Levante Popular da Juventude celebra 20 anos com ato político, críticas ao imperialismo e defesa da organização popular no RS

Entre os dias 5 e 8 de fevereiro, o município de Nova Santa Rita, na Região Metropolitana de Porto Alegre, recebeu o Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude. A atividade reuniu cerca de mil jovens de diferentes regiões do Rio Grande do Sul, além de delegações de outros estados brasileiros e de países vizinhos, como Uruguai e Argentina, e encerrou com um grande ato político marcado por homenagens pelos 20 anos, debates sobre conjuntura internacional e críticas ao capitalismo contemporâneo.

Mística final prestou homenagem ao Frei Sérgio Görgen, falecido no dia 3 de fevereiro | Crédito: Katia Marko

O último dia do encontro contou com momentos de mística, homenagens ao Frei Sérgio Görgen e a militantes históricos do movimento, assim como uma caminhada pelas ruas de Porto Alegre. Ao longo da programação, foram realizadas atividades de formação política, convivência e articulação, com foco na inserção territorial do Levante e na organização da juventude da classe trabalhadora.

Levante prestou uma homenagem aos que construíram o movimentos nestes 20 anos | Crédito: Katia Marko

Na abertura do ato político, Cícero Borba, da secretaria estadual do Levante Popular da Juventude, afirmou que a organização surgiu da necessidade de mobilizar a juventude trabalhadora como parte de um projeto de transformação social. “Para que a gente realmente tenha lutas de massas que nos apontem a construção do socialismo no Brasil, a gente precisa que um sujeito específico se coloque em movimento, que esse sujeito específico seja da classe trabalhadora”, declarou.

Cícero Borba, da secretaria estadual do Levante Popular da Juventude, representou o movimento no ato olítico de encerramento do acampamento | Crédito: Katia Marko

Borba relembrou as experiências organizativas desenvolvidas no Rio Grande do Sul, como a atuação em núcleos de base e articulações nacionais, e destacou o papel das cozinhas solidárias na ampliação da presença do movimento nas periferias. “Essa tem sido uma ferramenta que nos permitiu entrar em muitos territórios. E além de entrar em outros territórios, trabalhar também, criar a luta e organização com outros sujeitos também da classe trabalhadora.”

Cícero Borba destacou o papel das cozinhas solidárias na ampliação da presença do movimento nas periferias | Crédito: Marta Gomes

Segundo ele, os últimos anos de atuação do Levante no estado representam um marco político. “Agora o Levante Popular da Juventude, ressignificando o seu sentido histórico, o seu papel na luta de classes, ele precisa organizar a juventude, mas a gente organiza a juventude para organizar o povo brasileiro, para organizar o povo das periferias”, defendeu.

O militante também ressaltou o caráter internacional do encontro e a mensagem política do aniversário. “A gente se reúne nesse marco de 20 anos e não faz apenas um churrasco, mas um grande encontro com delegação internacional, com a Universidade Internacional e com tantos companheiros e companheiras aqui do nosso lado”, afirmou Borba.

“Para que a gente realmente tenha lutas de massas que nos apontem a construção do socialismo no Brasil, a gente precisa que um sujeito específico se coloque em movimento, que esse sujeito específico seja da classe trabalhadora” , destaca Cicero Borba | Crédito: Rafa Dotti

Enchentes, solidariedade e soberania latino-americana

Edegar Pretto recordou a atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e do Levante Popular da Juventude durante as enchentes, o trabalho das cozinhas solidárias e a parceria com a Conab | Crédito: Marta Gomes

O ex-deputado e presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Edegar Pretto, afirmou estar emocionado com a trajetória do Levante e destacou a articulação entre as lutas do campo e das periferias urbanas. “Quem conseguiu fazer essa ligação, construir essa sinergia do que é a luta do campo, a luta camponesa, com a luta da periferia?”

Ele recordou a atuação dos movimentos sociais como Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), Levante, durante as enchentes no Rio Grande do Sul, o trabalho das cozinhas solidárias e a parceria com a Conab. “Nós organizamos mais de 600 cozinhas solidárias no Rio Grande do Sul. Essa marca da solidariedade que vocês ajudaram a construir fez com que ninguém passasse necessidade de alimentação”, disse.

Pretto também citou os desafios eleitorais e defendeu posições em relação à política internacional, reafirmando a soberania de países latino-americanos e criticando a ingerência dos Estados Unidos.

Conjuntura internacional e enfrentamento à extrema direita

Paulo Pimenta avaliou que o próximo período será de enfrentamento político duro contra a extrema direita e convocou a militância à organização | Crédito: Marta Gomes

O deputado federal Paulo Pimenta (PT) afirmou que o mundo vive uma “mudança de época”, marcada pela reorganização do capitalismo global e das estratégias imperialistas. “Os Estados Unidos publicaram a sua nova política de defesa dizendo que não vão abrir mão de que a América Latina seja uma área de influência.”

Segundo ele, os episódios envolvendo Venezuela e Cuba fariam parte desse reposicionamento geopolítico, e que o Brasil e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teriam papel central nesse cenário. “O presidente Lula e o Brasil hoje somos protagonistas do esforço para enfrentar esta lógica do imperialismo internacional. O que está em jogo aqui, em larga medida também é o futuro da América Latina.”

Pimenta avaliou que o próximo período será de enfrentamento político duro contra a extrema direita e convocou a militância à organização. “Vamos ter um ano muito duro pela frente. Um ano que vai exigir de cada um de nós organização, capacidade militante, disposição para o combate e certeza de que não há outro caminho que não seja o caminho da luta, da resistência e da organização”, declarou.

“Nós crescemos, nascemos e desenvolvemos sabendo a importância da unidade para avançar e para vencer. Nós não vamos nos perder em pequenas disputas, em picuinhas”, declarou Jessy Dayane | Crédito: Rafa Dotti

Eleições de 2026 e papel estratégico da juventude

A deputada estadual Laura Sito (PT) destacou o papel das organizações juvenis na formação política e na atuação nos territórios populares, citando ações em bairros de Porto Alegre e cidades do Interior.

Ela afirmou ser fruto das políticas sociais e defendeu a disputa de consciências como central para a construção de um projeto popular. “Disputar a consciência e o coração de jovens de tantas gerações é fundamental para que nós possamos construir o Brasil onde a classe trabalhadora seja de fato livre, para que nós possamos construir o Brasil de fato soberano”, afirmou.

A parlamentar também mencionou as eleições de 2026 e avaliou que se trata de um momento decisivo. “É a eleição mais importante dessa quadra de competição do Brasil que nós vivemos”, disse. Sito anunciou que fará uma homenagem aos 20 anos do Levante na Assembleia Legislativa.

Critica big techs e convocação para reorganização popular

“O papel da esquerda é organizar o povo para lutar. Sem luta de massas, não haverá mudança nenhuma”, defendeu Stédile | Crédito: Marta Gomes

Durante as atividades da comemoração, o dirigente nacional do MST João Pedro Stédile fez duras críticas ao capitalismo contemporâneo, às grandes corporações e às plataformas digitais, além de defender que a esquerda retome a organização popular, a formação militante e a luta ideológica como respostas à atual conjuntura.

Segundo Stédile, grandes empresas e big techs teriam reduzido sua dependência dos Estados nacionais e passaram a atuar diretamente para capturar sistemas políticos. “Para os grandes capitalistas é mais barato comprar os eleitos do que disputar as ideias nas eleições”, afirmou, relacionando esse processo ao que chamou de estímulo às ideias fascistas na América Latina.

O dirigente ponderou que, embora o Brasil não viva um movimento fascista de massas como na Europa do século 20, há uma disseminação dessas ideias na disputa política. Ele citou discursos de ódio contra pobres, negros, mulheres e pessoas LGBTQIA+ e associou esse ambiente ao aumento da violência, incluindo os feminicídios. Para Stédile, a combinação entre ódio e intimidação gera medo social e inibe a participação política.

João Pedro Stédile, do MST, falou sobre as conjunturas nacional e internacional | Crédito: Katia Marko

Ao analisar o campo progressista, Stédile afirmou que a esquerda enfrenta uma crise programática e organizativa. “A esquerda está em dívida com o povo”, declarou. Ele também criticou a centralidade excessiva das disputas eleitorais. “O papel da esquerda é organizar o povo para lutar. Sem luta de massas, não haverá mudança nenhuma”, disse.

Stédile relembrou o contexto das crises econômicas das décadas de 1970 e 1980, o surgimento de organizações como PT, CUT e MST, o movimento das mulheres e a derrota da ditadura militar. Entre as prioridades indicadas para a juventude e para os movimentos populares, ele destacou a formação militante inspirada na pedagogia de Paulo Freire, a ampliação de instrumentos culturais de disputa política, como teatro, música e poesia, e ações simbólicas como os “escrachos” realizados contra agentes da ditadura.

No campo internacional, criticou a influência dos Estados Unidos na América Latina, mencionando empresas mineradoras, bancos estrangeiros e disputas em torno de recursos estratégicos brasileiros, como as terras raras.

No campo eleitoral, Stédile defendeu a reeleição do presidente Lula e alertou para o risco de interferência estrangeira por meio de financiamento digital e desinformação nas redes sociais. Como contraponto, citou a mobilização territorial realizada pela esquerda mexicana na eleição que levou Claudia Sheinbaum à presidência.

Ao final, lançou um desafio aos jovens presentes para integrarem brigadas internacionalistas organizadas por movimentos sociais, com missões para o Haiti, Venezuela, Cuba e países africanos, além de mencionar planos de envio de militantes a Gaza para ações de solidariedade. Encerrando sua fala, Stédile convocou a juventude a intensificar a organização popular e puxou palavras de ordem junto ao público: “Levante Popular”.

Organização popular e unidade da esquerda

“Mandatos que não estão a serviço da luta da organização popular não servem”, enfatizou Jessy Dayane

A militante do Levante Popular da Juventude, Jessy Dayane, encerrou o ato político defendendo que o próximo período será decisivo para a organização popular, a disputa política e as condições de vida da classe trabalhadora.

Segundo ela, a conjuntura envolve desafios que ultrapassam as fronteiras nacionais. “A gente precisa enfrentar esse ano uma das maiores batalhas da nossa vida, porque, como muito já foi falado, diz respeito ao nosso Brasil, diz respeito à América Latina, diz respeito à nossa resistência aqui no território, na nossa região, mas diz respeito também às condições do nosso povo”, afirmou.

Dayane relacionou a luta política à superação da fome e das dificuldades materiais enfrentadas por trabalhadores e trabalhadoras. “Povo com fome não luta, povo com fome não está em reunião, não participa da atividade política, não se organiza”, declarou.

Ela destacou que, apesar de avanços recentes, parte da população segue enfrentando dificuldades. “Nosso povo está sofrendo, trabalhador e trabalhadora estão sofrendo para pagar sua conta de vida, estão sofrendo para ter conquistas mínimas”, destacou, defendendo a necessidade de avançar para além das disputas eleitorais.

“Sem luta de massas, não haverá mudança nenhuma”, defendeu João Pedro Stédile | Crédito: Rafa Dotti

Assim como nas demais falas, Dayane também abordou os desafios internos enfrentados pelas organizações populares e pela esquerda brasileira, citando processos de transição geracional e momentos de fragilidade. “Esse processo de transição de uma geração fundadora, que cria uma organização, que passa anos construindo ela, mas em algum momento sai, fragiliza a organização. E nós também estamos vivendo isso como risco da esquerda brasileira.”

Para a ela, é necessário renovar as formas de organização e preparar novas gerações militantes. “Foi muito válido tudo aquilo que fizemos, mas o Levante de hoje precisa estar utilizando as cozinhas solidárias do tempo de hoje e preparar a militância para ser a nossa expressão revolucionária na luta dos próximos anos.”

Como Stédile, Dayane reforçou sobre os limites da disputa institucional, defendendo que a participação eleitoral deve estar subordinada à organização popular. Para ela a matéria eleitoral é importante, desde que esteja a serviço da organização da luta popular. “Mandatos que não estão a serviço da luta da organização popular não servem”, enfatizou.

Ato político com apoiadores finalizou o acampamento em Nova Santa Rita | Crédito: Katia Marko

Segundo ela, governos e mandatos precisam fortalecer as redes populares e a organização nas periferias. “Nós sabemos dos limites do Estado, dos nossos mandatos e dos nossos governos, e nós só vamos ultrapassar esses limites com o povo na rua, fazendo luta de massa, fazendo enfrentamento”, defendeu.

No encerramento, Dayane destacou a centralidade da unidade política entre os movimentos populares. “Nós crescemos, nascemos e desenvolvemos sabendo a importância da unidade para avançar e para vencer. Nós não vamos nos perder em pequenas disputas, em picuinhas.”

Concluindo a intervenção, ela afirmou que o Levante mantém um projeto estratégico para o país. “Nós temos um horizonte e a gente está aqui para revolucionar esse país. Nossa bandeira junto com tantas outras bandeiras. Nosso princípio é a luta, e quem está em luta está com o Levante Popular da Juventude”, concluiu.

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  • Redação Uberlândia no Foco

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