Mulheres indígenas bloqueiam acesso ao aeroporto de Altamira (PA) contra projeto de mineração da Belo Sun: ‘Ninguém está nos ouvindo’

No início da manhã desta segunda-feira (16), um grupo de indígenas bloqueou a via de acesso ao Aeroporto Interestadual de Altamira, no Pará.

A ação faz parte da mobilização organizada pelo Movimento das Mulheres Indígenas do Médio Xingu que, desde 23 de fevereiro, ocupa a Coordenação Regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Altamira.

Elas exigem a suspensão imediata das atividades da mineradora canadense Belo Sun Ltda na região da Volta Grande do Xingu e cobram que os órgãos de atendimento à população indígena se manifestem contra o projeto de exploração de ouro desenvolvido pela empresa, o Volta Grande de Ouro.

“Ninguém está nos ouvindo, a gente já está há quase 30 dias lá na Funai. É um modo de tentar ter resposta”, diz Sol Juruna, moradora da terra indígena Paquiçamba, no município de Vitória do Xingu (PA), na zona de impacto do empreendimento. “A gente quer que esse pessoal venha até nós”, diz.

O pessoal ao qual ela se refere são os representantes da Funai, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e do Ministério Público Federal (MPF).

Região do Médio Xingu, onde vivem os povos que podem sofrer os impactos da mineração - Centro de Trabalho Indigenista (CTI)
Região do Médio Xingu, onde vivem os povos que podem sofrer os impactos da mineração | Crédito: Centro de Trabalho Indigenista (CTI)

Em fevereiro de 2026, o MPF apresentou recurso contra a decisão liminar do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) que havia liberado a licença de instalação do projeto de mineração da Belo Sun.

No recurso, o órgão pede a suspensão imediata da licença, argumentando que a liberação do empreendimento se baseou “em premissas equivocadas, já que a empresa não cumpriu integralmente as condicionantes judiciais relativas à proteção das comunidades impactadas”, segundo nota publicada no site do MPF.

Ao Brasil de Fato, o MPF afirma que não é possível garantir que os atuais estudos de impacto ambiental do projeto irão minimizar os riscos às comunidades da área. “Pelo contrário, o órgão argumenta que estudos incompletos ou deficientes aumentam exponencialmente o risco de danos socioambientais não previstos”, informa, por nota enviada pela assessoria de imprensa.

O projeto Volta Grande de Ouro será instalado no município paraense de Senador José Porfírio, na região de Altamira. O empreendimento tem como meta cavar ali a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil em uma área que já sofre os impactos de outro projeto grandioso: a hidrelétrica de Belo Monte, cuja instalação afetou o fluxo do rio Xingu. Para o MPF, essa é uma das muitas fragilidades da proposta.

Protesto na via de acesso ao aeroporto de Altamira - Divulgação/Movimento das Mulheres Indígenas do Médio Xingu
Protesto na via de acesso ao aeroporto de Altamira | Crédito: Divulgação/Movimento das Mulheres Indígenas do Médio Xingu

“Como a região já sofre com a seca causada pelo desvio de águas para as turbinas de Belo Monte, o impacto cumulativo de uma gigantesca mineração de ouro não pode ser medido sem dados reais de quanta água sobrará no rio”, alerta o MPF, cujo recurso aguarda decisão da Justiça.

A alteração do fluxo do rio já deixa seus sinais. “Lugares que antes a gente trafegava de barco, hoje não tem como trafegar”, conta Sol Juruna, que relata, ainda, a redução na quantidade de peixes. Se implementado, o projeto de exploração de ouro poderá ampliar a devastação.

“Esse projeto da Belo Sun traz riscos para nós”, alerta Pyja Xipaya, integrante do Movimento das Mulheres Indígenas do Médio Xingu. “Risco de termos o nosso rio Xingu contaminado pelo minério, o solo contaminado, as caças, os peixes. Corremos o risco também de ter mais invasões nas nossas terras indígenas”, enumera.

Para Sol, a barragem de rejeitos, a ser instalada em área próxima do rio, é motivo de preocupação. “A gente sabe que se acontecer alguma coisa, porque é propício acontecer, a gente vai terminar de perder tudo”, diz. Ela e as demais pessoas que participam da ocupação pedem a total suspensão das atividades da Belo Sun na área. “O que a gente quer é a Belo Sun fora daqui. Essa luta também é do pescador, do ribeirinho e de todos aqui do Médio Xingu e região”, afirma.

Participam do movimento indígenas das etnias Juruna, Xikrin, Xipaya e Arara da Cachoeira-seca. Embora haja homens participando da mobilização, são as mulheres indígenas que lideram o movimento. As indígenas informam que seguirão mobilizadas até que tenham respostas do MPI e da Funai. O prédio da Funai segue ocupado.

O Brasil de Fato entrou em contato com a empresa e os órgãos citados, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem. Em caso de manifestação, o texto será atualizado.

Procurada em outra ocasião, a Belo Sun informou que atua em conformidade com a legislação aplicável, respeita as instituições, os ritos de licenciamento e as comunidades potencialmente envolvidas.

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