
Quem circula pelo centro de São Paulo (SP) observa que as paredes dos prédios da capital paulista se alteram de tempos em tempos, transmitindo novas ideias por meio de grafites e murais. Mensagens como “nenhuma mulher sem casa” e “resistir e ser livre” aparecem em muros e impõem a presença de mulheres na arte urbana da cidade.
A artista Priscila Barbosa, que começou a pintar murais em 2018, é um desses exemplos. Ela conta que tem uma conexão especial com o edifício Elza Soares. O local abriga um projeto de moradia popular, fruto de uma ocupação da Frente de Luta por Moradia, iniciada em 2010.

O residencial, que fica no centro de São Paulo, no bairro de Campos Elíseos, abrigava o tradicional Hotel Lord Palace e foi rebatizado pelas famílias que vivem no local em homenagem à cantora.
“A Elza e o Mané Garrincha foram barrados de entrar nesse espaço por racismo. E por isso as famílias escolheram, na hora de pensar o nome do residencial, colocar o nome de Elza Soares”, explica Priscila.
“Eu tenho uma conexão muito grande com o centro, mas especificamente com esse edifício, que é o edifício Elza Soares, que costumava ser uma ocupação feita pela Frente de Luta por Moradia. Depois de muita luta, de muitas dificuldades e muito empenho, as famílias conseguiram transformar no residencial Elza Soares”, conta.
Priscila ressalta que as barreiras do machismo ainda precisam ser superadas pela sociedade, e não é diferente dentro da arte urbana.
“Muitas vezes trabalho sozinha e outras vezes trabalho com meu companheiro fazendo assistência. E quando a gente tá trabalhando junto, as pessoas que passam para elogiar, elogiam o meu companheiro. Às vezes ele fala: ‘Esse trabalho não é meu, eu estou fazendo assistência para ela’, e a pessoa simplesmente me ignora”, afirma a artista que também tem obras na Ocupação 9 de Julho, na Rua Álvaro de Carvalho, 427, próximo aos metrôs Anhangabaú e República e no Hotel Selina Aurora, na República.

Para Marie Balbinot, que atua na arte urbana desde 2010, o centro da cidade funciona como uma analogia ao protagonismo, espaço geralmente reservado e priorizado para os homens. A artista defende que a ocupação desses locais pelas mulheres é fundamental para alterar estruturas e gerar representatividade.
“Quando eu vejo que uma mulher ocupou o centro ou um espaço de poder, de protagonismo, automaticamente — eu acho que até inconscientemente — eu penso que eu também posso, porque eu me vejo representada ali”, reflete Marie.
A união de quatro mulheres para a produção de um mural de quase 250 metros na Avenida Ipiranga é citada como um exemplo dessa força coletiva contra as tentativas sociais de rivalidade feminina. O painel reúne diferentes poéticas, personagens e mensagens que servem como um marco de existência na metrópole.
Segundo Mariê Balbinot, o trabalho conjunto é relevante pela identificação que gera em outras mulheres que passam pelo local.
“Isso é um grito de que estamos aqui, a gente resiste, a gente existe. A gente não vai se calar porque é uma arte forte, que traz quatro poéticas distintas. E mulheres que se uniram, isso já é muito grandioso, porque o tempo todo o patriarcado e a sociedade tentam separar a gente. Então, quando quatro mulheres conseguem se unir para fazer algo, é uma força muito potente, muito grande, relevante. Isso traz representatividade, outras mulheres que passam aqui se identificam, elas se veem nisso”, diz.

Em março de 2025, a artista Gi Favetta finalizou um mural de 360 metros quadrados em homenagem à atriz Fernanda Torres, localizado em um edifício na Rua da Consolação, também na região central da cidade. O painel apresenta o rosto da atriz em tons de azul e amarelo, posicionado em uma empena que compõe a paisagem urbana da região.
No mural, as frases “Totalmente indicada” — em referência à indicação da atriz ao Oscar — e “Filha de peixe, peixinha é”, celebram não apenas a conquista da atriz, mas também sua herança artística, já que Torres é filha da atriz Fernanda Montenegro.

Mural homenageia Nise da Silveira
Também na região central da capital paulista, um novo e imponente mural foi produzido na Avenida Duque de Caxias. A obra de 20 andares celebra outra mulher que fez história: Nise da Silveira, a psiquiatra alagoana que revolucionou a saúde mental no Brasil. Intitulado “O Navegar de Nise”, o mural é de autoria da artista Ursa.
A pintura é um resgate histórico. Nise, que se formou em Medicina na Bahia em 1926, foi uma das poucas vozes contra métodos brutais como a lobotomia e o eletrochoque. Em vez disso, ela propôs o afeto e a arte como cura. O grafite reflete as ideias de Nise ao estampar o rosto da psiquiatra cercado por elementos que remetem às criações artísticas de seus pacientes e uma de suas frases mais conhecidas: “Gente curada demais é chata. Todo mundo tem um pouco de loucura”.
A artista revelou em seu perfil no Instagram que a experiência foi marcada por um profundo contraste entre a técnica e a vulnerabilidade humana.
Atualmente, a Lei da Cidade Limpa da Prefeitura de São Paulo proíbe grafites em fachadas laterais sem janelas, as chamadas empenas cegas, de modo que a maioria das pinturas é realizada via festivais ou pelo edital Museu de Arte de Rua (Mar). Criado em 2017, o Mar busca o fortalecimento e o reconhecimento das artes urbanas em São Paulo. A iniciativa atua por meio de projetos especiais”, em parceria com a administração pública, e de editais que selecionam propostas nas categorias “Solo” (muros) e “Altura” (prédios).