, disse. Bonduki defendeu que a gestão municipal poderia “facilitar esse processo enormemente se ela mesmo mandasse um projeto de lei e trabalhasse pela sua aprovação”.
O parlamentar também destacou que a escolha não diz respeito apenas aos moradores. “Estamos tratando de um assunto que diz respeito à cidade como um todo, com a história, a memória. Homenagear torturador não é uma decisão simplesmente de quem mora naquela rua, mas é uma decisão da cidade”, reforçou.
Para Bonduki, o momento é propício para fortalecer o debate sobre memória democrática. “Nós acabamos de condenar aqueles que participaram da tentativa do golpe. Lembrando que os que participaram do outro golpe, e pior ainda, que participaram da ditadura, de tortura, tiveram uma ação totalmente criminosa, não foram punidos. Muitas vezes estão sendo homenageados, o que é um verdadeiro absurdo que nós precisamos rever”, concluiu.
Durante a entrevista, o urbanista também lamentou a morte do arquiteto chinês Kongjian Yu, criador do conceito das “cidades-esponja”, que faleceu nesta quarta-feira (24) em um acidente em Aquidauana (MS), na região do Pantanal. Ele estava acompanhado dos cineastas Luiz Ferraz e Rubens Rubão, também mortos na tragédia.
“É uma perda muito trágica para as nossas cidades, para a arquitetura, para o meio ambiente. É claro que as ideias dele continuam. Aqui em São Paulo, desde 2002, o Plano Diretor trabalha com a ideia dos parques lineares, mas infelizmente isso não tem sido levado adiante com a devida prioridade pelo poder público”, indicou Bonduki.
Ele contou que esteve com o arquiteto em São Paulo na semana passada, quando visitaram áreas como o Parque Tiquatira e a várzea do Rio Tietê. “Ele manifestou a necessidade de promover a produção habitacional para liberar o solo e deixar as águas correrem para onde elas já existem. Esse é o conceito da cidade-esponja: reservar o espaço nas cidades para as águas, espaço que as águas sempre tiveram”, relatou.
Na visão de Bonduki, o legado do arquiteto se conecta diretamente às urgências climáticas do país. “Exatamente o que o arquiteto propunha era preparar, transformar as cidades para que elas pudessem enfrentar as mudanças climáticas. É isso que precisamos fazer aqui no Brasil se não quisermos ver se repetir as tragédias de Porto Alegre, São Sebastião e tantas outras”, alertou.
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