EUA cometeram erro com o Irã e pagarão por isso, diz jornalista de Teerã

O frágil cessar-fogo anunciado pelos Estados Unidos nos ataques conjuntos com Israel contra o Irã se equilibra mais precariamente a cada dia, ameaçado pelas ações de Tel Aviv e declarações do presidente estadunidense, Donald Trump, que nesta segunda-feira (13) ensaiou iniciar uma frente naval da guerra. Mas, de dentro do Irã, não apenas o governo mantém o discurso de desafio às agressões ocidentais.

O Brasil de Fato conversou com a jornalista Zahra Khanjani, moradora da capital iraniana, Teerã, que explicou como a trégua anunciada por Trump em 7 de abril e as frustradas negociações de paz realizadas no Paquistão foram recebidas em seu país. A editora-chefe da rádio Sedayea Iran (“Voz do Irã” em tradução livre) afirmou que, ao contrário da retórica do magnata, o país não quer o fim da guerra, mas sim escolher o momento de interromper o conflito iniciado por Washington e Tel Aviv.

“Quando anunciaram o cessar-fogo, as pessoas estavam marchando”, explica ela. “Era plena madrugada e as pessoas estavam marchando. Nunca me esquecerei daquela noite, porque havia tanta fúria entre as pessoas. Elas não queriam isso [o cessar-fogo], mas sim lutar até acabar com esses governos criminosos”, afirma.

“Não queremos um cessar-fogo, mas sim acabar, de uma vez por todas, com esses miseráveis, esses demônios na terra que matam inocentes, mulheres e crianças, sem nem saber o motivo. Eles nem sabem por que estão fazendo isso”, diz.

Khanjani também afirma que a possibilidade de sucesso nas tratativas de Islamabad não comoveu os iranianos. “Já confiamos nos Estados Unidos vezes demais”, diz.

Quarenta noites nas ruas

Pelo menos 2.076 pessoas foram mortas em ataques conjuntos entre Estados Unidos e Israel contra o Irã desde 28 de fevereiro, segundo o Ministério da Saúde iraniano, com vítimas de oito meses a 88 anos de idade.

Entre os mortos, estão pelo menos 240 mulheres e 212 crianças. Mais de 26.500 pessoas ficaram feridas, incluindo pelo menos 4 mil mulheres e 1.621 crianças. Algumas das vítimas eram conhecidas de Khanjani.

“Infelizmente, perdi muitos entes queridos, perdi meu primo. Ele tinha quase 60 anos. Perdi amigos, vizinhos e vi a destruição de suas casas. Eu mesma testemunhei vários desses ataques”, conta.

Apesar da campanha diária de bombardeios — uma das formas de agressão mais aterrorizantes por não permitir defesa e transmitir sensação de extrema vulnerabilidade —, a jornalista afirma que a população não se curvou ao medo. Ao contrário de se esconder em bunkers, os iranianos saíram às ruas. Todas as noites.

“Suportar, resistir e proteger o país durante 40 dias de ataques e bombardeios implacáveis ​​por duas superpotências globais foi difícil, mas a vontade e a coragem que demonstraram durante esses 40 dias foram impressionantes”, conta.

Segundo ela, as marchas noturnas tornaram-se rotina. A população ocupou as ruas mesmo durante os bombardeios, celebrou o Ano Novo nelas e chegou a fazer refeições ao ar livre. “As cenas que testemunhamos durante esses 40 dias foram magníficas, extraordinárias. Nada comuns”, afirma.

Sem deixar ninguém para trás

Segundo Khanjani, uma das consequências da guerra foi unir o país em torno de uma causa comum — algo que, no ano anterior, durante os protestos por melhorias econômicas, parecia improvável. Israel chegou a usar a divisão interna como argumento para convencer os EUA a atacar, apostando que a oposição iraniana aproveitaria para derrubar o governo em poucos dias.

O cálculo não se confirmou. “Quando os ataques começaram, o povo iraniano se uniu ainda mais do que antes. Em qualquer país existem divergências, pessoas com crenças diferentes, mas quando o primeiro míssil veio em nossa direção, deixamos de lado todas as diferenças”, diz a jornalista. “Nos unimos contra inimigos que são inimigos da humanidade. Nos unimos contra eles para proteger a pátria”

Ela destaca o custo humano do conflito. “Perdemos muita gente, nosso amado líder da revolução, milhares ficaram feridos. Essa é uma grande dor que sentimos em nossos corações. Cada vez que pensamos nele, nossos corações ardem. Mas um dia vingaremos essas mortes”, diz.

Para ela, os iranianos defendem não apenas a própria pátria, mas os povos oprimidos do Oriente Médio e o mundo. “O Irã é o núcleo do grande eixo da resistência. Não estamos lutando apenas por nós mesmos. Os Estados Unidos querem impor suas regras, suas normas, em todos os lugares”, afirma.

“É por isso que jamais nos esqueceremos de nossos irmãos libaneses, iraquianos ou iemenitas. Jamais os abandonaremos, jamais”, diz. “Vocês estão vendo o que estão fazendo com Cuba? O que fizeram na Venezuela? Mas cometeram um erro com o Irã. Cometeram um erro com o Irã e pagarão por isso.”

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