
Os detalhes específicos e a importância exata da Inteligência dos EUA para o esforço de guerra da Ucrânia, por razões óbvias, nunca foi explicado em detalhes. Mas vários relatórios, autoridades e vazamentos apontam que ela desempenha duas funções importantes: ajudar a Ucrânia a planejar operações ofensivas contras as forças russas e dar a Kiev um aviso prédio vital sobre as ameaças representadas pela chegada de drones e mísseis russos.
“Os Estados Unidos podem fornecer à Ucrânia as coordenadas ou imagens de satélite de onde estão localizados os centros logísticos russos, e então a Ucrânia pode usar essas informações para destruí-los”, disse Marina Miron, pesquisadora de pós-doutorado do Departamento de Estudos de Guerra do King’s College de Londres, à al Jazeera. “Você precisa dessas informações da perspectiva ucraniana para atingir objetivos hostis, como depósitos de munição e centros logísticos.”
Além disso, sem a Inteligência dos EUA, a Ucrânia não poderá fazer uso tão eficaz do armamento ocidental de longo alcance, como os lançadores Himars fabricados nos EUA e os mísseis Stormshadow fornecidos pelo Reino Unido e pela França.
Em fevereiro de 2024, uma investigação do New York Times revelou que, depois que um centro de comando das Forças Armadas ucranianas foi destruído nos meses após a invasão em grande escala da Rússia, um bunker subterrâneo foi construído para substituí-lo. Nesse bunker, os soldados ucranianos rastreiam os satélites espiões russos e ouvem as conversas entre os militares russos. A base é quase totalmente financiada e parcialmente equipada pela CIA, informou o Times.
O relatório acrescentou que há várias bases de espionagem apoiadas pela CIA na Ucrânia, inclusive em 12 locais secretos ao longo da fronteira com a Rússia. A investigação revelou ainda que, por volta de 2016, a CIA começou a treinar uma força de comando ucraniana de elite, chamada de Unidade 2245, que apreendeu drones e equipamentos de comunicação russos. Esses dispositivos seriam então submetidos a engenharia reversa pela CIA para decodificar a criptografia de Moscou. Um dos oficiais treinados da 2245 era Kyrylo Budanov, que agora é o chefe de Inteligência militar da Ucrânia.
A Inteligência americana também é importante para a população civil ucraniana. O fluxo constante de informações em tempo real fornecidas por Washington também deu aos militares, à infraestrutura nacional crítica e à população civil da Ucrânia informações antecipadas valiosas sobre as ameaças que se aproximam. As sirenes de ataque aéreo e os alertas de telefones celulares da Ucrânia são todos informados, em maior ou menor grau, pelos dados de alerta antecipado fornecidos pelos satélites dos EUA, que podem detectar lançamentos de aeronaves e mísseis nas profundezas do território russo.
As nações européias também têm satélites espiões que podem oferecer algumas imagens, mas não está claro se eles estão sintonizados para fornecer o tipo de Inteligência de que a Ucrânia precisa, segundo a al Jazeera. Já a Ucrânia tem dois satélites espiões adquiridos comercialmente, fabricados pela empresa finlandesa ICEYE. Um deles foi comprado por uma organização sem fins lucrativos e o outro foi fornecido pelo governo alemão e pela fabricante de armas alemã Rheinmetall. Mas, mesmo com esses satélites, é improvável que a Ucrânia ou a Europa consigam preencher a lacuna deixada pela pausa no compartilhamento de informações dos EUA, dizem os especialistas.
“A Europa não tem os recursos de inteligência que a Ucrânia recebe dos EUA”, disse Miron, acrescentando que esse corte terá um efeito imediato no campo de batalha, já que os EUA têm “o monopólio dos satélites militares e da Inteligência”.
Os militares ucranianos também dependem da Starlink, de propriedade da SpaceX de Elon Musk, para “comunicações, reconhecimento tático e uso de drones FPV [visão em primeira pessoa]”, explica Miron. A Starlink foi ativado na Ucrânia em fevereiro de 2022 depois que a invasão russa interrompeu a conectividade com a internet.
Musk é um aliado próximo do presidente Trump. Recentemente, negociadores dos EUA disseram a Kiev que desligariam a Starlink se a Ucrânia não chegasse a um acordo sobre minerais essenciais, informou a agência de notícias Reuters citando uma fonte anônima que foi informada sobre as negociações. A Casa Branca tem usado o acordo sobre exploração de terras raras como barganha para continuar apoiando a Ucrânia militarmente.
As capacidades que os militares têm devido à Starlink também são “difíceis de igualar”, afirma Miron, embora a operadora de satélites francesa Eutelsat tenha oferecido uma alternativa para certas aplicações de defesa. Enquanto a Starlink tem 7 mil satélites de órbita terrestre baixa (LEO, na sigla em inglês), a Eutelsat tem cerca de 630, apoiados por 35 satélites em órbitas mais altas.