
Manhã de domingo, 13 de abril de 1986. O Brasil comemora a terceira vitória de Ayrton Senna na Fórmula 1. Em Jerez de la Frontera, ele ganha o GP da Espanha com o Lotus 98T preto e dourado, superando Nigel Mansell por apenas 0s014 — um dos finais mais apertados da história. Com o resultado, Senna assume a liderança do campeonato, seis pontos à frente de Nelson Piquet, provando que já se firmava entre os grandes da categoria.
Passados 40 anos, um pedaço dessa história está à venda: o Lotus de chassi 98T-3 foi anunciado pela casa de leilões RM Sotheby’s. A abertura para lances ocorrerá em 4 de março, e a expectativa é que, quando o martelo bater, em 11 de março, o carro troque de mãos por um valor entre US$ 9,5 milhões e US$ 12 milhões (aproximadamente R$ 50 milhões a R$ 63 milhões, em conversão direta).
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A estimativa elevada para o lance final se justifica pelo fato de que o chassi 98T-3 foi utilizado extensivamente por Ayrton Senna nas oito primeiras provas de 1986, obtendo duas vitórias (GPs da Espanha e de Detroit), cinco poles (Brasil, Espanha, San Marino, Detroit e França) e outros três pódios, incluindo o segundo lugar no GP do Brasil, vencido por Nelson Piquet.
Com apenas quatro chassis construídos para a temporada de 1986, a exclusividade do modelo é inquestionável — e o exemplar 98T-3 é, sem dúvida, o mais especial. Comprado diretamente da Lotus em 1988, integrou acervos de altíssimo nível e, desde 2016, pertence a Zak Brown, CEO da McLaren Racing e colecionador de bólidos históricos. Após uma restauração primorosa realizada pela renomada Paul Lanzante Ltd., o carro é mantido em condição impecável e está pronto para voltar às pistas.
Lotus 98T-3 de Senna vai a leilão
Foto de: Reprodução
Projetado por Gérard Ducarouge e Martin Ogilvie, o 98T foi o modelo da Lotus usado por Ayrton Senna em sua segunda temporada na equipe. Também se destacou como um dos carros de Fórmula 1 mais potentes já construídos, símbolo da chamada “era selvagem” da F1, quando desempenho bruto e soluções extremas animavam o espetáculo. O 98T marcou ainda a última temporada da Lotus com a clássica pintura preta e dourada da John Player Special, identidade visual da equipe nos anos 1970 e 1980.
O segredo da velocidade avassaladora do Lotus 98T estava escondido atrás do cockpit: o motor Renault EF15 V6 de 1,5 litro. Em um tempo de regulamentos técnicos permissivos para o turbo, a Renault levou a tecnologia ao limite do impossível.
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Equipado com válvulas pneumáticas — uma inovação que eliminava a flutuação de molas em altas rotações — e um sistema de injeção de água para resfriar a mistura, esse motor era uma joia da tecnologia da época. No modo de classificação, com a pressão das turbinas Garrett ajustada para insanos 5,5 bar, o V6 rendia acima de 1.000 cv (falava-se em até 1.300 cv).
Apelidados de “granadas”, os motores de classificação duravam apenas duas voltas lançadas antes de o metal começar a se desintegrar — as microfissuras e o estresse térmico transformavam o V6 e seus turbos em sucata após as tomadas de tempo. Pneus especiais ofereciam aderência máxima, mas aguentavam somente uma volta rápida.
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“Os turbos ficavam vermelhos, e os mecânicos precisavam usar luvas grossas de amianto para manuseá-los e soltar os parafusos. Eles estalavam enquanto esfriavam. Quando tirávamos a carenagem, o ar ao redor faíscava de tão quente. Os caras suavam, e você ouvia o chiado da umidade caindo no turbo”, lembra Steve Hallam, engenheiro-chefe de Senna.
Ainda assim, dava certo: em 1986, Senna somou oito poles com os Lotus chassis 98T-3 e 98T-4 (que passou a ser o carro principal a partir do GP da Grã-Bretanha, em 13 de julho). Os 98T-1 e 98T-2 serviam como reservas ou eram usados pelo companheiro Johnny Dumfries. Em configuração para toda a corrida, a potência caía para cerca de 900 cv.
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Em resumo, o Lotus 98T de Ayrton Senna se destacava pela velocidade pura, especialmente em voltas de classificação, graças ao potente motor Renault e ao chassi ágil, mas sofria com consumo elevado e confiabilidade limitada. Foguete aos sábados, frágil aos domingos… O Williams FW11 (motor Honda), pilotado por Nigel Mansell e Nelson Piquet, oferecia potência e equilíbrio, sendo o carro a ser batido, embora a rivalidade interna entre os pilotos tenha custado pontos preciosos. Já o McLaren MP4/2C (TAG-Porsche) de Alain Prost primava pela eficiência e consistência, vencendo pela estratégia e economia de combustível, mesmo sendo tecnicamente mais lento que os rivais.
Pilotar o 98T exigia uma relação quase espiritual entre homem e máquina. Senna operava um câmbio manual com alavanca, precisando tirar uma das mãos do volante para trocar de marcha enquanto lutava contra o turbo lag imenso, seguido por uma repentina pancada de torque que tentava girar a traseira do carro a cada aceleração. Também era preciso ser mestre na gestão de recursos, já que o 98T era notoriamente sedento.
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O câmbio de seis marchas da Lotus, desenvolvido pela própria equipe em parceria com a Hewland, era tão frágil quanto o motor. Foi um dos grandes responsáveis pelos abandonos de Dumfries, enquanto Senna conseguia preservar a transmissão para terminar as provas. No GP do México, penúltima corrida da temporada, seu domínio sobre o carro ficou evidente: Senna conquistou a pole, enquanto o companheiro de equipe largou em 17º — uma diferença abismal de quase quatro segundos.
O piloto brasileiro terminou a temporada de 1986 em 4º lugar, atrás apenas de monstros sagrados com carros superiores: Alain Prost, Nigel Mansell e Nelson Piquet. No ano seguinte, estreou o Lotus 99T, equipado com motor Honda e a pintura amarela e azul dos cigarros Camel. Mas é o 98T que ainda simboliza a transição de Senna de promessa a mestre da técnica. Será que tanta história vale a pedida?