
Desde a festa que comemorou os 100 anos da General Motors do Brasil, em janeiro passado, o projeto Chevrolet Vintage tem sido assunto entre os fãs de carros antigos. Não é toda hora que um fabricante decide restaurar dez exemplares de seus modelos históricos e levá-los a leilão.
A novidade agora é que, no próximo sábado (6/12), será realizado o primeiro remate do projeto. O escolhido para a estreia é um impecável Omega CD 1994 — e com preparação da alemã Irmscher! Será o lote de número 30 no Spring Sale, leilão beneficente organizado pelo museu Carde, em Campos do Jordão (SP).
17
Fonte: Divulgação
O Omega do programa Chevrolet Vintage será exposto no Carde a partir desta quinta-feira (4/12), ao lado de outros 31 carros também à venda. São os clássicos da coleção Dreams in Motion, dos irmãos empresários Sérgio e Roberto Haberfeld.
Trata-se de um pregão híbrido (presencial e on-line) que está no ar desde 15 de novembro. Seis carros já foram vendidos na modalidade Buy it Now. Entre os que continuam a receber propostas, há desde uma prosaica DKW Belcar 1964 até uma Ferrari 365 GT 2+2, de 1969, que já estava com um lance de R$ 2 milhões quando fechamos esta reportagem. O catálogo completo pode ser visto aqui: www.artmgleiloes.com.br
Foto de: Divulgação
O Omega CD Irmscher ainda não tem lance, mas pode-se prever que sairá por algumas centenas de milhares de reais. O processo de restauração dos Chevrolet Vintage começou quando um pequeno comitê, formado em sua maioria por engenheiros e especialistas da GM, selecionou dez modelos representativos dos 100 anos de história da General Motors do Brasil (alguns participantes, inclusive, trabalharam nos projetos originais).
Como ponto de partida, eles buscaram exemplares em ótimo estado à venda e decidiram se fariam restaurações no padrão rigorosamente original ou com certas liberdades poéticas. No caso dos restomods, o departamento de design participou sugerindo alterações visuais. Com os projetos escolhidos, os carros foram encaminhados pela GM a oficinas especializadas, como o Galpão Z28 (para os originais) e a BTS Performance, do preparador Batistinha (para os modificados).
O objetivo das restaurações foi ambicioso: devolver aos carros o aspecto de zero-quilômetro, respeitando rigorosamente os padrões originais de fábrica e preservando o máximo possível de peças pertencentes ao veículo.
Foto de: Divulgação
Cada componente foi analisado individualmente. Peças em ótimo estado foram mantidas, higienizadas e revitalizadas; itens como faróis e lanternas passaram por desmontagem e recuperação; elementos que exigiam substituição foram trocados por autopeças originais, garimpadas uma a uma. Como a fábrica já não dispõe da maioria dessas partes em estoque, o jeito foi buscar na internet, como faria qualquer entusiasta.
Tudo é refeito em alto padrão de exigência da fábrica — as folgas, por exemplo, devem ser iguais às previstas no projeto original. Conduítes, plásticos, encaixes, pinturas, reservatórios e etiquetas são restaurados. Parafusos passam por novo processo de zincagem. Os pneus são modernos, mas dos mesmos fabricantes que forneciam ao modelo na época.
No caso de carros como o Omega CD e o Kadett GSi, houve um luxo inacessível aos colecionadores normais: a empresa que fornecia as forrações nos anos 1990 foi convocada para voltar a produzir o tecido dos bancos e laterais no mesmo padrão original. Um detalhe: por questões industriais, foi preciso fabricar um mínimo de 200 metros de cada tipo de tecido!
Foto de: Divulgação
Ao fim das restaurações, os carros são levados ao Campo de Provas da GM em Cruz Alta, onde passam por validação dinâmica. Ali se avalia o que saiu a contento e o que ainda precisa ser ajustado para que o automóvel ande como um zero-quilômetro. Mais do que isso: os exemplares reconstruídos saem com cheiro de carro novo.
Dos dez automóveis, quatro foram apresentados prontos em um evento realizado em outubro em Cruz Alta: o Omega CD Irmscher 1994, a Chevrolet S10 vencedora do Rally dos Sertões de 2005, o Monza 500 EF 1990 e um Opala cupê 1979 caracterizado como uma releitura da versão SS. Também foi mostrado um Kadett GSi 1992 ainda em restauro.
Estão a caminho picapes Chevrolet Brasil, C10 com motor V8, D20 1996, entre outras… Todos os veículos serão leiloados e parte da renda será revertida ao Instituto General Motors, braço social e de investimento socioambiental da companhia.
Foto de: Divulgação
O Omega é o projeto que mais entusiasma este escriba. O motivo básico: trata-se de um exemplar da época em que a versão CD ainda trazia o seis-em-linha 3.0 importado, com comando no cabeçote. Quando esse motor mais “girador” deixou de ser produzido na Alemanha, a GMB teve que reaproveitar o pesado 4.1 nacional do Opala — mesmo levando um trato na Lotus, já era uma peça de museu com seu comando no bloco.
Aerodinâmico (Cx de 0,30), silencioso, bem acabado e com acerto de suspensão primoroso, o Omega CD era o melhor carro nacional que se podia ter em 1994. Status à parte, não fazia feio frente aos Mercedes 260 E (W124), BMW 520i (E34) e Audi 100 da época.
Foto de: Divulgação
O exemplar restaurado no Galpão Z28 tem câmbio automático de quatro marchas e um opcional da época: painel digital. Rodou pouco em seu auge, quando serviu a um alto executivo do setor financeiro. Mesmo assim, foi desmontado até o último parafuso para um resgate de suas características — recebendo também um molho extra…
A melhor parte está sob o capô: o motor foi refeito com preparação alemã da Irmscher desenvolvida para o Opel Omega A (que aqui virou Chevrolet Omega) e também para o Senator B. Esse kit teve seu auge na Europa entre 1987 e 1993. Podia ser encomendado em carros 0 km na própria Irmscher ou, mais raramente, aplicado como conversão posterior.
Essa preparação era cobiçada pelos donos de Opel na Alemanha, mas desconhecida dos brasileiros em 1994. O pacote era essencialmente um stroker kit (aumento de cilindrada por meio de maior curso) para o motor C30NE (3.0 de 12 válvulas).
Foto de: Divulgação
O virabrequim Irmscher tinha curso ampliado para 85 mm (em vez dos 69,8 mm do 3.0 original) e recebia novas bielas. Os pistões também eram especiais (Mahle ou Kolbenschmidt), mas sem grande alteração no diâmetro.
Na maioria das vezes, o conjunto de injeção original (L-Jetronic ou Motronic) era mantido, porém com a central reprogramada ou com chip específico para adequar os mapas de injeção e ignição à nova cilindrada.
Algumas preparações usavam comando mais “brabo”, aumentando o enchimento dos cilindros. Mas o detalhe que mais chamava a atenção era a tampa de válvulas especial com o logotipo Irmscher (em vez de Opel). Frequentemente, essas tampas eram pintadas de vermelho ou preto, com aletas polidas reforçando o caráter esportivo.
Foto de: Divulgação
Os números variavam conforme a configuração. O Omega 3.0 rendia originalmente 165 cv; com o kit Irmscher, podia ir de 180 cv a 206 cv, dependendo do nível de preparação.
A grande estrela do conjunto, contudo, era o aumento de torque: dos 23,4 kgfm (a 4.200 rpm) para algo entre 28,5 e 29,5 kgfm, disponíveis em rotações mais baixas. O 3.6 era célebre na Europa pela força “a todo momento” — algo que caía como uma luva para os Opel Omega e Senator.
Na Europa, era comum que os Omega com kit Irmscher recebessem bodykits com para-choques mais baixos, saias laterais, aerofólio e rodas esportivas.
Foto de: Divulgação
A Irmscher é muito mais do que uma simples customizadora de Opel — ao longo das décadas de 1970 a 1990, a empresa, fundada em 1968 pelo piloto de rali Günther Irmscher, funcionou praticamente como uma extensão da divisão esportiva da marca.
A Irmscher teve papel fundamental no desenvolvimento do Ascona B 400 com o qual Walter Röhrl conquistou o Mundial de Rali em 1982. Também montou carros para a DTM. Fez ainda réplicas do Lotus Seven na Alemanha. Sem jamais ter tido qualquer relação acionária com a Opel, a preparadora continua ativa, oferecendo kits também para outras marcas.