
Quando vi a manchete ‘María Corina Machado vence o Prêmio da Paz’, quase ri do absurdo. Mas não o fiz, porque não há nada de engraçado em premiar alguém cuja política trouxe tanto sofrimento. Qualquer um que saiba o que ela defende entende que não há nada de remotamente pacífico em sua atuação.
Se isso é o que conta como “paz” em 2025, então o prêmio em si perdeu toda a sua credibilidade. Sou venezuelana-americana e entendo exatamente tudo o que Machado representa. Ela é o rosto sorridente da máquina de mudanças de regime de Washington, a porta-voz polida das sanções, da privatização e da intervenção estrangeira, disfarçadas de democracia.
A política de Machado está enraizada na violência. Ela já pediu intervenção estrangeira, chegando a apelar diretamente a Benjamin Netanyahu, o arquiteto do aniquilamento em Gaza, para “libertar” a Venezuela com bombas em nome da “liberdade”. Machado exigiu sanções, essa forma silenciosa de guerra cujos efeitos — como demonstraram estudos publicados na The Lancet e em outros periódicos — mataram mais pessoas do que a própria guerra, ao cortar acesso a remédios, alimentos e energia de populações inteiras.
Machado passou toda a sua vida política promovendo divisão, corroendo a soberania da Venezuela e negando ao seu povo o direito de viver com dignidade.
É sobre isso que María Corina Machado realmente se trata:
Machado também foi uma das arquitetas políticas da “La Salida”, a campanha da oposição em 2014 que convocou protestos escalonados, incluindo táticas de guarimba. Não foram “protestos pacíficos”, como dizia a imprensa estrangeira: eram barricadas organizadas para paralisar o país e forçar a queda do governo. Ruas foram bloqueadas com lixo em chamas e arame farpado, ônibus de trabalhadores foram incendiados e pessoas suspeitas de serem chavistas foram espancadas ou mortas. Até ambulâncias e médicos foram atacados. Algumas brigadas médicas cubanas quase foram queimadas vivas. Prédios públicos, caminhões de alimentos e escolas foram destruídos. Bairros inteiros ficaram reféns do medo, enquanto líderes da oposição como Machado aplaudiam e chamavam isso de “resistência”.
Ela elogia as “ações decisivas” de Trump contra o que chama de “empresa criminosa”, alinhando-se ao mesmo homem que encarcerou crianças migrantes e destruiu famílias sob vigilância do ICE, enquanto mães venezuelanas ainda buscam por seus filhos desaparecidos sob as políticas migratórias dos EUA.
Machado não é símbolo de paz nem de progresso. Ela é parte de uma aliança global entre fascismo, sionismo e neoliberalismo — um eixo que justifica a dominação na linguagem da democracia e da paz. Na Venezuela, essa aliança significou golpes, sanções e privatização. Em Gaza, significa genocídio e apagamento de um povo. A ideologia é a mesma: a crença de que algumas vidas são descartáveis, de que a soberania é negociável e de que a violência pode ser vendida como ordem.
Se Henry Kissinger pôde ganhar um Prêmio da Paz, por que não María Corina Machado? Talvez no próximo ano deem o prêmio para a Fundação Humanitária de Gaza por sua “compaixão sob ocupação”.
Cada vez que esse prêmio é entregue a um arquiteto da violência disfarçado de diplomata, ele cospe no rosto daqueles que de fato lutam pela paz: os médicos palestinos que cavam corpos sob os escombros, os jornalistas que arriscam a vida em Gaza para documentar a verdade e os trabalhadores humanitários da Flotilha que velejam para romper o cerco e entregar ajuda a crianças famintas, com nada além de coragem e convicção.
Mas a verdadeira paz não é negociada em salas de reunião nem concedida em palcos. A verdadeira paz é construída por mulheres que organizam redes de alimentos durante bloqueios, por comunidades indígenas que defendem rios da exploração, por trabalhadores que se recusam a ser famintos até obedecerem, por mães venezuelanas que se mobilizam para exigir a devolução de filhos sequestrados pelas políticas migratórias dos EUA e por nações que escolhem a soberania em vez da servidão. Essa é a paz que Venezuela, Cuba, Palestina e cada nação do Sul Global merece.
*Michelle Ellner é coordenadora de campanhas para a América Latina na CODEPINK.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autor anão necessariamente expressa a linha editorial do jornal.