

O Brasil desperdiça, todos os dias, um volume de água tratada equivalente a mais de 6 mil piscinas olímpicas — número que escancara a dimensão de um problema estrutural e persistente no saneamento básico.
O dado integra o mais recente levantamento do Instituto Trata Brasil, realizado em parceria com a consultoria GO Associados, especializada em infraestrutura e saneamento.
Em um ano, as perdas somaram 5,8 bilhões de metros cúbicos, quantidade capaz de abastecer aproximadamente 50 milhões de pessoas. Estudos apontam que o uso de tecnologia pode ajudar a monitorar a distribuição de água e apontar pontos de perda.
Além de representar prejuízo econômico e risco de desabastecimento, esse desperdício pressiona ainda mais os recursos hídricos em um contexto de eventos extremos, secas recorrentes e mudanças climáticas, com o país perdendo muita água antes mesmo de ela chegar às torneiras.
Na tentativa de resolver esse problema com soluções de engenharia, a professora Maria Mercedes Gamboa Medina, do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, destaca que tecnologias de monitoramento e modelagem têm papel decisivo na redução de perdas.
“A apresentação desses sistemas ajuda muito a compreender o que se passa e também em como fazer uma melhor gestão, por exemplo, na redução das perdas e na identificação de quando acontecem novas perdas também”, afirma.
Com modelos computacionais, variáveis como pressão, níveis de reservatórios, ativação de bombas e outros indicadores podem ser simulados e analisados matematicamente. “Dessa forma teremos como agir rapidamente e evitar um desperdício maior de água.”
A pesquisadora atua no Laboratório de Simulação Numérica (Labsin), do Departamento de Hidráulica e Saneamento da EESC, onde se desenvolvem metodologias específicas para detecção de vazamentos, especialmente aqueles que não aparecem na superfície.
“Os vazamentos maiores que estouram no asfalto podem ser notificados facilmente e tratados rapidamente. Mas os vazamentos que não são aparentes podem representar um volume muito maior de perda ao longo do tempo e são mais difíceis de detectar.”
Por isso, a equipe busca novas formas de analisar os dados coletados na rede.
“Tentamos propor novas formas de interpretar os sinais de pressão coletados com sensores espalhados na rede, utilizando análise estatística e algoritmos capazes de identificar quando o comportamento do sistema foge do padrão”.
Além disso, ela completa que, quando um alarme é ativado, uma das equipes de campo vai ao local para investigar o ocorrido e corrigir o problema rapidamente.
De acordo com Maria, o primeiro desafio está na própria capacidade de medir as perdas. “O problema começa em saber quanta perda de água tem, porque se cada um soubesse para onde vai cada litro de água que sai das suas fontes, não deixava acontecer”, afirma.
Na prática, a quantificação ocorre por meio da diferença entre o volume que sai dos reservatórios e o consumo registrado pelos hidrômetros.
Maria explica que a medição representa tanto o volume de água perdido, por exemplo, através de vazamentos que infiltram no solo até causar problemas estruturais, quanto o volume de água consumida, mas devido fraudes ou deficiências na medição, não fica registrado nos hidrômetros.
*Matérias original de Joyce Pezzato, do Jornal da USP
O post Tecnologia promete reduzir desperdício de água tratada apareceu primeiro em Canal Rural.