Em 2020, Delcy Rodríguez falava sobre intenção de Trump em desestabilizar Venezuela: ‘Não temos um segundo de respiro’

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, em parceria com o Peoples Dispatch, em 2020, a atual presidenta interina da Venezuela — à época vice de Maduro —, Delcy Rodríguez, já prenunciava as intenções do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com relação ao país caribenho.

“Nós não temos um segundo de respiro. Não sabemos o que Trump pode fazer antes de deixar o mandato. Nós não podemos descansar e não descansaremos um minuto quando se trata da defesa do povo venezuelano”, afirmou no dia 9 de dezembro de 2020, quando o mundo ainda vivia sob os efeitos da pandemia de Covid-19.

A conversa com a então vice-presidenta aconteceu alguns dias após o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), sigla chavista a qual ela é filiada, obter 245 das 277 cadeiras da Assembleia Nacional, com 4,2 milhões de votos. Porém, Rodríguez afirmou que, ao invés de celebrar a vitória, o governo bolivariano permaneceria alerta frente a uma possível ação violenta do governo dos Estados Unidos contra a nação latino-americana.

Na ocasião, o presidente Nicolás Maduro citou como exemplo de possíveis ataques o fato de ter tido que alterar o local de votação de última hora para se proteger de um atentado.

Cinco anos após o episódio, os Estados Unidos sequestraram Maduro além de bombardear Caracas e deixar, até o momento, mais de 80 mortos, no dia 3 de janeiro.

Nesta segunda-feira (5), dois dias após os ataques estadunidenses contra a Venezuela, o Parlamento tomou posse em cerimônia para o próximo período constitucional (2026-2031) sob forte comoção e um discurso de unidade nacional. A cadeira de Cilia Flores, esposa de Maduro e também vítima do sequestro estadunidense, permaneceu vazia durante a sessão. Seu irmão, Jorge Rodríguez, foi eleito presidente da Assembleia Nacional.

Vinte anos atrás, em 2000, o então presidente Hugo Chávez já falava sobre o desejo estadunidense de controlar o petróleo venezuelano. A análise de Rodriguez, portanto, reforça o longo histórico de ataques dos Estados Unidos, além dos bloqueios impostos por Washington, também mencionados na entrevista.

Cenário político da época e Lei Antibloqueio

Com a maioria qualificada do parlamento, o PSUV teria autonomia para aprovar leis orgânicas, convocar uma nova constituinte, além de nomear representantes de outros poderes, como Ministério Público, Poder Eleitoral, Tribunal Supremo de Justiça e a Procuradoria Geral da República. 

A vitória chavista nas eleições de 2020 consolidava a hegemonia do partido de Hugo Chávez e de Maduro em nível nacional, controlando o Executivo e o Legislativo do país, além de 19 governos estaduais e 90% das prefeituras. No entanto, a então vice-presidenta lembrou que a proposta do partido é de que povo venezuelano assuma o poder. 

“Você vai a qualquer comunidade na Venezuela e o povo está realizando a cartografia social. Isso você não vai ver nos grandes meios de comunicação, porque eles não entendem o poder popular”, contou. 

Em setembro daquele ano, Delcy Rodríguez, que também liderava o Ministério de Economia e Finanças, participou da aprovação da Lei Antibloqueio, que era o projeto-chave do governo venezuelano para a recuperação econômica. A aposta era oferecer melhores condições fiscais e proteção jurídica para atrair investimento estrangeiro. Rodríguez destacou que uma das principais faces do problema econômico do país é a perseguição dos Estados Unidos contra os empresários.

“Cada operação terá um acordo de confidencialidade, sob um regime especial que se cria a partir da lei, para proteger da perseguição o objeto central de cada contrato. Imediatamente depois que mostram algum interesse em investir na Venezuela, as empresas já recebem ligações da Secretaria do Tesouro, da OFAC, da Secretaria de Estado, para evitar qualquer tipo de oportunidade [de ataque]”, explicou a vice-presidenta.

A lei também faz parte da chamada “diplomacia bolivariana de paz” que busca consolidar uma compreensão geopolítica multipolar. Naquele momento, o país já tinha assinado 600 projetos de cooperação com a China, além de parcerias com a Rússia e o Irã. Não por acaso, quando Maduro foi eleito para o terceiro mandato e tomou posse, em janeiro do ano passado, o teor de seu discurso foi exatamente esse: seis anos de paz.

Saída da OEA

Delcy, que já foi ministra das Relações Exteriores, também relembrou que a saída voluntária da Venezuela da Organização dos Estados Americanos (OEA), em 2019, e a atuação na Organização das Nações Unidas (ONU) fazem parte da política de direcionar esforços para a construção de novos polos contra-hegemônicos. 

Ainda sob o impacto do golpe de Estado na Bolívia, Rodríguez chegou a avaliar que não descartava a participação do secretário-geral da OEA, Luis Almagro, em planos de desestabilização contra o seu país. “Luis Almagro é um criminoso selvagem, que pretendia a invasão da Venezuela”, afirmou.

“Estamos batalhando, constituímos um grupo de países em torno à defesa da Carta das Nações Unidas. Se não defendemos a Carta da ONU, essa organização está destinada a desaparecer ou definitivamente será ineficaz para atender aos problemas da humanidade. Isso estamos vendo agora com a pandemia da Covid-19”, acrescenta a vice-presidenta venezuelana. 

Perspectiva internacional

As eleições legislativas venezuelanas naquele ano de 2020 significavam uma finalização de um ciclo de processos eleitorais na América Latina, que havia começado com o pleito na Bolívia, passando pelo plebiscito no Chile e pelas eleições municipais no Brasil. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, o chanceler Jorge Arreaza se mostrou otimista com o atual cenário e já havia declarado que a prioridade da política exterior da Venezuela seria reativar a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), além da consolidação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

Com otimismo, Delcy Rodríguez reiterou, à época, que os últimos resultados positivos na região e no seu país marcam o final de um período de governos “sicários”. A atual mandatária fez críticas ao então presidente brasileiro Jair Bolsonaro, comparando-o com Trump, e ao argentino Maurício Macri. Naquele ano, Javier Milei, atual presidente argentino, ainda não havia aparecido no cenário internacional.

“Há novos ares na América do Sul que apontam para a Pátria Grande, que buscam abandonar essa política anacrônica da Doutrina Monroe, na qual os governos se converteram em franquias de Donald Trump. Bolsonaro é uma franquia e um papagaio de Donald Trump. Macri [ex-presidente argentino] também. Há uma recomposição moral, ética e histórica nos nossos países da América Latina”, concluiu a vice-presidenta venezuelana.

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