MST, UFPE, MEC e Pronera somam forças para alfabetizar mais de 16 mil pessoas em todo Nordeste

Trabalhando na agricultura desde os sete anos de idade, Paulo Alexandre, hoje com 67, chegou a tentar estudar na infância, mas as necessidades do trabalho acabaram se impondo. Dos poucos anos de escola, saiu apenas sabendo escrever seu nome. O desejo por educação sempre se manteve aceso dentro de si e, quase seis décadas depois, o agricultor do assentamento Oziel Pereira, em Remígio (PB), se empossou da fundamental ferramenta para retomar essa caminhada: a alfabetização.

Paulo foi um dos mais de 16 mil assentados da reforma agrária que participaram da Jornada EJA Nordeste, iniciativa realizada por meio do Governo Federal, através do Pacto Nacional Pela Superação do Analfabetismo do Ministério da Educação (MEC), com sua Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), e do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), sob coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 

“Mudou muita coisa na minha vida e no meu dia a dia. Eu coordeno um banco comunitário de sementes no assentamento, as pessoas vinham pegá-las, mas eu não tinha como registrar os nomes delas. Agora aprendi e as coisas ficaram mais fáceis”, afirma Paulo. As coisas não mudaram apenas na rotina do assentamento Oziel Pereira. Foram mais de 1400 turmas espalhadas por 214 municípios de todos os estados do Nordeste, realizadas durante todo o ano passado. 

Paulo Alexandre, 67, agricultor do assentamento Oziel Pereira
Paulo Alexandre, 67, agricultor do assentamento Oziel Pereira | Crédito: Carla Batista/MST-PB

As primeiras ideias para a execução do projeto começaram a ser debatidas há uma década, em 2016, com conversas no coletivo de educação do MST que levantaram as demandas dos estados em relação à alfabetização e escolarização. Com o golpe sofrido pela presidenta Dilma Rousseff e os anos Temer-Bolsonaro que vieram, o projeto foi interrompido. As conversas foram retomadas no início do terceiro e atual mandato do presidente Lula, com a participação do Pronera.  

“Quando formulamos a política, pensamos nos 11,4 milhões de pessoas não alfabetizadas em todo o País — pessoas, em sua maioria, pobres, negras, da zona rural, com deficiência ou apenadas. Nosso compromisso é trabalhar para que elas tenham um futuro melhor”, afirmou a secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão do MEC, Zara Figueiredo, à época do lançamento do programa.

“Discutimos como o Nordeste tinha sido tão fundamental nas eleições e como também é a região com os maiores índices de analfabetismo. Entendemos que era preciso que o Governo fizesse algo em relação a essa situação na região e começamos a construir, entre sonhos e ideias, esse trabalho”, relembra Rubneuza Leandro, membro da direção do MST e integrante do setor de educação do movimento. Assim foram em busca de parceiros, encontrando junto com a UFPE, por meio de sua Pró-Reitoria de Extensão, formas de operacionalizar a empreitada. 

Após conversas com o Governo Federal, a Jornada EJA Nordeste conseguiu ser contemplada pelo Pacto Nacional Pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da Escolarização de Jovens e Adultos, que possibilitou o pagamento da bolsa dos professores, somado aos investimentos do Pronera, viabilizando as formações e os materiais didáticos.  Começava a organização dos meios para a execução da jornada. Cada estado possuía um coordenador político-pedagógico que, em diálogo com a UFPE, participou da construção da estrutura pedagógica do projeto. 

Montada essa estrutura, entram em campo os coordenadores, sendo um coordenador territorial para cada dez turmas, um coordenador estadual para cada 50 turmas e um coordenador sub-regional para cada estado, acompanhando os processos de aprendizado e atuação dos professores. 

Alunos do assentamento Oziel Pereira em aulas da Jornada EJA Nordeste
Alunos do assentamento Oziel Pereira em aulas da Jornada EJA Nordeste | Crédito: Carla Batista/MST-PB

“Vinculado ao EJA Nordeste, temos também um projeto de pesquisa que atua em trazer o processo de aprendizagem sob um aspecto político, de que não se trata apenas de ler e escrever, mas também transmitir a importância da problematização e crítica de nossa realidade”, explica Otávio Prema, coordenador-geral do projeto via UFPE. Ele destaca que uma série de desafios se impõem na execução de um projeto educacional desta magnitude. Dos trâmites burocráticos aos materiais de aula, passando por soluções em dificuldades de infraestrutura e o lidar com diferentes ritmos de aprendizado.

Após atravessar essa experiência, Paulo Alexandre não só apenas coordena com mais eficiência o banco de sementes de seu assentamento, como está vendo uma outra importante semente florescer dentro de si. Guarda as memórias das aulas e da felicidade não apenas de aprender a ler, mas de ver amigos também passando pela experiência. 

“Eu só tenho a agradecer. Sempre que eu tiver um tempinho, eu quero ler livros, a bíblia. E quero continuar estudando em toda oportunidade como essa que eu tiver”, conclui o agricultor.

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  • Redação Uberlândia no Foco

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