
Patrimônio Vivo de Pernambuco e referência central da cultura popular brasileira, o Maracatu de Baque Solto Cambinda Brasileira comemora 108 anos de história neste sábado (10), com uma grande celebração gratuita no Engenho Cumbe, na zona rural de Nazaré da Mata.
A partir das 20 horas, o terreiro da agremiação mais antiga do país, com mais de um século de atividade ininterrupta, se transforma em espaço de festa, memória e afirmação da cultura afro-brasileira, marcando simbolicamente a abertura do Carnaval na Zona da Mata Norte e reunindo atrações para públicos de todas as idades.
Presente no calendário cultural do estado, o aniversário do Cambinda Brasileira ajuda a compreender a centralidade do maracatu rural na identidade pernambucana. O que se apresenta no terreiro é resultado de uma tradição construída ao longo de mais de um século por trabalhadores do campo, mestres da oralidade, brincantes e famílias inteiras que fizeram do maracatu uma forma de existir, resistir e narrar o mundo a partir da experiência coletiva.
A noite festiva também reúne outras expressões culturais ligadas ao território da Zona da Mata Norte. Entre os convidados está o Cavalo Marinho Boi Estrela, que leva ao terreiro a força do brinquedo popular que mistura teatro, música e dança, recuperando personagens e narrativas do universo canavieiro.
O grupo cultural Os Ticuqueiros também integra a programação, apresentando uma linguagem musical contemporânea que nasce da tradição e transforma referências do campo em som urbano, sem romper com a raiz. A festa recebe ainda o Mestre Anderson Miguel, acompanhado da Ciranda Raiz da Mata Norte, representada por uma nova geração de mestres que atualiza a tradição e amplia seus diálogos com novos públicos.
Fundado em 5 de janeiro de 1918, o Maracatu de Baque Solto Cambinda Brasileira possui os títulos de Patrimônio Vivo de Pernambuco e Ponto de Cultura do Estado. Além da atuação carnavalesca, o grupo desenvolve ações de registro, documentação e salvaguarda da cultura afro-brasileira, oferecendo atividades formativas e culturais à comunidade da Zona da Mata e dialogando com os princípios da Lei Cultura Viva.
Ao longo de sua trajetória, o Cambinda Brasileira extrapolou os limites do terreiro e da região canavieira onde nasceu. A brincadeira popular inspirou filmes, documentários, livros e pesquisas acadêmicas no Brasil e no exterior, tornando-se objeto de investigação antropológica, estética e histórica. Ainda assim, mantém sua função original como prática viva, sendo referência constante para novos grupos, pesquisadores e artistas interessados na complexidade dessa expressão cultural.
Com cerca de 160 integrantes, o maracatu de baque solto se anuncia, antes de tudo, pelo impacto visual. Os caboclos de lança surgem como figuras monumentais, vestindo golas ricamente bordadas, fitas e cores que transformam o corpo em território simbólico. A corte se organiza como um reino popular em movimento, formado por personagens que carregam na indumentária e nos gestos referências ancestrais afro-indígenas. Cada elemento possui função e significado, compondo uma estética marcada pelo pertencimento e pela memória.
No centro dessa engrenagem cultural está a palavra. A poesia conduz a brincadeira por meio de versos rimados e cantados, que misturam improviso, crítica social, devoção e celebração. Os cantos organizam o tempo do cortejo e dão sentido à dança, criando um diálogo permanente entre quem puxa os versos e quem responde, em uma tradição transmitida oralmente e preservada como patrimônio vivo.
A sonoridade do baque solto completa a experiência. Metais, gonguês, vozes e o ritmo marcado no corpo e no chão constroem uma música que atravessa gerações e não se limita ao ouvido. O som ocupa o terreiro, envolve brincantes e público e reafirma o maracatu rural como uma manifestação em que música, dança e ritual são indissociáveis.
A produção do projeto é da Terno da Mata Produções, responsável pela captação de recursos, acompanhamento da execução e articulação institucional, em diálogo permanente com a diretoria do maracatu.
Serviço
O quê: Maracatu Rural Cambinda Brasileira celebra 108 anos em clima de Carnaval
Quando: Sábado, 10 de janeiro de 2026
Onde: Sede do Maracatu Cambinda Brasileira, Engenho Cumbe, zona rural de Nazaré da Mata
Horário: 20h
Quanto: Gratuito